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Linguagem e

Pensamento

Linguagem e Pensamento
Claudia Rosa Riolfi

Linguagem e
Pensamento
Claudia Rosa Riolfi

Linguagem e
Pensamento
2.ª edição
2009
Claudia Rosa Riolfi

Psicanalista. Doutora em Linguística pela Unicamp. Mestre em Linguística


Aplicada pela Unicamp. Professora das Metodologias de Ensino de Língua Portu-
guesa, Linguística e Alfabetização da Faculdade de Educação da USP.
Sumário
A linguagem humana
e seus efeitos sobre o pensamento.................................... 11
Pensar não é tão simples como parece.............................................................................. 12
O pesadelo dos pesadelos: uma sociedade humana sem pensamentos.............. 16

O imprevisível animal humano............................................ 25


Os animais não se organizam do mesmo modo............................................................. 25
É conversando que a gente não se entende.................................................................... 27
Modos diferentes para explicar como a gente se torna o que é............................... 29
O professor-detetive ou, simplesmente, o bom professor.......................................... 31

Concepção do homem como ser de linguagem........... 39


A linguagem é o que dá o nosso contorno....................................................................... 40
Alguns traços da linguagem humana................................................................................. 42
A linguagem antes dos trabalhos de Benveniste........................................................... 43

Analisar os modos de falar e de pensar:


exclusividade do ser humano............................................... 53
A capacidade para a reflexão linguística se ganha na cultura................................... 55
A língua como objeto de análise pode gerar muito prazer........................................ 57
A perspectiva histórica do desenvolvimento
do pensamento humano..........................................................67
Os sustos que a gente leva quando encontra quem sabe mais................................ 67
Introduzindo o pensamento de Vygotsky......................................................................... 69
A perspectiva histórico-cultural do desenvolvimento humano............................... 71

Significado da palavra:
lugar de junção do pensamento e da linguagem......... 79
No início, era o corpo................................................................................................................ 79
O conceito de pensamento verbal em Vygotsky.............................................................. 81
A dupla função organizadora da palavra.......................................................................... 83

O papel da linguagem no desenvolvimento


intelectual de uma criança..................................................... 93
A linguagem torna o homem mais complexo................................................................. 94
O conceito de internalização e sua relevância para refletir o ato educativo......... 96
A zona de desenvolvimento proximal
e sua aplicabilidade para refletir sobre a educação....................................................... 98

A influência do aprendizado escolar


no desenvolvimento da criança.........................................109
O papel da escola no desenvolvimento intelectual....................................................110
Construir uma educação desafiadora
para promover o desenvolvimento humano.................................................................112
Construindo uma relação pedagógica
na qual seja possível explorar os conteúdos..................................................................116
O desafio de ensinar a escrever bem nos dias de hoje...123
A invenção da escrita..............................................................................................................123
A mutação das funções sociais da escrita.......................................................................124
O papel do professor no processo de aprender a escrever......................................127
Auxiliar a criança a se apropriar do código
alfabético exige saber o que estamos fazendo.............................................................128

Perspectiva histórico-social: a aula de Língua


Portuguesa e seus textos nela produzidos....................139
O pensamento sobre a alfabetização no Brasil.............................................................139
A interlocução verbal na aula de Língua Portuguesa.................................................141
A aula de escrita gerando desenvolvimento
subjetivo para o professor e seu aluno.............................................................................144

Gabarito......................................................................................153

Referências.................................................................................161
Apresentação

Prezado aluno
O material que agora lhe chega em mãos é um desdobramento de quase
20 anos de meu trabalho de pesquisa sobre a escrita. Por meio dele, tenho ten-
tado circunscrever uma questão que me intriga desde que sou muito pequena:
por que em nossos dias não surge um pensador revolucionário que formule uma
ideia que altere tudo o que hoje sabemos sobre o mundo?

Onde estão hoje os gênios de outrora, aqueles intrépidos pensadores que,


ao longo da história da humanidade, “suaram sua camisa”, muitas vezes prejudi-
caram sua saúde, foram perseguidos por aqueles que questionavam suas “ideias
exóticas” e, no final, ofereceram o inestimável presente de um novo modo de
pensar sobre o mundo?

Onde estão, agora, os novos pensadores que se tornarão conhecidos mun-


dialmente, terão seus nomes registrados nas enciclopédias – enfim, alterarão o
estado atual do conhecimento humano? Eu quero muito saber isso e, por esse
motivo, aceitei o convite para preparar este curso para você. Quem sabe você não
se encanta com essa linha de reflexão e, assim, eu terei uma companhia agradável
para continuar o meu trabalho investigativo?

Você deve estar entendendo que meu interesse sobre o tema pensamento
e linguagem não consiste em uma questão abstrata, muito pelo contrário. Se um
dia desejei estudar esse assunto foi porque conclui que conhecê-lo me ajudaria
a refletir sobre o advento de uma passagem que vem se tornando cada vez mais
rara: o momento em que um sujeito abandona sua dificuldade para escrever e se
autoriza a pensar com a sua própria cabeça e, posteriormente, a tornar públicos
os resultados de sua reflexão.

Ao pensar sobre essa dificuldade, muito se fala que o jovem de hoje não
tem muita coisa para dizer, mas pouco se diz que seu silenciamento foi causado
por ruídos que ele não produziu... Diante dessa ironia, convoco você, meu colega
professor, a assumir comigo a responsabilidade de se indagar a respeito de que
respostas a nossa geração de adultos poderá deixar para as crianças que – muitas
vezes tendo perdido a esperança de construir para si um futuro melhor – se inter-
rogam sobre o sentido de ler e escrever na escola.

Tentei tornar o seu caminho o menos árduo possível e, para isso, tive que
trabalhar muito. Espero que, honrando o meu esforço, você se engaje no percurso
que ora se inicia e que goste do trabalho.

Claudia Rosa Riolfi


A linguagem humana
e seus efeitos sobre o pensamento
O objetivo deste capítulo é convidar o leitor a se interessar por um
tema que, hoje em dia, tem mais relevância social do que nunca: as conse-
quências éticas da compreensão da necessidade de nós, professores, in-
sistirmos vigorosamente em nos mantermos no exercício do pensamento
criativo e no desafio que é a mediação da linguagem nas trocas com
nossos semelhantes.

É claro para todos que um ser humano não so- Você já imaginou
brevive muito tempo se for privado de água e de como seria sua vida
alimento. Recentemente, tem se tornado evidente se fosse impedido
que, para além dessas necessidades classicamente de verbalizar seus
reconhecidas como sendo as básicas, dificilmente gostos e opiniões?
qualquer um de nós teria sobrevivido aos primei-
ros anos da infância sem receber ao menos um pouquinho de amor da-
queles que cuidaram de nós. Mesmo agora, quando somos adultos, você
pode imaginar quanto tempo aguentaria, por exemplo, sem ouvir a voz de
seus familiares, sem poder contar como você está se sentindo para alguém
em quem confia – em suma, sem falar e sem ouvir palavras?

A observação de pessoas que passaram por longo período de isolamento,


como por exemplo doentes graves ou prisioneiros, não deixa dúvidas: o pobre
infeliz que está privado de trocas verbais com outros humanos logo perde o
interesse em manter os cuidados de higiene e de aparência pessoal, “esque-
ce” de comer nas horas costumeiras, desenvolve distúrbios do sono, perde a
noção do tempo. Resumindo, tem toda sua vida mental desorganizada.

Por que isso acontece? Porque não poder falar é uma das maiores agres-
sões que podem ser imputadas ao ser humano, uma vez que o leva a agir
contra a sua natureza, a de ser um “ser de linguagem”. Compreender esse
traço de nossa essência, ou seja, a extensão do poder que a linguagem
tem sobre nós, é de suma importância para refletir sobre a construção e
a manutenção de nossa cultura em geral e, muito particularmente, tem
toda relevância para refletir sobre os sucessos e os impasses da educação
dos alunos que nos foram confiados.
Linguagem e Pensamento

No que se segue, consequentemente, optamos por trazer alguns elementos


que permitem introduzir a reflexão sobre o pensamento humano desde uma
óptica que dá prioridade à linguagem, compreendida como sistema de articula-
ção de signos verbais exclusivo do homem. Antes de começarmos, é importan-
te esclarecer, entretanto, que as relações entre pensamento e linguagem vêm
sendo, há muito tempo, alvo de polêmica entre os mais diversos estudiosos. São
várias as áreas que se dedicam a elucidar essa questão, em especial, mas não
exclusivamente, a medicina, a biologia, a psicologia e a linguística, sem que, en-
tretanto, tenha sido possível alcançar um consenso total na forma de conceber
como linguagem e pensamento se articulam para o humano. Por esse motivo,
como em tudo na vida, senhor leitor, não existe apenas um lugar onde o sol
brilha, sendo necessário “escolher a nossa praia!”. Vamos conhecer uma delas.

Pensar não é tão simples como parece


Desde que o mundo é mundo, os homens têm se interessado por esclare-
cer as obscuras origens de seus pensamentos. Sempre houve alguém interes-
sado em dizer de onde tinha se originado uma ideia qualquer ocorrida a outro
alguém, nem que fosse para lhe imputar uma origem mística, mais comumente
demonológica. Embora há muito tempo tenhamos superado a chamada “época
das trevas”, com certeza o leitor já teve oportunidade de testemunhar, frente
a um pensamento mais estranho, a acusação de outro menos esclarecido que,
piamente declara: “Isso deve ser coisa do capeta!”.
IESDE Brasil S. A.

Deixando de lado as crenças religiosas, essa modalidade de olhar o mundo


é interessante porque exemplifica um tipo de raciocínio que acredita na corres-
pondência direta e imediata entre uma causa e sua consequência – no caso, a
12
A linguagem humana e seus efeitos sobre o pensamento

sugestão feita pelo diabinho como causa e o surgimento do “pensamento” na


cabeça de um sujeito como consequência.

Ou seja, aquele que pensa desse modo acredita que nós temos um cérebro
apenas para servir como uma espécie de quadro-negro onde escrevemos, como
se fossem nossas, as ideias que recebemos dos outros, sem qualquer mediação
de uma reflexão mais elaborada. Você acredita mesmo que somos assim tão
idiotas? Com certeza não!

Esse modo de ver as coisas, além de depreciativo com relação às nossas quali-
dades e potencialidades, tem consequências nefastas para a nossa vida em socie-
dade. Se for legítimo crer que para todo efeito manifesto no mundo será possível
encontrar uma causa lógica, acabaremos por funcionar na crença que foi aquela
dos nossos antepassados macacos, segundo a qual uma reação “natural” de um
sujeito que tivesse acabado de levar um empurrão seria, nada mais nada menos,
do que uma bofetada... Não seria muito difícil imaginar até que ponto de destrui-
ção a sociedade humana teria ido se todos nós tivéssemos mantido o modo de
ver as coisas de nossos primitivos antepassados. Com certeza, sequer estaríamos
aqui para estudar e contar a história de nossa vida de homens e de mulheres.

Por esse motivo, antes de avançarmos nesta reflexão sobre as relações entre
pensamento e linguagem, é importante fazer a crítica de todos os resquícios
desse modo de pensar que, para além do senso comum, ainda permanece em
nossa cultura, disfarçado de ciência.

A ciência que ignorou a importância da linguagem


Visando, portanto, construir uma noção de pensamento mais adequada para
ser mobilizada no interior da escola, vamos recuperar alguns dos traços de uma
das escolas da psicologia que se inscreveu dentre aquelas que não davam a
devida relevância ao papel da linguagem na manutenção da nossa organização
social: o behaviorismo e as linhas que dele se originaram.

Quando nos referimos a essa corrente do pensamento, Você conhece


provavelmente o primeiro nome de autor que nos ocorre é as principais
o de Burrhus Frederic Skinner (1904-1990).1 De fato, esse psi- ideias do
cólogo americano se tornou o mais famoso representante do behaviorismo?

1
Dentre inúmeros sites que contêm dados sobre a bibliografia de Skinner, pela concisão e objetividade, destaca-se o seguinte endereço, do qual
retiramos alguns dados a respeito da vida do autor: <www.cobra.pages.nom.br/ecp-skinner.html>.

13
Linguagem e Pensamento

behaviorismo, uma vez que, ao longo de sua vida, empenhou-se grandemente


em fazer publicidade de suas próprias ideias, na sua maioria oriundas de suas
pesquisas com os animais, realizadas, por sua vez, nos moldes daquelas desen-
volvidas pelo fisiólogo russo que, em 1906, publicou achados experimentais
sobre o reflexo condicionado: Ivan Petrovisch Pavlov (1849-1936).

IESDE Brasil S. A.
A principal descoberta do russo ficou conhecida como condicionamento pa-
vloviano, modalidade de manifestação comportamental que ele percebeu por
meio de estudos que realizava sobre a atividade digestiva de cães. Com experi-
mentação sistemática, ele acabou percebendo que apenas o som de seus passos
no laboratório, após sucessivos pareamentos com um bolo de carne que sempre
era apresentado aos seus animais, dava origem à resposta de salivação dos cães,
que associavam o som com o gosto da carne.

Dentro dessa tradição de pesquisa empirista e coerente com sua postura pes-
soal de materialista e ateu, Skinner acreditava que, a exemplo do que Pavlov havia
demonstrado acontecer com os animais, todos os comportamentos humanos são
moldados pela nossa experiência de punição e recompensa e não por instâncias
mais “subjetivas”, tais como a moral, a força da vontade e assim por diante. Conse-
quentemente, Skinner costumava afirmar que o homem bom só faz o bem porque
o bem é recompensado, e não porque, dados alguns traços de seu caráter, ele teria,
ao menos, um relativo livre-arbítrio para agir deste ou daquele modo.

A elaboração de Skinner, no que se refere à linguagem, é bastante coerente


com os demais aspectos de sua teoria (SKINNER, 1957), ou seja, ele reduz a lingua-
gem a mais um dos comportamentos que podem ser controlados. Ao longo de
sua realização, o autor elaborou o conceito de condicionamento operante, ligeira-
mente diferente da noção de condicionamento (uma junção simples de estímulo
e resposta) que vinha sendo desenvolvida nas formas anteriores de behaviorismo.
14
A linguagem humana e seus efeitos sobre o pensamento

Nessa nova elaboração, acrescenta-se a consideração da possibilidade de o orga-


nismo emitir respostas, em vez de só obtê-las a partir de um estímulo externo.

