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25 de Abril

Esta a madrugada que eu esperava


O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silncio
E livres habitamos a substncia do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'O Nome das Coisas'

Esta Gente
Esta gente cujo rosto
s vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis
Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre
Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por pacincia e fome
a gente em quem
Um pas ocupado
Escreve o seu nome
E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do cho
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada
Meu canto se renova
E recomeo a busca
De um pas liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia"

Portugal

Avivo no teu rosto o rosto que me deste,


E torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que no te desfigura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Sers sempre o que sou.
E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneo.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemo conheo:
Teimoso aventureiro da iluso,
Surdo s razes do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gvea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.
Miguel Torga, in 'Dirio X'