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O “espião” que todos amaram
O ator, poeta e performer paranaense Antônio Celso Medeiros Leopolski (1959–2010) nasceu em Foz do Iguaçu, cresceu em Pernambuco e viveu durante muitos anos no Paraná, inclusive em Cascavel, onde estudou no Colégio Estadual Wilson Joffre.

Líder estudantil, cheio de ideias revolucionárias, artísticas e políticas, em plena ditadura, certo dia, ele aparece no Centro Estudantil Castro Alves (Ceca), o grêmio de alunos do Colégio Wilson Joffre, fazendo perguntas suspeitas e atemorizantes. A primeira pergunta foi de dobrar os joelhos: o que os dirigentes do Ceca acham dos militares? Foi informado que havia satisfação com a escolha do general Geisel para a Presidência. Seria a chance de retornar ao ciclo democrático quebrado pelo AI-5. Era o máximo possível a dizer naqueles tempos perigosos. Na verdade, Antônio não queria “xisnovar” (espionar). Filho de militar, ele queria se enturmar e não ser rejeitado, porque havia muita desconfiança e temor aos militares. Ele já havia sentido discriminação em outros lugares. Assim, apesar dos pesadelos causados pelas provocações do Antônio Celso, os dirigentes do Ceca promoveram diversas ações inovadoras com a participação dele e de seu colega Pedro Paiva, que hoje trabalha na África e esteve em visita ao Paraná recentemente. O Ceca era um grêmio especial. Constituído em 1966 sob a influência do líder estudantil Luiz Picoli, fundador da Aces (Associação Cascavelense dos Estudantes Secundários), o Ceca sempre teve ótimas diretorias.

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Na gestão de Douglas Crippa, em 1973/1974, o Ceca chegou ao auge de sua democracia interna. Uma das propostas da chapa era dobrar a representatividade das salas no Conselho de Alunos. O Ceca era administrado por uma diretoria executiva eleita anualmente e tinha um corpo deliberativo formado pelos líderes eleitos em cada sala. Um dos artífices da ideia de dobrar o número de representantes por classe foi Antônio Celso Leopolski. Por que dobrar? Por que a maioria dos líderes de sala eram populares mas não participantes. Costumavam ganhar gordas mesadas dos pais e não tinham problemas. Com a eleição de vicelíderes, as assembleias estudantis passaram a ter o triplo da participação habitual. Numa dessas assembleias surgiu a ideia de pegar na saída um professor que enfrentava os alunos rebeldes no braço. E sempre surrava. A turma dos panos quentes não deixou a proposta absurda ser apresentada na assembleia, mas dois estudantes se escalaram para “justiçar” o professor em determinado fim de semana, quando chegasse ao Wilson Joffre para uma reunião de pais e mestres. A deliberação deu em um tremendo desastre: os dois “executores” apanharam do professor ao mesmo tempo e baixaram a crista. Depois, todos se tornaram amigos, por mediação da diretoria do grêmio.

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Antônio Celso ficou pouco tempo em Cascavel. Visitou os colegas do Wilson Joffre um por um para avisar que seu pai militar havia sido transferido para Curitiba e se despediu deixando presentes a todos. Jamais seria esquecido. Em seguida foi para Blumenau e finalmente se radicou em Joinvile, onde morreu, aos 51 anos, em novembro de 2010, depois de deixar um rastro luminoso de realizações culturais de grande valor, como o Teatro Lambe-Lambe e seu incrível espetáculo de bonecos que conseguia atrair as crianças também seus pais. Nunca se viu tanto pai levando os filhos para os espetáculos de marionetes quanto nos de Antônio Bonequeiro, como ele gostava de ser chamado. Muito natural: enquanto as crianças viam o espetáculo infantil, os pais se divertiam com espetáculos eróticos de bonecos muito especiais manipulados por esse palhaço ousado e iconoclasta. Esse era o Antônio Celso, o Antônio Bonequeiro, além do mais um talentoso ator e poeta, letrista da maravilhosa canção Paraná, do maestro Flávio Fanucchi1.

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Alceu A. Sperança – escritor alceusperanca@ig.com.br

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Ouça a canção “Paraná” (Flavio Fanucchi-Antônio Leopolski): http://www.yasni.com/ext.php?url=http%3A%2F%2Fsoundcloud.com%2Fflaviofann%2Fparan&name=Celso +Barreto&cat=filter&showads=1