Ressalte-se, portanto, que o autor tentou explicar o aprendizado e a lingua-


gem verbais dentro do paradigma do condicionamento operante, isto é, de novo
sem mobilizar a categoria do pensamento como uma instância elaborada que
pode mediar, por meio da linguagem, as relações entre o homem e o mundo.

Como o behaviorismo é traduzido na educação?


Na educação, o behaviorismo deu origem a uma abordagem aplicada com o
intuito de se obter um determinado comportamento previamente escolhido. Para
tal fim, costuma-se dar muita ênfase à utilização de condicionantes e reforçadores
arbitrários, como elogios, graus, notas, prêmios, reconhecimento do mestre e dos
colegas etc. Para quem acredita nessa orientação teórica, que parte do princípio
de uma aprendizagem mecânica, com repetições sistemáticas do tipo estímulo-
-resposta automáticas, o ensino consiste em um arranjo e um planejamento de
condições externas que levam os estudantes a aprender, sendo de responsabili-
dade do professor unicamente assegurar a aquisição do comportamento.

Ressalte-se que essa maneira de conceber o ser humano como se fosse total-
mente passível de ser controlado pelos estímulos recebidos do meio impeliu o
autor a chegar ao absurdo de conceber uma comunidade utópica – criada e de-
senvolvida de acordo com os princípios behavioristas – em que, se assim pode-
mos dizer, o homem estaria livre do desconforto de ser possuidor da faculdade
do pensamento, uma vez que todos os seus atos seriam geridos por terceiros.
Um exemplo do que vem sendo chamado de “sociedade de controle” está descri-
to na obra de ficção Walden II (SKINNER, 1977).

Nesses seus devaneios, Skinner imaginou uma


É possível pensar numa
cultura que poderia ser inteiramente controlada por
sociedade totalitária e
meio de um dispositivo extremamente simples: a re-
controladora?
compensa automática dos bons e a eliminação au-
tomática dos maus. Uma olhada mais ingênua naquela sociedade poderia até
nos levar a concluir que a eliminação dos maus poderia ser uma boa ideia, mas,
dada a complexidade do ser humano, em face dessa idealização tentadora, resta
saber como o governante do local faria para evitar os riscos inerentes à tentativa
de tornar o mundo à sua imagem e semelhança. Ou seja, o que o protegeria de
decretar, talvez mesmo sem o saber, que todos aqueles que são diferentes de si

15
Linguagem e Pensamento

são “maus”? Como ele faria para ter certeza de uma certa neutralidade e isenção
para formar os parâmetros adotados para diferenciar o bem do mal?

Uma olhada mais objetiva na história da humanidade logo nos mostra para
onde caminhamos todas as vezes que um poder totalitário foi implementado: para
uma pasteurização da linguagem em uso e para um embotamento do pensamen-
to. E antes que você, prezado leitor, pense que estamos nos desviando aqui de
nosso assunto principal para discutir política, é importante ressaltar que o assunto
que se segue só nos interessa à medida que nos oferece uma interessante abertu-
ra para refletir sobre a linguagem humana e suas relações com o pensamento.

O pesadelo dos pesadelos:


uma sociedade humana sem pensamentos
É visando encontrar um caminho alternativo para introduzir as complexas e
estreitas relações entre linguagem e pensamento que vamos recorrer a uma bri-
lhante obra de ficção, escrita por Eric Arthur Blair, publicada pela primeira vez
em 1949, sob o pseudônimo de George Orwell (2004): o livro 1984.

Sabe-se que essa novela foi inspirada na opressão dos regimes totalitários das
décadas de 1930 e 1940, mas não se resume a uma crítica contra o stalinismo e o
nazismo. Ao contrário, trata-se de uma metáfora atualíssima que nos alerta contra os
perigos da pasteurização da sociedade pela redução do indivíduo em peça para
servir ao Estado ou ao mercado por meio do controle total, incluindo o pensamento.

Narrado em terceira pessoa, a obra-prima O pensamento de um


conta a história de Winston Smith, um tipo homem é independente do
de jornalista ou historiador que, funcionário tempo no qual ele vive?
do Ministério da Verdade, exerce a função de
reescrever e alterar dados de acordo com o interesse do Partido. Por sua vez,
esse órgão onipotente e onipresente exercia feroz vigilância sobre os modos de
pensar de cada cidadão, já que seu controle total se dava, justamente, pelas di-
versas técnicas utilizadas para abolir o livre pensar, nomeado como crimideia.

Antes de prosseguir com a recuperação de alguns fragmentos do texto de


Orwell, é importante frisar que não é a narrativa em si aquilo que nos interessa,
mas a possibilidade de, a partir dessa impressionante metáfora, compreender
que o pensamento humano não é um processo isolado e independente das
contingências histórico-culturais e sim intimamente ligado a elas, que, em certa
medida, determinam-no.
16
A linguagem humana e seus efeitos sobre o pensamento

Neste ponto, uma interessante questão se coloca para nós. Se, em certa
medida, é verdade que “cada cabeça é uma sentença”, dito popular que aponta
para uma relativa impossibilidade de mandar nos modos de pensar de alguém,
como seria possível controlar o pensamento humano?

Com relação a essa questão, a obra de Orwell nos oferece um importante


subsídio para reflexão. No fictício ano de 1984, para além da vigia concreta da
população por meio das câmeras de vídeo e dos microfones ocultos, do desen-
corajamento às atividades solitárias, da tortura física e da pura e simples elimi-
nação dos membros dissonantes, o ficcionista nos mostra que, na sociedade de
controle que ele vinha denunciando, o principal instrumento de controle e de
manipulação do homem era a alteração artificial de sua linguagem.

Para nos mostrar isso, o autor cria uma imagem de cientista de aluguel, uma
espécie de linguista contratado pelo onipotente Partido Ingsok para, juntamen-
te com outros colegas, inventar uma língua artificial para substituir a natural: a
novilíngua. No contexto da novela, trata-se de um idioma fictício desenvolvido
não pela criação de novas palavras, como aparenta ser o caso dos tempos con-
temporâneos nos quais, todos os dias, surgem palavras novas na mídia, mas pela
condensação e a remoção delas. A ideia que guiava os “intelectuais” do partido
era a de que, uma vez que as pessoas não pudessem concretamente se referir
a algo, já que é bastante difícil remeter-se a um objeto cujo nome ignoramos,
aquele algo passaria a não existir.

Antes de prosseguir, saboreemos ao menos um fragmento entrecortado da


fala do linguista, criado por Orwell, em um diálogo com o personagem principal,
que se interessou por conhecer maiores detalhes sobre o seu trabalho:
Tenho a impressão de que imaginas que o nosso trabalho consiste principalmente em inventar
palavras. Nada disso! Estamos é destruindo palavras, às dezenas, às centenas, todos os dias.
Estamos reduzindo a língua à expressão mais simples. A Décima Primeira Edição não conterá
uma única palavra que possa se tornar obsoleta antes de 2050. [...] É lindo destruir palavras.
Naturalmente, o maior desperdício é nos verbos e adjetivos, mas há centenas de substantivos
que podem perfeitamente ser eliminados. Não apenas os sinônimos; os antônimos também.
Afinal de contas, que justificativa existe para a existência de uma palavra que é apenas o
contrário da outra? Cada palavra contém em si o contrário. [...] Não percebes a beleza que
é destruir palavras. Sabes que a Novilíngua é o único idioma do mundo cujo vocabulário se
reduz de ano para ano? [...] Não vês que todo o objetivo da Novilíngua é estreitar a gama
do pensamento? No fim, tornaremos a crimideia literalmente impossível, porque não haverá
palavras para expressá-la. Todos os conceitos necessários serão expressos exatamente por uma
palavra, de sentido rigidamente definido, e cada significado subsidiário eliminado, esquecido.
Já na Décima Primeira Edição, não estaremos longe disso. Mas o processo continuará muito
tempo depois de estarmos mortos. Cada ano, menos e menos palavras, e a gama de consciência
sempre uma pausa menor. [...] Até a literatura do Partido mudará. Mudarão as palavras de ordem.
Como será possível dizer “liberdade é escravidão”, se for abolido o conceito de liberdade? Todo
mecanismo do pensamento será diferente. Com efeito, não haverá pensamento, como hoje o
entendemos. Ortodoxia quer dizer não pensar... não precisar pensar. Ortodoxia é inconsciência.
(ORWELL, 2004, p. 54-55, grifos do autor)
17
Linguagem e Pensamento

Estamos longe da Lendo o extrato, podemos claramente perceber


ficção na sociedade que a tese de Orwell é a de que, por meio do controle
contemporânea? sobre a linguagem, um governo totalitário seria capaz
de impedir que ideias indesejáveis viessem a ocorrer
aos cidadãos, uma vez que, completamente anestesiados pela ordem dominan-
te, restaria aos cidadãos apenas uma imitação de “pensamento”.

Para nós, são especialmente preciosas as três últimas linhas do extrato que
você acabou de ler, pois elas contêm uma ideia que nos é bastante cara: a de
que, em sua dimensão crítica e criativa, o pensamento humano é fruto dos efei-
tos da linguagem sobre um sujeito, efeitos esses que o criam. Por esse motivo,
se, nos dias de hoje, desejamos viver em um mundo diferente do horror retrata-
do por Orwell, compreendê-los adquire uma urgência ímpar.

Na atualidade, as teses behavioristas ganharam nova releitura: as terapias


cognitivo-comportamentais (TCC) que, nos últimos 15 anos, disseminaram-se e
consolidaram-se, tanto na medicina quanto na educação. As TCC consistem em
técnicas que, sob a luz da psicologia cognitivista, revisitam os estudos compor-
tamentalistas emprestando-lhes uma roupagem atual e dando-lhes um caráter
de prática “cientificamente comprovada”.2

As TCC visam incidir sobre o modo como o homem se comporta alterando-


-lhe os aspectos cognitivos. Os praticantes das diversas modalidades dessa te-
rapia tomam um determinado homem e, em primeiro lugar, identificam o que
julgam ser as formas distorcidas e não realistas de pensar para, depois, ajudar o
indivíduo a interromper comportamentos qualificados como alterados e a subs-
tituí-los por comportamentos que o terapeuta julga serem mais saudáveis.

Funcionando com a premissa da existência de um parâmetro “adequado”


para nortear o comportamento humano, as TCC se propõem a livrar os cidadãos
das dificuldades inerentes ao ato de decidir de acordo com o seu próprio desejo.
Para tal fim, ensinam àqueles que tratam “o modo correto” de pensar e de agir,
isto é, “livram” a população do livre-arbítrio.

Por acaso, esse modo de agir faz você lembrar do Partido do livro de Orwell?
Se estivermos nos entendendo, provavelmente você notou que, reduzindo o
ser humano ao estatuto de um cérebro reprogramável, os idealizadores das TCC
acabam por incidir em uma tentativa de controle do pensamento, do que quere-
mos nos afastar completamente.
2
Não deixa de ser curioso notar que, em sua origem, o cognitivo e o comportamental se inscreviam, quanto a sua fundamentação, em concepções
teóricas opostas, tendo origens, tradições, precursores e problemáticas totalmente diferentes. Se para um comportamentalista “histórico” o que
interessa são os inputs (entradas) e os outputs (saídas), interesse esse que o leva a abstrair a “mente”, para um cognitivista “histórico” o que interessa
são os processamentos, o modo de funcionar da “mente” em si. Ou seja: a aliança entre as duas correntes implicou, pelo menos quanto à psicologia
cognitiva, um empobrecimento teórico brutal.
18
A linguagem humana e seus efeitos sobre o pensamento

Por esse motivo, é importante frisar que, atualmente, a conduta profissional ins-
pirada nas TCC consiste em um fenômeno mundial que se expressa, de maneira
maciça e extravagante, na formação médica e psicológica, nas revistas científicas,
nos hospitais, na terapia oferecida na rede pública e nos consultórios privados e, o
que mais nos interessa, nas universidades e, paulatinamente, na educação básica.3

Antes que o leitor se deixe contaminar por um certo tom cinzento presente
nessa denúncia do que vem ocorrendo na sociedade contemporânea no que
se refere ao controle do pensamento, é importante salientar que não estamos
assistindo passivamente aos acontecimentos.

Com o advir do século XXI, no momento mesmo em que essa conduta ganha-
va hegemonia, iniciou-se na França um grande movimento de denúncia contra
as TCC (tendo adesão, inclusive, do ministro francês Blazy e, posteriormente,
disseminando-se entre os clínicos franceses) que, recentemente, recebeu adesão
de muitos intelectuais brasileiros.

Trata-se de um grupo de pessoas que, Estamos nos deixando


embora adotando diversas perspectivas para controlar passivamente?
refletir sobre as relações entre linguagem e
pensamento, não concordam com a existência de quaisquer técnicas ou abor-
dagens que levem alguém a uma coerção mental. Esses pensadores têm em
comum a ideia de que, na tentativa de dominar o pensamento, há em jogo um
sério problema ético cujos resultados são dramáticos: a exclusão do sujeito da
sua cultura.

Não é de se estranhar que, quanto mais se tenta domesticar o real, padronizar


as condutas e cientificizar a avaliação dos resultados, não levando em conta as
intrincadas relações entre linguagem e pensamento, mais se acaba por causar
o aumento de fenômenos “bizarros” na cultura, como a violência gratuita, os
crimes sem motivo, o fracasso escolar generalizado etc.

Concluindo, queremos frisar agora que, antes de tudo, somos contrários a


qualquer abordagem que pregue a redução do homem a um autômato privado
daquilo que, por definição, é próprio do humano: sua singularidade, seu jeito
próprio de pensar e de relacionar-se com a linguagem. Por esse motivo, é impor-
tante ressaltar que nossa reflexão sobre pensamento e linguagem se inscreve,
portanto, nesse movimento de resistência contra o ressurgimento desse fantas-
ma que, há algum tempo, julgávamos esquecido: a sociedade de controle.

3
Seguindo o padrão mundial, no Brasil, a presença das TCC é uma realidade incontestável. Uma pesquisa utilizando uma ferramenta de busca na
internet – no caso, o Google, cujo acesso se faz no endereço <www.google.com.br> – mostra que havia, no fim de abril de 2005, 650 páginas que
as veiculam no país. Uma breve leitura de seus conteúdos mostra que é vasto o menu de distúrbios que, segundo seus responsáveis, podem ser
eficazes e comprovadamente superados por meio das TCC.
19
Linguagem e Pensamento

Na contramão dessa tendência, queremos convidar você a somar esforços


para a construção de um modo de refletir sobre a linguagem e o pensamento
humano que, respeitando profunda e amorosamente os modos de pensar e de
aprender de cada um de nossos alunos, possa ajudá-los não só a se inserirem
na nossa cultura mas também a ousarem pensar criativamente e, ao inovarem,
responsabilizarem-se solidariamente pelos rumos da humanidade.

Texto complementar

A novilíngua
(GUERRANTE, 1999)

Há um novo linguajar na praça, talvez filho da globalização, que me


obriga a refletir cada vez que ouço como se estivessem falando comigo
numa língua estrangeira qualquer. Cada vez entendo menos telefonistas, re-
cepcionistas, economistas, aeromoças, jornalistas, enfim, estou me isolando
no meio de um palavreado confuso, muitas vezes mal traduzido, um dialeto
incompreensível. É bem parecido com o português que aprendi, porque soa
como português, os fonemas são da boa língua portuguesa, mas, não tenho
dúvida, um português que pede tradução a cada palavra.

Dia desses liguei para um amigo meu. A secretária me disse o seguinte:


“Ele não se encontra.” Entendi o que ela falou. Ele estava se procurando, e
não conseguia se achar. Não era bem isso. Que seria? Ele não estava sendo
encontrado no seu posto de trabalho? Quem inventou essa fórmula confusa
para substituir outra muito mais simples (“Ele não está”)?

Não faz muito tempo, recebi um recado grosseiro para ligar para um ci-
dadão que desconheço. Liguei. A moça atendeu e tascou: “Quem gostaria?”
Tive um momento de indecisão, mas estava certo de que não me movia qual-
quer prazer na chamada. “Ele, naturalmente”, respondi. Ela ficou muda. Não
entendeu nada. Ora, se o cidadão pediu que eu ligasse, e eu não o conheço,
o possível prazer só pode ser dele. Desliguei. Ele, que pensei inicialmente
andasse à procura desse prazer em falar comigo, não voltou a ligar.

Onde é que estão padronizando esse linguajar? Por que substituíram o


“quem quer falar”, ou “da parte de quem devo anunciar”? Já fomos mais bem

20
A linguagem humana e seus efeitos sobre o pensamento

educados e bem mais simples. Ultimamente, estamos nos transformando


em autômatos repetidores de chavões decorados.

Os economistas pegaram a palavra apoio e a substituíram por suporte,


que eu tenho lá em casa para não deixar a estante cair. Trouxeram direta-
mente do inglês, sem a menor preocupação com a existência de uma palavra
apropriada na língua-mãe.

Eu já estava até suportando essa palavra quando li num texto que me envia-
ram para revisão: “as ações serão suportadas”. Não dá! De algum tempo para cá
venho notando uma substituição eufemística de algumas palavras por outras
supostamente mais sofisticadas. Morrer tornou-se falecer, ter virou possuir, pa-
rentes foi substituída por familiares, aliás foi trocada por inclusive, vender foi
vencida por comercializar, definir ocupou o lugar de decidir, pôr virou colocar
(exceto para o sol que se põe e para as galinhas poedeiras, felizmente). Todas
foram mudanças impróprias. Mas estão aí, impulsionadas pela mídia.

Já havia me acostumado ao verbo deletar, palavra de boa origem latina,


mas importada pelos informatas, quando ouvi um avião de traficante dizer
numa entrevista que seu chefe mandara “deletar o cara”. Até bem pouco
tempo, o verbo deles era apagar.

Esses informatas são de matar. Mexo no computador cheio de dedos –


melhor dizer “pisando em ovos”, já que o uso dos dedos é muito óbvio no
caso do computador – e ainda assim dia desses surgiu na tela uma enorme
advertência: “Você executou uma operação ilegal e o programa será desli-
gado.” Tremi nas bases. Logo eu, que nunca fui parar sequer no cadastro ne-
gativo do Clube de Diretores Lojistas. Operação ilegal? Me senti o próprio
traficante, mandando deletar pessoas. Ah, essa novilíngua, um arremedo do
admirável mundo novo, parece que veio para ficar.

Atividades
1. Quais as vantagens de compreender a extensão do poder que a linguagem
tem sobre os seres humanos?

21
Linguagem e Pensamento

2. Quando se trata de compreender o padrão do comportamento humano,


é necessário desistir de encontrar uma causa para todas as consequências.
Aponte o principal motivo para isso.

3. No processo educativo, é importante que o educador dedique boa parte do


seu tempo para organizar o ambiente no qual a aprendizagem se dá. Qual o
motivo para isso?

Dicas de estudo
HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. Porto Alegre: Editora Globo, 1981.

Romance inglês, publicado em 1932. Antes da obra 1984, já denunciava alguns


dos efeitos da utilização de técnicas de inspiração behaviorista na educação das
novas gerações, em especial, quando utilizadas como coadjuvantes da manuten-
ção do poder dos governos totalitários. De forma instigante e extremamente ca-
tivante, Huxley conta uma história na qual, seguindo as aventuras e desventuras
do pobre Bernard Marx, tomamos conhecimento dos estragos do totalitarismo
sobre a cultura e, consequentemente, sobre os modos de pensar dos cidadãos.

BUARQUE, Chico. Fazenda Modelo: novela pecuária. Rio de Janeiro: Civilização


Brasileira, 1989.

22
A linguagem humana e seus efeitos sobre o pensamento

Por meio de uma alegoria, a criação de uma novela na qual os personagens


principais são bovinos falantes e pensantes, Chico Buarque busca nos levar a
uma séria reflexão sobre a realidade brasileira, em especial no que tange ao tra-
tamento desumano que, ordinariamente, é reservado para as classes populares
e aos meios que, de vez em quando, tendem a ser usados para que estes sequer
tenham condições de perceber a seriedade de sua situação.

23
O imprevisível animal humano

Se você é pai ou mãe de vários filhos, é proveniente de família com


vários irmãos ou teve a oportunidade de conviver de perto com diferen-
tes crianças por um tempo prolongado, com certeza concordará com a
seguinte afirmação: não é possível prever como um ser humano vai se de-
senvolver. A experiência nos mostra todos os dias que, mesmo se tratando
de filhos de um casal que, supostamente, ofereceu a mesma criação para
todas as crianças, ao crescer, um irmão se torna diferente do outro com re-
lação aos hábitos, crenças, modos de levar a vida e assim por diante. Você
já parou para pensar por que isso acontece?

Ao longo do tempo, essa questão tem despertado o interesse de vários


estudiosos. Ao definir o padrão do desenvolvimento humano, deu-se para
essa questão diferentes tipos de resposta, ou, dizendo de outro modo,
conceberam-se modelos teóricos para explicar como nos tornamos adul-
tos. Neste capítulo, vamos conhecer resumidamente alguns desses mode-
los para que, em outro momento, a questão das relações entre pensamen-
to e linguagem possam ser mais bem colocadas.

Assim sendo, os objetivos do presente capítulo são fazer uma compa-


ração inicial entre os modos de organização social dos homens e dos ani-
mais; problematizar as pretensas relações “transparentes” entre linguagem
e pensamento; e expor alguns modelos diferentes que explicam como o
ser humano chega a tornar-se aquilo que ele é. Mãos à obra!

Os animais não se organizam do mesmo modo


Se você tem um animal de estimação que passa muito tempo em com-
panhia dos humanos, deve estar, no mínimo, desconfiado do fato de que,
talvez, as diferenças entre nós e eles não sejam assim tão grandes como
pensamos que sejam. Particularmente quando os criamos, temos essa im-
pressão de que a coisa funciona quase como se pudéssemos entender o
que eles “pensam” e “desejam”.

Essa aparente “compreensão” dos modos de pensar de nossos animais se


dá porque sua gama de necessidades é bastante limitada se comparada às
Linguagem e Pensamento

nossas. Qualquer um sabe dizer quando um cachorrinho precisa de água, por


exemplo; mas, venhamos e convenhamos, seria impossível descobrir se ele pre-
fere mineral, importada, com ou sem gás etc. Somos, portanto, obrigados a es-
perar sua reação frente ao que lhe oferecemos para, a posteriori, poder afirmar se
era aquilo que ele “queria” ou não.

Quem tem contato com filhos ou sobrinhos sabe que, com as crianças, a
coisa é muito diferente. Quando uma delas decide nos pedir um presente, não
se trata de um presente qualquer, mas, pelo contrário, de uma demanda que
vem repleta de especificações. Não nos dizem simplesmente “Eu quero um brin-
quedo!”, mas “Eu quero uma boneca Polly, com o cabelo loiro, que venha com
cinco roupas para trocar e não pode ser igual àquela que você me deu no ano
passado!”. E ai de você se não achar o modelo exato!

Em suma, por meio desses exemplos iniciais, estamos tentando mostrar que,
enquanto um animal é bastante previsível, uma vez que se acha mergulhado no
“mundo real” e premido por suas necessidades instintuais, nós, humanos, somos
imprevisíveis. Como somos seres de linguagem, aquilo que compreendemos
serem as nossas necessidades básicas não é plenamente dominado pelo bom
senso da sobrevivência da espécie, mas grandemente determinado pela discur-
sividade de nosso tempo.

Quadro 1 – Modos de organização social dos humanos e dos demais ani-


mais que conseguem viver em grupo

Os animais Os seres humanos


São regidos por seus instintos. Sofrem fortíssima influência da cultura na
qual estão inseridos.

Têm uma organização grupal bastante rígida Podem encontrar seu “lugar social” dentro da
e limitada, não conseguindo inovar em sua organização grupal na qual estão inseridos e,
“vida social”. se assim o desejarem, alterá-lo.

Não conseguem transmitir a experiência por Acolhem e educam os novatos, introduzindo-


meio das gerações: o que um animal “apren- -os na cultura e no saber acumulado pelos
de” morre consigo. seus antepassados.

Não podem planejar o futuro. Utilizam, muito frequentemente, a linguagem


como um campo no qual é possível planejar e
projetar o futuro.

Não podem “comunicar-se” para além do re- Podem utilizar a linguagem não apenas para
gistro limitado de suas necessidades básicas. comunicar suas necessidades imediatas mas
também para criar, emocionar, alterar a pró-
pria realidade etc.

São muitíssimo previsíveis no que se refere Têm seus modos de evolução grandemente
aos seus padrões de evolução. variáveis.

26
O imprevisível animal humano

Estudando o quadro 1, é importante compreender que refletir sobre o pen-


samento humano, sem levar em conta sua inserção cultural e sua relação com a
linguagem, é pensar que não passamos de animais que sabem se vestir de modo
um pouco mais enfeitado.

Nós que nos preocupamos com a educação e com a formação das novas ge-
rações precisamos ir um pouco além disso. Precisamos, para poder nos apro-
ximar do padrão de pensamento de nossos alunos, compreender que, como
consequência do fato de falarmos, as relações entre nós não são nem tão homo-
gêneas nem tão estáveis como parecem. Onde quer que olhemos mais de perto,
há equívoco, e ele tem consequências. Passemos então a esse tópico.

É conversando que a gente não se entende...


Um longo tempo se passa até que possamos declarar que o filhote do humano
está de posse de um sistema linguístico constituído à moda dos adultos. Embora
ele “fale” aproximadamente desde os 13 meses, essa fala, para ser analisada conve-
nientemente, tem de ser lida como sendo uma produção que está sendo efetuada
por um sujeito para quem o sistema linguístico ainda está em constituição.

IESDE Brasil S. A.

Felizmente para os bebês, suas mães ignoram esse fato e tratam suas produções
rudimentares, frágeis e imperfeitas como se fossem análogas àquelas que saem de
nossas bocas. Isso significa que, na sua imensa sabedoria, essas mamães podem en-
trever no jovem humano uma inteligência igual à sua, embora ele ainda não tenha
tido tempo de vida para se traduzir por meio de palavras articuladas.

Supomos quais sejam essas palavras e nos dirigimos aos nossos filhos muito
jovens como se eles pudessem entender o que estamos falando. A informação
27
Linguagem e Pensamento

que se segue fica entre nós para que não corramos o risco de levar uma mamãe
a parar de fazer o que é tão importante que elas façam: eles não entendem nada!
Somos nós, os adultos, que, por meio de alguns indícios (pequenos ruídos, gestos e
olhares), interpretamos o que os nossos filhos “dizem” como se fosse linguagem.

Mas não há qualquer problema nisso, como já adiantamos. O problema se coloca


quando nós, os educadores, esquecemo-nos desse processo inicial e sequer leva-
mos em consideração que, em sua juventude, muitos de nossos alunos também
não entendem o que estamos falando, embora pareça o contrário, pois, assim
como o faz o bebê pequeno, também reagem à nossa fala. A seguir, vamos narrar
uma pequena história verídica, ocorrida com uma amiga, que é fonoaudióloga, e
seu filho único, na ocasião, prestes a comemorar o seu quinto aniversário.

Trabalhando nos preparativos para a festa de aniversário de seu filho, essa


amiga estava ao telefone, falando com fornecedores responsáveis pelo aluguel
do salão, pelos convites etc. Seu filho, muito feliz e animado com os cuidadosos
preparativos, permanecia sentado muito quieto, atento e silencioso ao seu lado,
dando mostras de estar adorando a homenagem que estava recebendo.

De repente, o menino se levantou e disse: “Mãe, estou muito decepcionado


com você. Não sou mais seu amigo, eu não poderia imaginar que logo você ia
fazer uma maldade dessa comigo!” Muito surpresa, a mãe permaneceu perplexa
por alguns momentos, sem saber o que dizer. Ela se interrogava: o que teria ofen-
dido tanto o seu filho? Sua única hipótese era a de que, em seu último telefone-
ma, dirigido a sua própria mãe, ela tivesse se alongado um pouco demais, desse
modo entediando seu filho. Mas, mesmo assim, isso não seria uma maldade.

Você já imaginou quantas Mais calma, foi conversar com o filho,


“Licuias” moram na cabeça de perguntando que maldade ela havia feito
nossos jovens alunos? para perder sua amizade. Muito sério, ele
respondeu: “Mãe, nós combinamos que
só convidaríamos gente legal para a minha festa e você me trai e convida a Má
Licuia.” Não tendo qualquer pessoa na sua lista de convidados que se chamas-
se Licuia, a mamãe estava cada vez mais confusa, até que, conversa vai, con-
versa vem, pudesse perceber, até pelo seu treinamento como fonoaudióloga,
que esse exótico personagem havia nascido durante a conversa com a avó do
garoto. Combinando os detalhes da vinda de sua mãe para a festa, ela, que de-
sejava tê-la em casa durante todo o final de semana, havia dito “Mamãe, venha
na sexta, já de mala e cuia.”

Como nossas palavras são escorregadias, nosso jovem amigo, ao ouvir uma ex-
pressão idiomática que ignorava – no caso, “trazer a mala e cuia” – interpretou-a
28
O imprevisível animal humano

como pôde, entendendo que sua mãe havia pedido a sua avó que, ao vir para a
sua festa, trouxesse também a Má Licuia! Prosseguindo com nossa reflexão, en-
tretanto, você talvez não ache tão engraçado passar a imaginar que, dado que
a homofonia é um fato concreto, todos os dias centenas de Licuias nasçam em
nossas salas de aula sem que sequer sejamos comunicadas ou comunicados de
seu aparecimento no mundo. Nós as desconhecemos, mas elas estão por aí, im-
pondo sua presença no curso dos pensamentos de nossos alunos e fazendo com
que, ao contrário do que costumeiramente esperamos, eles pensem de modos
que sequer podemos imaginar.

Modos diferentes para explicar


como a gente se torna o que é
É chegada a hora de esclarecer que a discussão que estamos desenvolvendo
ao longo deste capítulo só tem sentido a partir da óptica de um referencial teóri-
co que leve em conta a imprevisibilidade do animal humano. É compreendendo
que não é possível fazer uma correspondência imediata entre o homem e mode-
los preestabelecidos de desenvolvimento que podemos nos responsabilizar pelo
ato educativo e nos posicionar de modo mais eficaz em nossas salas de aula.

No quadro 2, o leitor encontrará, de modo muito sucinto, uma sinopse de três


grandes vertentes da análise do desenvolvimento humano.

Quadro 2 – Três possibilidades de modos de análise do desenvolvimento


humano

Grande modelo Comportamenta- Teleológico Rizomático


lista
Crença predomi- Existe influência Existe um padrão de Não existe unicida-
nante onipotente dos estí- desenvolvimento de, nem nos padrões
mulos do meio sobre biológico que segue de comportamento
o humano. seu próprio curso, em nem na história de
alguma medida, inde- vida de cada um de
pendente do meio. nossos alunos.

Papel do adulto Controlar rigida- Ficar atento às mani- Respeitar a singulari-


que deseja exercer mente os estímulos festações da criança, dade de cada sujeito
uma influência do fornecidos pelo meio de modo a perceber e, consequente-
tipo educativo para a criança, de se ela está se desen- mente, fornecer-lhe
modo a proporcio- volvendo de “modo um amplo leque de
nar um aprendizado correto”. experiências culturais
feito de “modo para que ele possa
correto”. fazer seu próprio
percurso.
29
Linguagem e Pensamento

Embora de forma muito esquemática, e correndo o risco de algum reducio-


nismo simplificador, o quadro 2 nos mostra que, na contemporaneidade, cami-
nhamos cada vez mais para a compreensão de que um ser humano, ao con-
trário de outros animais, não tem o curso de seu pensamento completamente
determinado pelas leis que nos são impostas pela biologia de nossa espécie.
Não podemos ser reduzidos a esse nível da existência de um contato pleno, não
mediado, entre o corpo e o mundo. Pelo contrário, temos nosso encontro com a
realidade de maneira parcelar e fragmentada e, a partir disso, construímos nosso
padrão de pensamento.

Gilles Deleuze e Félix Guattari são os precursores de um modo de pensar


que, por levar em conta as diversas ramificações de uma dada realidade, ficou
conhecido como “modelo rizomático”. Sua obra mais conhecida denomina-se
Mil Platôs, cuja edição brasileira iniciou-se em 1995, tendo sido concluída dois
anos depois. Trata-se de uma obra muito importante para o aprofundamento
do assunto que estamos aqui tratando, uma vez que questiona a crença na exis-
tência, no pensamento humano, de uma tendência natural para uma verdade
única. Em particular, interessa-nos de perto a introdução do primeiro volume
(Introdução: rizoma), em que se postula um sujeito capaz de conectar-se com as
multiplicidades, de maneira não-linear. Do ponto de vista dos autores, a escrita
rizomática realiza um mapeamento e uma experimentação no real que contribui
para a abertura máxima das multiplicidades sobre um plano de consistência.

Para concluir esta parte de nosso estudo, convido o leitor para refletir sobre
um fragmento do importantíssimo trabalho em que Milton Santos versa sobre a
precariedade da percepção que podemos ter sobre as coisas.
As abordagens fundamentadas na percepção individual têm seu ponto de partida no processo
do conhecimento. Este é o resultado da apreensão da realidade contida em um objeto. Devido
ao fato de que o principal interessado neste mecanismo, ou seja, o sujeito, é ao mesmo
tempo um ser objetivo e um microcosmo, o encontro entre objetividade da coisa (ou a coisa
objetificada) e a subjetividade de seu decifrador permite uma variedade de percepções. A coisa
permanece una, total, intacta, mas as modalidades de sua percepção são diversas, parcelares,
frequentemente deformantes. (SANTOS, 2002, p. 92-93)

É com essa lição de humildade sobre o quanto podemos compreender de


nossa realidade nos bolsos, se assim podemos dizer, que vamos concluir este
capítulo, tematizando o papel central que a pesquisa sobre os padrões de pen-
samento de cada um de nossos alunos tem para nossa prática docente.

30
O imprevisível animal humano

O professor-detetive ou,
simplesmente, o bom professor
Se entendermos que o pensamento humano está longe de se desenvolver
de forma linear, compreendemos que, para sermos eficazes em nosso ato peda-
gógico, não devemos pensar que nossos alunos são completamente previsíveis.
Pelo contrário, será bastante saudável ter em mente a necessidade de “realizar
um trabalho de detetive” para elucidar o modo pelo qual cada um aprende.

Para ilustrar que tipo de trabalho estamos nomeando por meio da metáfora
do detetive, vamos, desta vez, trazer como exemplo a literatura de mistério, cujo
precursor básico é Edgar Allan Poe.

Edgar Allan Poe (1809-1849), foi um genial escritor americano que se


tornou conhecido em todo o mundo, sobretudo por seus contos de mistério
e terror, que constituíram uma fonte de inspiração direta para a renovação
literária europeia no final do século XIX. Tendo escrito várias histórias que têm
como personagem principal o francês Auguste Dupin, inteligentíssimo nobre
decaído que se dedica a desvendar crimes insolúveis como fonte de diversão
e de estímulo intelectual, acabou por fundar a moderna novela de detetive.

Poe escreveu uma obra tão extensa quanto famosa, sem dúvida, digna de
comentários. Nesse momento, interessa-nos, em especial, relembrar um de seus
personagens mais célebres: Auguste Dupin.

Mestre do raciocínio lógico, Dupin enfatizava todos Você conhece o


os pormenores relativos ao caso de seu interesse, anali- famoso Dupin?
sando, com precaução, todas as estranhas possibilidades
de comportamento do gênero humano, do qual era exímio conhecedor. Materia-
lista congruente, não acreditava no misticismo e, por este motivo, direcionava as
investigações de maneira bastante objetiva, de acordo com métodos investigató-
rios, tarefa que era facilitada por seu caráter extremamente observador.

Dupin não ficava trancado em sua mansão fantasiando como os crimes teriam
ocorrido: ele trabalhava em uma dupla vertente: levava em conta o caráter particu-
lar de cada um dos suspeitos, buscando sistematizar qual modo de agir era ou não
condizente com a linha de conduta em geral; e examinava atentamente os indícios

31
Linguagem e Pensamento

materiais que cercavam a cena do crime. No entrecruzamento dessas duas verten-


tes, o magnífico francês conseguia descobrir os padrões de pensamento daqueles
a quem se dedicava, podendo compreender melhor o curso de suas ações.

Alertando o leitor para não se esquecer do modus operandi do detetive,


vamos terminar este texto convidando-o a encarnar um pouco o Dupin quando
entra em sala de aula. Se é verdade que os alunos, como todo ser humano, são
imprevisíveis, não é menos verdade que investigar seus padrões de pensamento
pode se tornar um aliado importantíssimo na tarefa pedagógica.

Texto complementar

Os crimes da rua Morgue


(POE, 1974, p. 133-136)

Passeávamos, certa noite, por uma comprida e suja rua, nas vizinhanças
do Palais Royal. Estando, aparentemente ambos nós ocupados com os pró-
prios pensamentos, havia já uns 15 minutos que nenhum de nós dizia uma
só sílaba. Subitamente, Dupin pronunciou as seguintes palavras:

— A verdade é que ele é mesmo um sujeito muito pequeno e daria mais


para o teatro de variedades.

— Não pode haver dúvida alguma a respeito – respondi, inconsciente-


mente, e sem reparar a princípio (tão absorto que estivera em minha medi-
tação) a maneira extraordinária pela qual as palavras de meu companheiro
coincidiam com o objeto de minhas reflexões. Um instante depois dei-me
conta do fato e meu espanto não teve limites.

— Dupin – disse eu com gravidade –, isto passa as raias da minha compre-


ensão. Não hesito em dizer que estou maravilhado e mal posso dar crédito a
meus sentidos. Como é possível que soubesse você que eu estava pensando
em...? – Aqui detive-me para certificar-me, sem sombra de dúvida, se ele re-
almente sabia em quem pensava eu.

— ...em Chantilly? – disse ele. – Por que parou? Não estava você, justa-
mente, a pensar que o tamanho diminuto dele não se adequava à represen-
tação de tragédias?

32
O imprevisível animal humano

Era esse precisamente o assunto de minhas reflexões. Chantilly era um


antigo sapateiro-remendão da rua de S. Dinis que, fanático pelo teatro, se
atrevera a desempenhar o papel de Xerxes, na tragédia de Crébillon, do
mesmo nome, tendo por isso merecido críticas violentas.

— Diga-me, pelo amor de Deus – exclamei –, qual foi o processo – se é


que há algum – que o capacitou a sondar o íntimo da minha alma.

Eu estava, na verdade, mais surpreso do que desejava parecer.

— Foi o fruteiro – respondeu meu amigo – quem levou você à conclusão


de que o remendador de solas não tinha bastante altura para o papel de
Xerxes et id genus omne.

— O fruteiro?! Você me assombra... Não conheço fruteiro de espécie


alguma.

— O homem que lhe deu um encontrão, quando entramos nesta rua há


talvez 15 minutos.

Lembrei-me então de que, de fato, um fruteiro, carregando na cabeça um


grande cesto de maçãs, quase me derrubara acidentalmente, quando haví-
amos passado na rua C... para a avenida em que nos achávamos. Mas o que
tivesse ido que ver com Chantilly é que eu não podia compreender.

Não havia em Dupin uma partícula sequer de charlatanice.

— Vou explicar – disse ele – e, para que você possa primeiro compreen-
der tudo claramente, vamos primeiro retroceder, seguindo o curso de suas
meditações, desde o momento em que lhe falei, até o do encontrão com o
tal fruteiro. Os elos mais importantes de cadeia são estes: Chantilly, Órion, Dr.
Nichols, Epicuro, a estereotomia, as pedras da rua, o fruteiro.

Há bem poucas pessoas que não tenham, em algum momento de sua


vida, procurado divertir-se remontando os degraus pelos quais atingiram
certas conclusões particulares de suas ideias. Esta ocupação é, não poucas
vezes, cheia de interesse e o que a experimenta pela primeira vez fica admi-
rado diante da aparente distância ilimitada e da incoerência que há entre o
ponto de partida e a chegada. Qual não foi pois o meu espanto quando ouvi
o francês falar daquela maneira, e não pude deixar de reconhecer que ele
havia falado a verdade. Continuou:

33
Linguagem e Pensamento

— Estávamos conversando a respeito de cavalos, se bem me lembro,


justamente antes de deixar a rua C... Foi o último assunto que discutimos.
Ao cruzarmos na direção da avenida, um fruteiro, com grande cesto sobre a
cabeça, passando a toda pressa à nossa frente, lançou você de encontro a um
monte de pedras soltas, escorregou, torceu levemente o tornozelo, pareceu
aborrecido ou contrariado, resmungou umas palavras, voltou-se para olhar
o monte de pedras e depois continuou a caminhar em silêncio. Não estava
particularmente atento ao que você fazia, mas é que a observação se tornou
para mim, ultimamente, uma espécie de necessidade. Você manteve os olhos
fixos no chão, olhando, com expressão mal-humorada, os buracos e sulcos
do pavimento (de modo que vi que você continuava pensando ainda nas
pedras), até que alcançamos a pequena travessa Lamartine, que foi calçada, a
título de experiência, com tacos de madeira, solidamente reajustados e fixos.
Ali, sua fisionomia se iluminou e percebendo que seus lábios se moviam, não
tive dúvida que você murmurava a palavra esterotomia, sem vir a pensar em
átomos e portanto nas teorias de Epicuro. Como não faz muito tempo que
discutimos este assunto, lembro-me de lhe haver mencionado quão singu-
larmente, embora muito pouco notado, as vagas conjecturas daquele nobre
grego tinham tido confirmação, com a recente cosmogonia nebular, e vi que
você não se conteve e erguesse os olhos para a grande nebulosa de Órion,
coisa que eu esperava que você não deixaria de fazer. Você olhou, pois, para
cima e tinha então a certeza de haver acompanhado estritamente o fio de suas
ideias. Naquela crítica ferina que apareceu a respeito de Chantilly, ontem, no
Museu, o satirista, fazendo algumas maldosas alusões à mudança de nome
do remendão ao calçar coturnos, citou um verso latino, a respeito do qual
temos tantas vezes conversado. Refiro-me ao verso Perditit antiquum litera
prima sonum, que, segundo expliquei a você aludia a Órion, que antigamente
se escrevia Urion, e, por causa de certa mordacidade, ligada a esta explicação,
estava eu certo de que você não poderia tê-la esquecido. Era, portanto, bem
claro que você não deixaria de combinar as duas ideias de Órion e Chantilly.
Que você as havia combinado vi pela espécie de sorriso que lhe pairou nos
lábios. Pensou na imolação do pobre remendão. Até então estivera você a
caminhar meio curvado, mas naquele momento você se endireitou, ficando
bem espigado, a toda altura. Certifiquei-me então que você estivera pensan-
do na pequena estatura de Chantilly. Neste ponto interrompi suas medita-
ções para observar que, como, de fato, era ele um sujeito muito baixo, o tal
Chantilly daria melhor para representar no teatro de variedades.

34
O imprevisível animal humano

Atividades
1. Qual o principal motivo para que o professor precise estar constantemente
atento para o quanto os seus alunos estão compreendendo de suas palavras?

2. Por que diversificar as ofertas de conteúdos e de tipos de atividades em uma


sala de aula é importante?

3. Por que não é lícito que um professor se sinta o dono da verdade?

35
Linguagem e Pensamento

Dicas de estudo
RIOLFI, Claudia Rosa. Equívoco e singularidade: subjetividade na fala de uma
criança. In: LIMA, Regina Célia de Carvalho Paschoal (Org.). Leitura: múltiplos
olhares. Campinas: Mercado de Letras, 2005, p. 219-233.

Analisando exemplos concretos de diálogos entre adultos e uma mesma


criança em dois diferentes momentos de sua vida (aos dois e aos sete anos),
nesse trabalho procuramos mostrar como a propriedade de a linguagem causar
o equívoco nas trocas verbais não é, ao contrário do que parece, uma coisa ne-
gativa. Se bem utilizada, pode, inclusive, acabar sendo solidária com o exercício
da expressão verbal criativa e espirituosa, podendo prestar-se como importante
auxiliar na construção de uma relação menos autoritária entre adulto e criança.

POSSENTI, Sírio. Os Humores da Língua: análises linguísticas de piadas. Campi-


nas: Mercado de Letras, 1998.

Aprender muito sobre a linguagem e seu funcionamento e, ainda por cima,


dar boas gargalhadas é o que o leitor conseguirá como lucro ao estudar o livro
de Possenti. Com um estilo claro e bastante didático, o autor parte de exemplos
de peças linguísticas concretas – no caso, textos de piadas – para mostrar os
dispositivos linguísticos utilizados comumente para fazer rir. Aqui vai uma das
piadas analisadas por Sírio para animá-lo para a leitura:

— Sabe o que o passarinho disse pra passarinha?

— Não.

— Qué danoninho?

Gostou? Então leia o livro para entender por que a fonologia é um importan-
te recurso na concepção dessa piada, bem como no desvelamento dos modos
pelos quais ela nos faz rir.

36
O imprevisível animal humano

37
Concepção do homem
como ser de linguagem
Você já parou para pensar em quantas pequenas mentiras inocentes
estamos prontos a contar ao longo do dia em nome da manutenção de
nossa boa convivência social? Estamos tão acostumados com esse tipo de
procedimento que sequer chamamos essas pequenas omissões de menti-
ra. Por exemplo, se o seu superior hierárquico chega bravo, perguntando
“Por que você não começou a tarefa que eu lhe pedi ainda?”, parece-nos
perfeitamente normal responder algo como “Hoje o dia foi muito corrido!”
quando a resposta verdadeira seria: “Estou morta de preguiça!”.

Não pense você que nascemos sabendo nos Que efeito tem
utilizar desses dispositivos retóricos em nome da sobre você um
diplomacia. Quando somos muito pequenos, ainda adulto que fala
inocentes, costumamos responder tudo o que nos tudo o que pensa,
vem à cabeça, mesmo quando uma pergunta em- doa a quem doer?
baraçosa é feita. Todo mundo já deve ter presencia-
do uma resposta do tipo “Porque não fui com sua cara!” quando um adulto
imprudente perguntou a um molequinho “Por que você não me deu um
beijo?”.

Ou seja: quando somos crianças, utilizamos a linguagem primordial-


mente para nos comunicar, para dizer, com clareza, a parcela de nossos
pensamentos que conseguimos atingir. Isso porque, na nossa inocência,
confiamos em todo mundo e não calculamos que, às vezes, um prejuízo
a nossa imagem pode ter resultados catastróficos para o andamento da
nossa vida.

Como éramos ingênuos! Desconhecíamos a ironia, a denegação, a


ocultação deliberada de nossas ideias, as convenções sociais – enfim, tudo
aquilo que faz com que, em grande parte da vida da sociedade, usemos
uma língua justamente para ocultar o que estamos pensando. Quem tem
dúvida sobre isso se lembre do que respondeu a última vez que sua chefe,
com quem você tem mantido relações delicadas, acabou de cometer um
desastre total no cabelo e perguntou entusiasmada: “Não ficou lindo?”.
Numa situação dessas, pensar rápido nos leva, justamente, a encontrar
Linguagem e Pensamento

uma forma polida de não contrariar a dama, se formos escrupulosos, sem exata-
mente mentir, dizendo algo como “De fato, você mudou bastante!”.

Ou seja, mais tarde, aprendemos que a vida social tem muito mais detalhes
do que podíamos alcançar em nossa inexperiência. Quando adultos, usamos as
palavras para lisonjear, convencer, seduzir, virar determinada situação a nosso
favor, acalmar-nos e muitas outras funções que, legitimamente, não podem ser
chamadas de comunicação. Às vezes, precisamos, inclusive, saber utilizar as pa-
lavras sem comunicar absolutamente nada, pois é de nosso interesse manter as
informações que possuímos no mais absoluto sigilo.

Por um motivo ou por outro, que uma coisa fique clara: é o exercício da lin-
guagem, ou na argumentação ou na tentativa de manter nossa privacidade in-
tocada, que nos ajuda a perceber nossa identidade, nosso direito a um espaço
próprio, cuja conquista deve se renovar todos os dias, na luta intransigente
contra os fofoqueiros, os intrometidos, as pessoas que gostam de se aproveitar
dos outros e assim por diante.

Por esse motivo, o objetivo deste capítulo é convidá-lo para se aproximar do con-
ceito de linguagem tal como é visto no interior dos estudos linguísticos. Trata-se da
ideia de que a linguagem é um sistema articulado que, consistindo em uma faculda-
de específica do ser humano, fornece-lhe sua essência de ser de linguagem.

A linguagem é o que dá o nosso contorno


Da perspectiva que ora adotamos, a linguagem é aquilo que transforma cada
ser humano que vem ao mundo em humano. Trata-se de uma atividade exclusi-
va do homem, que, ao constituí-la, organiza seu mundo e suas relações sociais
e, a partir dessa organização, dá um estilo peculiar aos seus modos de expressão
em diversas instâncias. Se não tivéssemos a linguagem, dificilmente formaría-
mos famílias que se mantêm por um longo tempo ou realizaríamos sonhos de
infância ou enterraríamos nossos mortos.

De onde partiu esse modo de ver as coisas? A formalização de um modo de


ver a linguagem como sendo parte da natureza específica do homem encontra-
-se nas ideias que o linguista francês Émile Benveniste (1902-1976) pôde criar e
registrar na passagem da década de 1960 para a de 1970. Na impossibilidade de
expor aqui toda a extensa obra desse autor, vamos nos limitar a dois de seus tra-
balhos, que tematizam o fato de que o uso de uma linguagem é uma capacidade
meramente humana e foram publicados originalmente em 1952 e em 1958.
40
Concepção do homem como ser de linguagem

É, portanto, “na linguagem e pela lingua- A linguagem humana é muito


gem que o homem se constitui como sujeito” mais do que um instrumento
(BENVENISTE, 1988, p. 286). Lendo esse frag- de comunicação.
mento que acabamos de citar, esperamos
que o leitor perceba que, para esse autor, homem e linguagem formam uma
unidade indecomponível, uma vez que, tirando-se a linguagem de um sujeito,
pouco mais lhe resta de diferente dos animais. Consequentemente, não é aqui o
caso de pensar o homem como alguém que tem a linguagem, mas, ao contrário,
de concebê-lo como alguém que é feito por ela.

Admitir a ideia de que somos “seres de linguagem” exige abandonar a con-


cepção de que a linguagem verbal é um instrumento de comunicação como
outro qualquer, como, por exemplo, a utilização dos sinais de fumaça entre os
indígenas. Benveniste trabalhou duramente para convencer seus pares de que
esse modo de ver as coisas consistia em um erro. Para ele, humano e linguagem
são feitos da mesma matéria, não podendo ser separados um do outro.

O corajoso francês se afastou, portanto, da concepção de linguagem que


estava em alta naquela época afirmando que, ao se refletir sobre a linguagem,
não se pode criar uma ilusão segundo a qual ela estaria fora da natureza humana.
Assim discorre o estudioso:
Não atingimos nunca o homem separado da linguagem e não o vemos nunca inventando-a.
Não atingimos jamais o homem reduzido a si mesmo e procurando conceber a existência do
outro. É um homem falando que encontramos no mundo, um homem falando com outro
homem, e a linguagem ensina a própria definição do homem. (BENVENISTE, 1988, p. 285)

De acordo com Benveniste, ao inserirmos um jovem humano no sistema lin-


guístico e na produção linguageira, que nossa cultura vem acumulando ao longo
do tempo, estamos fazendo com que esse pequeno animal se torne um homem.
A linguagem tem nessa missão a dupla tarefa de fazer de um humano aquilo que
ele é e, para além disso, de fornecer-lhe os dispositivos para se reconhecer como
um eu, para ter uma identidade.

Compreendendo que uma pessoa só pode se anun- Se bicho não fala, o


ciar como sujeito quando se refere a si próprio por meio que é que ele faz?
da utilização da primeira pessoa do singular (eu), o autor
faz uma importante afirmação sobre o fundamento da subjetividade:
“É portanto verdade ao pé da letra que o fundamento da subjetividade está no exercício da
língua. Se quisermos refletir bem sobre isso, veremos que não há outro testemunho objetivo
da identidade do sujeito que não seja o que ele dá assim, ele sobre si mesmo.” (BENVENISTE,
1988, p. 288)

41
Linguagem e Pensamento

Ou seja: poder referir-se a si próprio, compreendendo-se como diferente de


todos os demais de sua espécie, é prerrogativa do homem, uma vez que, sendo
efeito de linguagem, não é compartilhada com nenhum outro ser vivo.

Neste ponto da reflexão, é comum que ocorra ao leitor a seguinte dúvida: se


não podemos chamar de linguagem aquilo que um animal faz, como podemos
compreender os fenômenos de comunicação que, com certeza, estão lá presen-
tes? Neste momento, as ideias de Benveniste (1952) também são importantes o
suficiente para que nela nos detenhamos com mais detalhes.

Alguns traços da linguagem humana


Benveniste sempre foi muito claro ao afirmar que, aplicada ao mundo animal,
a noção de linguagem só tem crédito por um abuso de termos. Mesmo quando
emitem ruídos, como é o caso do papagaio, eles não configuram um modo de
expressão que tenha os caracteres e as funções da linguagem humana. Ao entrar
em contato com alguns estudos que biólogos vinham fazendo para elucidar o
comportamento das abelhas, viu aquela sua certeza vacilar e teve necessidade
de se aprofundar mais nessa comparação.

Por um momento, teve sua certeza abalada ao considerar que, como tudo
parecia indicar, as abelhas tinham um modo muito eficaz de se comunicarem
entre si, a saber:
Uma abelha operária colhedora, encontrando, por exemplo, durante o voo uma solução
açucarada por meio da qual cai numa armadilha, imediatamente se alimenta. Enquanto se
alimenta, o experimentador cuida em marcá-la. A abelha volta depois à sua colmeia. Alguns
instantes mais tarde, vê-se chegar ao mesmo lugar um grupo de abelhas entre as quais não
se encontra a abelha marcada e que vêm todas da mesma colmeia. Esta deve haver prevenido
as companheiras. É realmente necessário que estas hajam sido informadas com precisão, pois
chegam sem guia ao local que se encontra, frequentemente, a grande distância da colmeia
e sempre fora de sua vista. Não há erro nem excitação na localização: se a primeira escolheu
uma flor entre outras que poderiam igualmente atraí-la, as abelhas que vêm após a sua volta
se atirarão a essa e abandonarão as outras. Aparentemente, a abelha exploradora indicou às
companheiras o lugar de onde veio. (BENVENISTE, 1988, p. 61)

Retomando os estudos de Karl von Frisch, o autor descobriu, então, que as


abelhas conseguem ser muito precisas no repasse de dados, tais como distância
da flor encontrada, sua posição exata e a natureza do achado por meio da dança.
Ou seja: as abelhas conseguem comunicar-se com seus pares transmitindo infor-
mações úteis para a sobrevivência da espécie, mas não o fazem com o auxílio de
qualquer tipo de interação verbal.

Descobrir isso sanou a dúvida de Benveniste. Conclusivamente, para ele, a


comunicação animal e a linguagem humana são bastante diversas em relação
42
Concepção do homem como ser de linguagem

a sua essência. O caráter específico da primeira é “o de propiciar um substituto


da experiência que seja adequado para ser transmitido sem fim no tempo e no
espaço, o que é típico do nosso simbolismo e o fundamento da tradição linguís-
tica” (BENVENISTE, 1988, p. 56). Verifique, no quadro 1, uma sinopse da compa-
ração feita pelo autor.

Quadro 1– Comunicação das abelhas versus linguagem humana

Comunicação da abelha Linguagem humana


Comunicação gestual: a mensagem é restrita à Comunicação vocal: a mensagem restrita tem
dança, sem intervenção de um aparelho vocal. a voz como seu principal suporte.

Só ocorre em condições que permitem a per- Não sofre os limites da percepção visual.
cepção visual.

Sua mensagem não provoca qualquer tipo de Falamos com aqueles que nos falam, ou seja,
resposta no ambiente, não há diálogo. sempre provocamos algum tipo de resposta
no ambiente.

Não há possibilidade de reprodução da men- No diálogo, a referência à experiência objetiva


sagem desvinculada do testemunho empíri- e a reação à manifestação linguística se mistu-
co, da experiência objetiva. ram ao infinito, livremente.

Não é possível analisar a mensagem das abe- Caracteriza-se pela capacidade de ser poten-
lhas: podemos ver apenas seu conteúdo global. cialmente infinita, uma vez que, cada enun-
ciado permite análise e rearranjo de suas par-
tes com as de outros enunciados.

Trata-se de um código de sinais. Vai muito além de um código de sinais, uma


vez que é fonte de criatividade.

A linguagem antes dos trabalhos de Benveniste


Até o século XIX, antes que os estudos de gramática comparada estivessem
se solidificado, pensava-se que uma língua é uma coletânea de palavras que, ao
darem nome aos objetos do mundo, serviam para a expressão do pensamento.

Essa visão da linguagem, como uma espécie de coleção de palavras, foi su-
perada quando, de 1907 a 1911, Ferdinand de Saussure ofereceu na Universida-
de de Genebra três cursos nos quais transmitiu oralmente os fundamentos da
linguística moderna. Combatendo a visão do leigo, ele substituiu o conceito de
palavra pelo de signo linguístico, ou seja, a menor unidade completa que tem um
significado.

No quadro 2, o leitor encontrará de forma esquemática o modo pelo qual


Saussure concebeu o signo linguístico.

43
Linguagem e Pensamento

Quadro 2 – Composição do signo linguístico

Significante
Signo Linguístico:
Significado

Analisando a composição do signo linguístico registrada no quadro 2, pode-


mos perceber que Saussure, pela primeira vez, pôde perceber que a palavra não é
monolítica. Ao contrário, trata-se de uma unidade de duas faces, conforme segue:

 O significante – trata-se da “imagem acústica” de uma palavra, isto é, aqui-


lo que nossos ouvidos captam e o cérebro registra, mesmo que não en-
tendamos a língua em questão. Apenas por amor à clareza, propomos a
seguinte situação para exemplificar: se você, leitor, não fala nem entende
nenhuma palavra de japonês e acaba de chegar em Tóquio, você vai ou-
vir muitas “palavras”, mas não vai entender nenhuma, ou seja, não vai ter
acesso ao signo como um todo. Os sons articulados que saem da boca dos
japoneses e chegam aos seus ouvidos são os seus significantes.

 O significado – trata-se do conceito ao qual a palavra remete. Quando temos


conhecimento de mundo, podemos muito bem discutir o conceito veicula-
do por um dado significante, mesmo que não conheçamos a língua na qual
ele foi originariamente cunhado, uma vez que os significados relacionam-se
ao campo das ideias, e não de uma ou outra língua em particular. Desse
modo, voltando para nosso exemplo de sua chegada em Tóquio, você pode
muito bem, digamos, discutir o significado do haraquiri na cultura tradicio-
nal japonesa com o primeiro japonês que fale português que você encon-
trar, mesmo que não aprenda a pronunciar a palavra corretamente.

Se a relação significante e Por meio dessa dissociação, Saussure pôde


significado é frágil, como dar um segundo passo bastante importante
chegamos a nos entender? para a linguística moderna: postular que não
há correspondência exata entre significantes e
significados. Esse deslocamento é muito importante para que reflitamos sobre as
complexas relações entre pensamento e linguagem, uma vez que, a partir dele,
Saussure nos mostra que não há qualquer possibilidade de recobrimento dos ob-
jetos do mundo e de nossos pensamentos utilizando nossas palavras. Vale dizer:
a partir das elaborações da linguística, sabemos que nossos pensamentos são
sempre fugidios e apenas parcialmente compartilháveis como nossos pares.

A esta altura, o leitor deve estar se perguntando como os humanos chegam


a se entender. Trata-se de uma excelente questão, uma vez que ela nos remete a
44
Concepção do homem como ser de linguagem

uma ordem maior que organiza as palavras e faz com que, mesmo não falando a
mesma língua, possamos fazer algum tipo de troca de ideias: a linguagem como
um sistema.

Saussure nos mostrou que os significados podem ser compartilhados entre


nós não por remeterem a objetos do mundo, mas por funcionarem dentro de
uma lógica de ordenamento de significantes. Para o autor, ao se oporem uns aos
outros em uma rede de relações, os significantes acabam por adquirir um valor
linguístico, isto é, acabam por fazer sentido para nós.

Saussure explica essa noção por meio de uma bela metáfora: a do jogo de
xadrez. Comparando uma palavra a uma peça do jogo (no caso, o cavalo), o
autor nos explica que, para que o jogo funcione, pouco importa a peça em si,
mas o fato de que os dois jogadores tenham pactuado de que se trata de uma
peça legítima. Em benefício da clareza, transcrevemos um trecho do autor:
Tomemos um cavalo; será por si só um elemento do jogo? Certamente que não, pois, na sua
materialidade pura, fora de sua casa e das outras condições do jogo, não representa nada para
o jogador e não se toma elemento real e concreto senão quando revestido de seu valor e
fazendo corpo com ele. Suponhamos que, no decorrer de uma partida, essa peça venha a ser
destruída ou extraviada: pode-se substituí-la por outra equivalente? Decerto: não somente um
cavalo, mas uma figura desprovida de qualquer parecença com ele será declarada idêntica,
contanto que se lhe atribua o mesmo valor. Vê-se, pois, que nos sistemas semiológicos, como
a língua, nos quais os elementos se mantêm reciprocamente em equilíbrio de acordo com
regras determinadas, a noção de identidade se confunde com a de valor, e reciprocamente.
Eis porque, em definitivo, a noção de valor recobre as de unidade, de entidade concreta e de
realidade. (SAUSSURE, 1962, p. 128)

Lendo o extrato acima, é importante o leitor perceber que o principal deslo-


camento causado pela ciência linguística foi mostrar que as palavras em si não
significam absolutamente nada: se podemos usá-las para suporte de nosso pen-
samento, é justamente na medida em que elas se encontram organizadas em
um sistema (a linguagem, a cultura) que lhes dá consistência.

Concluindo, por meio de um percurso de mais de 100 anos dessa ciência,


fomos paulatinamente compreendendo que a linguagem é, ao mesmo tempo,
o que nos une e o que nos separa das coisas e das pessoas. Liga-nos ao mundo
porque fornece um aparelho por meio do qual podemos manter o contato com
a realidade: a possibilidade de nomear os objetos. Por outro lado, a linguagem
nos separa dos objetos justamente porque nos torna dependentes de um con-
ceito para apreendê-lo. Traduzindo: se é verdade que “o que os olhos não veem
o coração não sente”, não é menos verdade que “o que a linguagem não nomeia
a percepção não registra”.

45
Linguagem e Pensamento

IESDE Brasil S. A.
Texto complementar

Teoria do medalhão
(ASSIS, 1994)

— Estás com sono?

— Não, senhor.

— Nem eu; conversemos um pouco. Abre a janela. Que horas são?

— Onze.

— Saiu o último conviva do nosso modesto jantar. Com que, meu peral-
ta, chegaste aos teus 21 anos. [...] Não te ponhas com denguices, e falemos
como dois amigos sérios. Fecha aquela porta; vou dizer-te coisas importan-
tes. Senta-te e conversemos. Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma,
podes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na
indústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Há infinitas carreiras diante de
ti. [...]. Mas qualquer que seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é que

46
Concepção do homem como ser de linguagem

te faças grande e ilustre, ou pelo menos notável, que te levantes acima da


obscuridade comum. A vida, Janjão, é uma enorme loteria; os prêmios são
poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que
se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida [...].

— Sim, senhor.

— Entretanto, assim como é de boa economia guardar um pão para a ve-


lhice, assim também é de boa prática social acautelar um ofício para a hipó-
tese de que os outros falhem, ou não indenizem suficientemente o esforço
da nossa ambição. É isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade.

— Creia que lhe agradeço; mas que ofício, não me dirá?

— Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão. Ser medalhão


foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me, porém, as instruções de um pai,
e acabo como vês, sem outra consolação e relevo moral, além das esperanças
que deposito em ti. Ouve-me bem, meu querido filho, ouve-me e entende. [...]

— Entendo.

— Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo


o cuidado nas ideias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O
melhor será não as ter absolutamente; coisa que entenderás bem, imaginan-
do, por exemplo, um ator defraudado do uso de um braço. Ele pode, por um
milagre de artifício, dissimular o defeito aos olhos da plateia; mas era muito
melhor dispor dos dois. O mesmo se dá com as ideias; pode-se, com violên-
cia, abafá-las, escondê-las até à morte; mas nem essa habilidade é comum,
nem tão constante esforço conviria ao exercício da vida.

— Mas quem lhe diz que eu...

— Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia


mental, conveniente ao uso deste nobre ofício. Não me refiro tanto à fideli-
dade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina, e vice-
-versa, porque esse fato, posto indique certa carência de ideias, ainda assim
pode não passar de uma traição da memória. Não; refiro-me ao gesto correto
e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias ou antipa-
tias acerca do corte de um colete, das dimensões de um chapéu, do ranger
ou calar das botas novas. Eis aí um sintoma eloquente, eis aí uma esperança.
No entanto, podendo acontecer que, com a idade, venhas a ser afligido de

47
Linguagem e Pensamento

algumas ideias próprias, urge aparelhar fortemente o espírito. As ideias são


de sua natureza espontâneas e súbitas; por mais que as sofremos, elas irrom-
pem e precipitam-se. [...]

— Creio que assim seja; mas um tal obstáculo é invencível.

— Não é; há um meio; é lançar mão de um regime debilitante, ler com-


pêndios de retórica, ouvir certos discursos etc. [...] O bilhar é excelente. [...] Se
te aconselho excepcionalmente o bilhar é porque as estatísticas mais escru-
pulosas mostram que três quartas partes dos habituados do taco partilham
as opiniões do mesmo taco. O passeio nas ruas, mormente nas de recreio
e parada, é utilíssimo, com a condição de não andares desacompanhado,
porque a solidão é oficina de ideias, e o espírito deixado a si mesmo, embora
no meio da multidão, pode adquirir uma tal ou qual atividade.

— Mas se eu não tiver à mão um amigo apto e disposto a ir comigo?

— Não faz mal; tens o valente recurso de mesclar-te aos pasmatórios, em


que toda a poeira da solidão se dissipa. As livrarias, ou por causa da atmos-
fera do lugar, ou por qualquer outra razão que me escapa, não são propícias
ao nosso fim; e, não obstante, há grande conveniência em entrar por elas, de
quando em quando, não digo às ocultas, mas às escâncaras. Podes resolver
a dificuldade de um modo simples: vai ali falar do boato do dia, da anedota
da semana, de um contrabando, de uma calúnia, de um cometa, de qualquer
coisa. [...] Com este regime, durante oito, dez, dezoito meses – suponhamos
dois anos –, reduzes o intelecto, por mais pródigo que seja, à sobriedade, à
disciplina, ao equilíbrio comum. Não trato do vocabulário, porque ele está
subentendido no uso das ideias; há de ser naturalmente simples, tíbio, apou-
cado, sem notas vermelhas, sem cores de clarim...

— Isto é o diabo! Não poder adornar o estilo, de quando em quando...

— Podes; podes empregar umas quantas figuras expressivas. [...] Senten-


ças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos, máximas, é
de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitação,
ou de agradecimento. [...] Alguns costumam renovar o sabor de uma citação
intercalando-a numa frase nova, original e bela, mas não te aconselho esse
artifício: seria desnaturar-lhe as graças vetustas. Melhor do que tudo isso,
porém, que afinal não passa de mero adorno, são as frases feitas, as locuções
convencionais, as fórmulas consagradas pelos anos, incrustadas na memória

48
Concepção do homem como ser de linguagem

individual e pública. Essas fórmulas têm a vantagem de não obrigar os outros


a um esforço inútil. Não as relaciono agora, mas fá-lo-ei por escrito. [...]

— Vejo por aí que vosmecê condena toda e qualquer aplicação de pro-


cessos modernos.

— Entendamo-nos. Condeno a aplicação, louvo a denominação. O mesmo


direi de toda a recente terminologia científica; deves decorá-la. Conquanto o
rasgo peculiar do medalhão seja uma certa atitude de deus Término, e as ci-
ências sejam obra do movimento humano, como tens de ser medalhão mais
tarde, convém tomar as armas do teu tempo. [...]

— Upa! que a profissão é difícil!

— E ainda não chegamos ao cabo.

— Vamos a ele.

— Não te falei ainda dos benefícios da publicidade. A publicidade é uma


dona loureira e senhoril, que tu deves requestar à força de pequenos mimos,
confeitos, almofadinhas, coisas miúdas, que antes exprimem a constância
do afeto do que o atrevimento e a ambição. Que Dom Quixote solicite os
favores dela mediante, ações heroicas ou custosas, é um sestro próprio desse
ilustre lunático. O verdadeiro medalhão tem outra política. Longe de inven-
tar um Tratado científico da criação dos carneiros, compra um carneiro e dá-o
aos amigos sob a forma de um jantar, cuja notícia não pode ser indiferente
aos seus concidadãos. Uma notícia traz outra; cinco, dez, vinte vezes põe o
teu nome ante os olhos do mundo. [...] Percebeste?

— Percebi. [...] Digo-lhe que o que vosmecê me ensina não é nada fácil.

— Nem eu te digo outra coisa. É difícil, come tempo, muito tempo, leva anos,
paciência, trabalho, e felizes os que chegam a entrar na terra prometida! [...]

— Farei o que puder. Nenhuma imaginação?

— Nenhuma; antes faze correr o boato de que um tal dom é ínfimo.

— Nenhuma filosofia?

— Entendamo-nos: no papel e na língua alguma, na realidade nada. “Fi-


losofia da história”, por exemplo, é uma locução que deves empregar com
frequência, mas proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam

49
Linguagem e Pensamento

as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originali-
dade etc. etc.

— Também ao riso?

— Como ao riso?

— Ficar sério, muito sério...

— Conforme. Tens um gênio folgazão, prazenteiro, não hás de sofreá-lo


nem eliminá-lo; podes brincar e rir alguma vez. Medalhão não quer dizer me-
lancólico. Um grave pode ter seus momentos de expansão alegre. Somente
– e este ponto é melindroso...

— Diga...

— Somente não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da


boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraí-
do por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos céticos e de-
sabusados. Não. Usa antes a chalaça, a nossa boa chalaça amiga, gorducha,
redonda, franca, sem biocos, nem véus, que se mete pela cara dos outros,
estala como uma palmada, faz pular o sangue nas veias, e arrebentar de riso
os suspensórios. Usa a chalaça. Que é isto?

— Meia-noite.

— Meia-noite? Entras nos teus 22 anos, meu peralta; estás definitivamen-


te maior. Vamos dormir, que é tarde. Rumina bem o que te disse, meu filho.
Guardadas as proporções, a conversa desta noite vale O príncipe de Maquia-
vel. Vamos dormir.

Atividades
1. Por que, quando se trata do humano, a linguagem não pode ser reduzida ao
seu aspecto comunicativo?

50
Concepção do homem como ser de linguagem

2. Por que motivo é equivocada a perspectiva segundo a qual um professor


precisa sempre se apoiar no concreto e trabalhar apenas com as coisas co-
nhecidas por seus alunos?

3. Por que é necessário transcender o nível da experimentação prática – por


exemplo, quando propomos exercícios de completar lacunas com os tem-
pos de verbo corretos – e levar os nossos alunos a, a partir dela, a construir
conceitos?

Dicas de estudo
DUCROT, Oswald; TODOROV, Tzvetan. Dicionário Enciclopédico das Ciências
da Linguagem. São Paulo: Perspectiva, 1988.

Obra fundamental para o leitor iniciante que se interessou por aprofundar


seu estudo sobre a linguagem, esse dicionário discorre sobre as principais esco-
las, expõe os domínios da pesquisa sobre a linguagem e, finalmente, explica de
modo claro e compreensível os principais conceitos metodológicos e descritivos
com os quais a linguística trabalha.

51
Analisar os modos de falar e de pensar:
exclusividade do ser humano
Geralmente, se uma pessoa fala sem pensar, logo aparece algum conhe-
cido pronto para diagnosticá-la: “Fulano parece uma criança!”. Maldade à
parte, essa pessoa que fez a crítica tem certa razão naquilo que diz, uma vez
que demora muito para conquistarmos a capacidade de nos distanciar de
nossa própria fala e analisar nossos modos de expressão e de pensamento.

Mesmo respeitando as variações indivi- Por que,


duais de ritmo do desenvolvimento humano, frequentemente, o que
a capacidade de tomar a linguagem como a criança pequena diz
objeto específico de análise é uma conquis- nos parece exótico?
ta que raramente ocorre antes do término da
chamada “primeira infância”, uma vez que depende de um longo processo
de inserção do jovem na cultura em que vive.

Quando muito pequeno, o ser humano pode falar, mas não pode escu-
tar de forma crítica e distanciada o que ele mesmo diz. É justamente por
essa razão que, em toda parte, circulam piadinhas sobre o caráter extrava-
gante do raciocínio das crianças. Essas piadas podem ser muito divertidas,
mas em si não nos ajudam muito a transcender a denúncia da ingenuida-
de dos pequenos em nossas conversas em diversos âmbitos.

Entretanto, é preciso fazê-lo. Se quisermos entender melhor como a


mente humana funciona, nós, profissionais da educação, necessitamos
nos interrogar sobre as causas dessa dificuldade.

Como o objetivo aqui é elucidar algumas das diferenças entre o pen-


samento dos pequenos e dos adultos, vamos iniciar o trabalho ao qual
nos propomos neste capítulo nos deleitando com alguns exemplos que
mostram o modo diferente da criança pensar sobre a língua.

Eles foram recortados da comunidade virtual Criança Diz cada Uma, que
consiste em um ponto de encontro virtual baseado “na coluna que o faleci-
do jornalista e dramaturgo Pedro Bloch escrevia na extinta revista Manche-
te, contando histórias engraçadas e inusitadas acontecidas com crianças”.
A página de abertura convida os seus participantes a darem depoimento
Linguagem e Pensamento

sobre o que merece ser registrado do que seus filhos andam falando. Está hospe-
dada no site de relacionamentos pessoais Orkut.1

Para ilustrar nosso trabalho, selecionamos alguns fragmentos de textos que


podem ser encontrados em um dos tópicos do fórum da comunidade virtual, ini-
ciado em 18 de setembro de 2005. Trata-se do seguinte: uma das participantes
instigou os participantes a completarem a seguinte frase “Quando eu era criança
eu pensava que...” Esse fórum destacou-se porque, ao ler seu conteúdo, torna-se
evidente que aqueles que aceitaram o convite da proponente foram forçados a
se lembrar do período de sua vida no qual ele teve predominantemente pensa-
mentos exóticos e inconsistentes.

Vejamos alguns fragmentos desses depoimentos, transcritos no quadro 1, do


modo como foram escritos pelos participantes da comunidade.

Quadro 1 – Fragmentos de depoimentos dos participantes da comunidade


virtual “Criança Diz cada Uma”

Cara, quando eu era criança eu pensava que cheque sem fundo era algum
Andréa tipo de cheque sem nada no fundo, com um buraco...

Uma amiga da minha mãe disse braba, enquanto esperávamos para atra-
vessar a rua: “tem que morrer um para eles colocarem uma sinaleira”. Toda
Ana Selene vez que eu via um sinal de trânsito, eu ficava com pena da pessoa que tinha
morrido naquele lugar.

Eu achava que “Grande Elenco” era um ator muito famoso, como o Grande
Otelo. Só que eu nunca o tinha visto ainda porque ele era um ator de teatro,
Camila sempre citado junto com os melhores atores: Fernanda Montenegro, Paulo
Autran, e Grande Elenco!

Mirocecê, eu achava que isso era o lugar de origem da dona Francisca!


Zé Roberto “atirei o pau no gato-to/ mas o gato-to/ nao morreu-rreu-rreu/ dona Chica-
ca/ dimiro-se-se/ do berro/ do berro/ que o gato deu... miau!”

Esperamos que os exemplos acima, muito saborosos, tenham lhe causado riso!
Agora, perceba que, em todos eles, nosso riso foi causado por um mesmo motivo:
trata-se de um equívoco por parte da criança, que toma algumas expressões, se assim
podemos dizer, ao pé da letra, ou seja, do modo como chegam aos seus ouvidos.

Os significados “errados” atribuídos pela criança às expressões “cheque sem


fundo” e “grande elenco” foram, muito provavelmente, causados por uma igno-
rância vocabular e cultural. Ou seja: sem conhecer o significado culturalmen-
te partilhado dessas expressões, a criança criou, do jeito que pôde, algum jeito
para se virar com seu desconfortável desconhecimento.
1
Ressalvando que só podem entrar neste site as pessoas que forem convidadas por um amigo, informamos que os excertos que se seguem estão
disponíveis no seguinte endereço: <http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=68850&tid=2970165>. Acesso em: 18 set. 2005.

54
Analisar os modos de falar e de pensar: exclusividade do ser humano

Por sua vez, embora semelhante, o nascimento O que esses exemplos


da cidade “Mirocecê” é um pouco mais complexo. nos mostram?
Em primeiro lugar, é evidente que a criança des-
conhece o significado do verbo “admirar”. Em segundo lugar, não foi capaz de
delimitar onde começava e onde terminava uma palavra, fato esse que nos in-
dicia que essa criança também não era capaz, naquela ocasião, de reconhecer a
função do pronome reflexivo se, o que acabou fazendo com que ela ignorasse o
padrão da canção, que é o da repetição da última sílaba das palavras.

O que esses exemplos nos mostram? Esses exemplos nos mostram que, como
a linguagem humana é, por assim dizer, escorregadia quando ainda não temos a
vivência cultural de um adulto, não conseguimos analisar convenientemente os
segmentos que compõem os enunciados e, por esse motivo, não nos é possível
nem delimitar convenientemente seus segmentos nem articulá-los de modo
adequado com os demais segmentos que compõem o enunciado.

É importante ressaltar que, por esse motivo, enquanto não nos é possível
manter um certo distanciamento das palavras que falamos, nosso pensamento
tende a ser, ao mesmo tempo, limitado e limitante, uma vez que, para poder
criar, é necessário, antes de tudo, interrogar a realidade que nos circunda.

A capacidade para a reflexão


linguística se ganha na cultura
A capacidade de interrogar os modos de dizer que são habituais na comuni-
dade em que vivemos é uma tarefa bastante complexa. É, mais ou menos, como
tentar se lembrar, depois de uns 30 minutos, por qual mecha você começou a
desembaraçar seus cabelos no meio do banho. Isto é, quando estamos imersos
em uma prática, nós a automatizamos e, consequentemente, ela praticamente
se torna invisível para nós.

Para aprofundar um pouco mais essa ideia, vamos agora explorar o trabalho de
Blikstein (1990, p. 86), que escreveu um livro visando cutucar um pouco a nossa
inércia e levar-nos a uma interrogação sobre nossa “confortável ilusão referencial”.

Para fazê-lo, o autor partiu das seguintes perguntas que vêm sendo repetidas
há muitos séculos: “Até que ponto o universo dos signos linguísticos coincide com
a realidade extralinguística: como é possível conhecer a realidade por meio de
signos linguísticos? Qual o alcance da língua sobre o pensamento e a cognição?”

55
Linguagem e Pensamento

(BLIKSTEIN, 1990, p. 71). Retomar aqui essas questões antigas se justifica porque
elas vêm nos mostrando que, no processo da cognição, há uma insuficiência da
relação entre signo e coisas.

Essa insuficiência vem sendo insistentemente assinalada na linguística,


na psicologia, na antropologia, na teoria do conhecimento etc., tendo gerado
inúmeras tentativas de construção de modelos teóricos que possam servir de
modos pelos quais possamos nos aproximar da intrincada relação entre a lin-
guagem e as coisas.

Um dos modelos mais clássicos para explicar como pensamento e lingua-


gem estão entrelaçados é o triângulo de Odgen e Richards, criado em 1956 (ver
figura 1). Segundo Blikstein, foi esse triângulo que deu origem a uma tendência
dominante na linguística moderna: considerar a língua como “organizadora da
estrutura conceitual do universo, e já se tornou lugar comum afirmar que ela é
o ‘molde do pensamento’ ou ‘o instrumento de análise ou recorte da realidade’”
(BLIKSTEIN, 1990, p. 40).

Referência ou
pensamento

Símbolo Referente (coisa ou


(significante) objeto extralinguístico)

Figura 1 – O triângulo de Odgen e Richards.

Quando surgiu, esse modelo despertou bastante interesse, uma vez que mos-
trava claramente a existência de uma separação entre três instâncias:

 o mundo real;

 as palavras que usamos para nomear os objetos que lá se encontram; e

 os pensamentos/percepções que podemos ter tanto de uma coisa quanto de


outra.

56
Analisar os modos de falar e de pensar: exclusividade do ser humano

Mesmo reconhecendo a pertinência dessa tripartição, Blikstein ficou incomo-


dado com a ausência de uma reflexão sobre a influência da prática cultural em
nosso modo de ver as coisas. Por esse motivo, defendeu a necessidade de recupe-
rar o trabalho de Schaff (1974), articulando-o ao modelo já descrito, uma vez que
ele poderia nos ajudar a reformular a lição clássica a respeito das relações entre
linguagem, percepção e pensamento, tornando claro que tanto a percepção
quanto a linguagem estão indissoluvelmente ligadas à práxis social. Nas palavras
de Blikstein, a língua amarra a percepção, a cognição, e impede o indivíduo de ver
qualquer realidade que já não esteja previamente marcada em sua língua.

Você já ouviu falar do trabalho de Schaff? Trata-se de um pensador que


ficou bastante famoso por suas tentativas de ligar a linguagem à práxis social.
Em especial, é bastante conhecido o seu exemplo que trata a percepção que
os esquimós têm da cor branca. Segundo o autor, essa população não vê a
neve em geral, do mesmo modo como faríamos nós que habitamos regiões
temperadas. Como, para eles, conhecer a neve muitíssimo bem consiste em
uma questão de vida ou de morte, os esquimós têm palavras para nomear
30 tipos de neve, pois distinguem-na de acordo com as diversas tonalidades
de branco que seus olhos conseguem distinguir. Bem diferente de nós, que,
basicamente, trabalhamos com as categorias “branco bem lavado” e “branco
encardido”, não é mesmo?

Mesmo concordando parcialmente com a conclusão do autor, não podemos


deixar de ressaltar que, com algum treino, muito trabalho e dedicação, somos
capazes de atravessar, em certa medida, os efeitos homogeneizadores da cul-
tura e tornar nossa vida mais refletida e nossos modos de pensar, mais criativos.
Mas isso não é coisa fácil! É preciso “suar a camisa” e investir na direção de tomar
a própria língua como objeto de análise.

A língua como objeto


de análise pode gerar muito prazer
Quando cresce, o homem torna-se o único animal que tem o privilégio de
contar com esta grande fonte de prazer: tomar sua língua materna como objeto
de reflexão e nela efetuar transformações para criar “efeitos especiais”. Por exem-
plo, os humoristas que fazem o chamado “humor inteligente” costumeiramente
utilizam-se desse recurso para nos fazer rir. Leia, por exemplo, um fragmento de
uma das colunas do famosíssimo José Simão (2005).
57
Linguagem e Pensamento

1 Brasil Urgente! Habeas corpus pra macaca. Um promotor baiano


2 pediu habeas corpus para uma macaca não ficar enjaulada no zoológico
3 de Salvador. HABEAS MACACUS! E quer devolver a macaca para seu
4 habitat em Sorocaba. O quê? Ela é de Sorocaba? E o que ela foi fazer na
5 Bahia? Foi passar o Carnaval na Bahia e ficou! Essa macaca vai acabar
6 entrando para o É o Tchan! e substituir a Scheila Carvalho!
7 E depois do habeas corpus pra macaca, o Maluf vai se sentir injusti-
8 çado! Depois do habeas macacus, o Maluf vai pedir um HABEAS BRIMUS!
9 Rarará! E olha a notícia: “Maluf chora e ameaça deixar a política”. Então
10 não é ameaça. Ameaça: “Maluf chora e ameaça continuar na política”.

Para pontuar apenas uma das muitas brinca- Como alguém


deiras feitas por Simão nesse extrato, observe as consegue fazer isso?
seguintes transformações feitas pelo humorista a
partir da expressão latina, que de fato existe e é usada na linguagem jurídica:
habeas corpus (linha 1). Ao ironizar sobre um advogado que tomou uma macaca
como cliente, Simão inventou a expressão “habeas macacus” (linha 3) para final-
mente, aludindo à etnia de Paulo Maluf, que, na ocasião da escrita de sua coluna
havia sido recentemente preso, inventou ainda o habeas brimus (linha 8).

Brincar com a linguagem pressupõe a construção prévia de uma capacidade


que, como já vínhamos apontando, é exclusiva do humano: a possibilidade de
refletir também sobre a forma de expressão e não meramente sobre o conteúdo.
Para ficar mais clara qual a diferença entre uma ação e outra, propomos, neste
momento, a comparação entre os seguintes enunciados fictícios:

Locutor 1: Eu só bebo água mineral.

Locutor 2: A composição química da água é H2O, porém, quando ela recebe


esgotos, encontram-se também coliformes fecais, como é o caso desta amos-
tra que acabo de examinar.

Se, no primeiro dos casos, o locutor tem como tema específico de sua enun-
ciação o seu gosto particular no que tange à água, no segundo, ao contrário,
nada sabemos sobre suas preferências. No segundo caso, sabemos que, após ter
realizado exames apropriados em uma amostra de água qualquer, um investiga-
dor pôde referir-se à sua composição estrutural.

Trazer esse exemplo para o contexto específico de nossa discussão deve aju-
dar-nos a sermos mais claros. Comparem, agora, os próximos enunciados.
58
Analisar os modos de falar e de pensar: exclusividade do ser humano

Locutor 1: Eu só namoro homem bonito.

Locutor 2: Bonito é um adjetivo vago, uma vez que a determinação de seu


sentido depende do gosto pessoal do falante.

Do mesmo modo como aconteceu no primeiro par de exemplos, enquanto o


locutor 1 fala uma frase que tem como objeto principal os seus gostos pessoais,
nada sabemos da pessoalidade do locutor 2. Mas, por outro lado, sabemos que
ele é maduro o suficiente para conseguir refletir sobre a linguagem.

Ao se concretizar em uma língua que pode ser


É fácil refletir
falada ou escrita, a linguagem se torna passível de ser
sobre a linguagem?
observada, analisada e descrita com relação a sua es-
trutura e seus modos de funcionamento em diferentes tempos e espaços, mas
isso não é nada fácil. Exige uma experiência de vida na cultura que proporcione
ao sujeito um repertório que lhe permita analisar devidamente os enunciados
que nela circulam.

Feitas todas as considerações precedentes, optamos por concluir esta refle-


xão sobre a capacidade de refletir sobre a língua de um modo um pouco dife-
rente. Em vez de explicitar aqui a “moral da história”, que, esperamos, já ficou
transparente para o leitor ao longo de sua leitura, deixaremos registrado um
exemplo que nos parece mostrar, de modo especialmente claro, a potência de
deslocamento que tem a reflexão sobre a linguagem.

Terminamos, então, com uma pequena história verídica, vivenciada por uma
garota de quase oito anos e alguns de seus familiares. Ao lê-la, esperamos que
o leitor se sinta convocado a, em seu dia-a-dia, fazer o mesmo tipo de trabalho
linguístico que foi feito pela menina e, desse modo, criar novas realidades.

Um pequeno apólogo familiar2

Aos sete anos e seis meses, já pronta para um passeio familiar, L. brinca en-
tusiasmadamente com seu irmão menor. Pouco antes de sair, sua maria-chiqui-
nha despenca declaradamente. Afeita a pentear o cabelo em inversa proporção
a que é à pilhéria espirituosa, L. não chama sua mãe para refazer o penteado.

Ao notar o desastre, impaciente e já com pressa, seu pai lhe dirige abrupta-
mente a palavra:
2
Confira trabalho anterior deste autor (Riolfi, 2005) para uma exploração mais aprofundada desta historieta.

59
Linguagem e Pensamento

— L., você vai sair com este cabelo mexido? Desmanchou tudo!

Impassível, a garota dirige-se para a porta com os cabelos no mesmo


estado e responde, sorridente:

— Ó, pai, “cabelo mexido”?!! “Cabelo mexido” deve ser o prato predileto


de canibal pobre...

Texto complementar

O enigma de Kaspar Hauser (1812[?]-1833):


uma abordagem psicossocial
(SABOYA, 2001)

Trabalhando com a perspectiva histórico-cultural em psicologia, que en-


fatiza que cada ser humano se constitui como uma pessoa totalmente única
(por suas experiências e sua história de vida) e que ressalta a importância das
práticas culturais na definição do desenvolvimento psicológico do sujeito,
buscou-se selecionar um personagem humano (Kaspar Hauser) que não cor-
respondia, na época em que viveu (séc. XIX), aos padrões de comportamento
tidos ou esperados como “normais” dentro da cultura da época. Pretende-se
analisar neste trabalho o percurso de desenvolvimento de Kaspar Hauser,
buscando a compreensão de fatores que concorreram para a construção de
seu psiquismo. [...]

Quando apareceu em Nuremberg, o garoto não entendia nada do que lhe


diziam; sabia falar apenas uma frase: “quero ser cavaleiro” e não sabia andar
direito. Parecia um menino dentro de um corpo adolescente. Seu comporta-
mento, estranho para os padrões socioculturais estabelecidos, causava um
misto de espanto e interesse. Era visto como um “garoto selvagem”, apesar
de demonstrar ser dócil, simples e gentil. Possuía algumas habilidades pe-
culiares interessantes, descritas tanto no filme de Herzog quanto na obra de
Masson: conseguia enxergar muito longe, no escuro, e sabia tratar os ani-
mais, principalmente os pássaros. Ao mesmo tempo tinha medo de galinhas
e fugia delas aterrorizado. Numa das cenas, atraído pela chama de uma vela,
colocava seu dedo no fogo e, ao sentir dor, aprende que a chama queima.
60
Analisar os modos de falar e de pensar: exclusividade do ser humano

Graças à sua curiosidade infantil e memória notável, aprendeu várias coisas


muito depressa. [...]

Criado no isolamento e privado de educação, condicionamento e repres-


são, é este processo de integração que Kaspar Hauser sofrerá em Nuremberg,
e seu instrumento principal será a linguagem, pela qual a sociedade tentará
fazê-lo conceber aquilo que sua natureza não concebe: a representação. O
século XIX, época em que Kaspar Hauser viveu, foi um período marcado pela
perspectiva positivista, evolucionista e desenvolvimentista. A visão de que
havia um modelo de civilização e de desenvolvimento a ser alcançado, tanto
pelos homens como pelas sociedades, estava em seu auge. Todos aqueles
que não correspondiam ao protótipo do homem “civilizado” eram classifica-
dos como primitivos, atrasados e deveriam ser “ajudados” a alcançar graus
mais avançados na escala de desenvolvimento e evolução. É dentro dessa
visão de mundo que Kaspar Hauser vai ser socializado. [...]

Com o tempo aprende a falar. Mas mesmo a linguagem não lhe permite
capturar esse estranho mundo em que vivem as pessoas. [...] A paisagem em
que Kaspar Hauser foi colocado, apesar de explicada pela linguagem, pelas
palavras, por signos linguísticos, permanece, para ele, indecifrável. Muitas
vezes, pedia para contar histórias que imaginava, mas não conseguia ver-
balizar o conteúdo pensado. Conhecer o mundo pela linguagem, por signos
linguísticos, parece não ser suficiente para Kaspar Hauser [...]. Nesse senti-
do, também Vygotsky insiste que o pensamento e a linguagem se originam
independentemente, fundindo-se mais tarde no tipo de linguagem interna
que constitui a maior parte do pensamento maduro.

Kaspar Hauser parece não entender as explicações que lhe dão. As pessoas
impõem todos os tipos de signos a ele, na certeza de que compreenderá o
insólito ambiente que o cerca. Como Kaspar Hauser poderia compreender o
significado das palavras e que elas representam coisas se não passou por um
processo de aprendizado e socialização necessários para que compreendes-
se a representatividade dos signos? Blikstein diz que a educação não passa
de uma construção semiológica que nos dá a ilusão da realidade; ou seja, a
educação vai estimulando na criança um processo de abstração. É justamen-
te esse processo que Kaspar Hauser não vivenciou. [...]

Os objetos não eram percebidos por Kaspar Hauser da forma como a prá-
tica social definia previamente, ou seja, Kaspar Hauser estava despido dos “fil-
tros” e estereótipos culturais que condicionam a percepção e o conhecimento.

61
Linguagem e Pensamento

Tais “filtros” ou estereótipos, por sua vez, são garantidos e reforçados pela
linguagem. Assim, o processo de conhecimento da realidade é regulado por
uma contínua interação de práticas culturais, percepção e linguagem.

A forma como Kaspar Hauser compreende o mundo e se relaciona com


ele indica que a percepção depende sobretudo da prática social. Sabemos
que, do nascimento à adolescência, Kaspar Hauser esteve isolado de qual-
quer contexto ou prática social. O que podemos verificar no seu percurso de
desenvolvimento psicológico é que, a despeito da ação da linguagem (ad-
quirida na fase adulta) ou de um eventual “potencial” inato, Kaspar Hauser
não consegue captar o mundo como o faz a sociedade que o cerca, ou seja,
decodifica à sua maneira, com uma lógica diferente da estabelecida, a signi-
ficação do mundo. Fica evidente, então, que o seu sistema perceptual está
desaparelhado de uma prática social necessária para gestar o referencial cul-
tural de interpretação da realidade.

Podemos concluir que, como Kaspar Hauser não passou por um proces-
so de socialização, onde exercitaria a compreensão através da prática social,
não consegue atribuir significado às coisas, mesmo tendo adquirido a lin-
guagem. Assim, analisando o caso de Kaspar Hauser, somos levados a pensar
que não apenas o sistema perceptual, mas as estruturas mentais e a própria
linguagem são resultantes da prática social, ou seja, as práticas culturais “mo-
delam” a percepção da realidade e o conhecimento por parte do sujeito.

Em virtude de não ter sido exposto a essa “modelagem” cultural, Kaspar


Hauser era visto como um ser “incompleto”, como se estivesse sempre em dé-
ficit em relação aos outros; teria Kaspar instrumental de reflexão internalizado
para construir a compreensão da diferença? Aqui parece ser possível detectar
uma inverossimilhança no filme de Werner Herzog: numa das cenas, Kaspar
Hauser diz a uma das pessoas que o acolheu: “Ninguém aceita Kaspar.”

Segundo o filme, ele tem consciência de sua situação. Porém, na realida-


de, parece não ser possível esse grau de consciência em alguém que não tem
instrumental de reflexão internalizado. Kaspar Hauser se sente perturbado
pelo mundo: “o mundo é todo mau”, comenta com seu tutor após perceber
que alguém pisou as flores que plantara no jardim. [...]

Vygotsky, citado por Oliveira, diz que a relação do homem com o mundo
não é uma relação direta, mas uma relação mediada, sendo que os siste-
mas simbólicos são os elementos intermediários entre o sujeito e o mundo;

62
Analisar os modos de falar e de pensar: exclusividade do ser humano

porém, tendo vivido no isolamento, Kaspar Hauser não aprendeu nem in-
ternalizou este sistema simbólico que, para ele, não fazia sentido. Somen-
te depois de muito tempo convivendo com a comunidade de Nuremberg
é que Kaspar Hauser começa a entender a relação simbólica e a relação de
representatividade entre os signos e as coisas concretas. [...]

Kaspar Hauser não é reconhecido como parte da sociedade e ele próprio


não se reconhece como parte dela. Em uma reunião para a qual fora convida-
do a participar, em que estavam vários membros da alta sociedade, foi apre-
sentado à esposa do prefeito de Nuremberg, que lhe perguntou como era
sua prisão e ele respondeu: “melhor do que aqui fora”. Vai sofrendo, assim,
um processo de estigmatização que o marca, não apenas como “diferente”
ou “anormal,” mas também como alguém que não possui identidade. [...]

O caso de Kaspar Hauser serve para ilustrar o erro básico de uma organi-
zação social fundada sobre os princípios do racionalismo positivista. Mostra-
-nos que a “humanização” do homem, entendida como socialização, não é
uma decorrência biológica da espécie, mas consequência de um longo pro-
cesso de aprendizado com o grupo social.

Através desse processo, o indivíduo se integra ao grupo em que nasceu,


assimilando o conjunto de hábitos e costumes característicos desse grupo.
Participando da vida em sociedade, aprendendo suas normas, valores e
costumes, o indivíduo está se socializando, reprimindo suas características
instintivas e animais e desenvolvendo as sociais e culturais, fazendo, assim,
a “passagem da natureza para a cultura,” aprendendo a ver com os “óculos
sociais,” tornando-se, como nos disse Charles Dickens, “um animal de cos-
tumes”. Kaspar Hauser nunca se transformou nesse animal de costumes; no
máximo, poderia ser visto como “domesticado” pela sociedade da época.

Atividades
1. Por que motivo é necessário levar o jovem humano a refletir a respeito da
linguagem para incidir sobre o seu desenvolvimento intelectual?

63
Linguagem e Pensamento

2. Por que motivo pessoas de comunidades linguísticas diferentes tendem a


interpretar fatos análogos de modos diferentes?

3. Por que é difícil para as crianças aprender a analisar os modos de funciona-


mento da linguagem?

Dicas de estudo
Você gosta de cinema? Se você respondeu afirmativamente, está com sorte,
pois, dessa vez, sugerimos que você assista ao filme que está pressuposto ao
longo deste capítulo!

O ENIGMA de Kaspar Hauser (Jeder Für Sich und Gott Gegen Alle). Direção de
Werner Herzog. Alemanha, 1974. 1 filme (109 min).

64
Analisar os modos de falar e de pensar: exclusividade do ser humano

Para animar você, já adiantamos que esse belíssimo filme se baseia na história
verídica e obscura de Kaspar Hauser, um homem doce, generoso e, ao mesmo
tempo, melancólico. Ele foi encontrado numa praça de Nuremberg, em 1829,
com, presumivelmente, 18 anos. Ao que tudo indica, cresceu num calabouço,
acorrentado até o dia em que foi levado por um guarda a uma praça e aí aban-
donado. Um cidadão o encontrou e o levou para a casa do capitão de cavalaria
que o entregou às autoridades. Kaspar passou, então, um tempo de pesadelo,
durante o qual foi exposto em uma feira de curiosidades.

Um dia, ele conseguiu fugir com alguns companheiros, tendo sido acolhido
por um protetor mais humano. Dois anos depois, Kaspar tinha aprendido a falar
e a escrever, mas, surpreendentemente, até o dia em que foi enigmaticamente
assassinado, o pobre rapaz ainda pensava de modo completamente diferente
do modo como faziam os outros seres humanos de sua época.

65
A perspectiva histórica do
desenvolvimento do pensamento humano
Neste capítulo, temos como objetivo primordial tematizar o surgimen-
to do pensamento na espécie humana. Convém ressaltar que, como nin-
guém entre nós tem máquina do tempo, trata-se de um empreendimento
bastante ousado e exploratório, demandando a utilização de nossa capa-
cidade de abstração.

Por esse motivo, vamos utilizar o que costumamos chamar de muletas


para o pensamento, ou seja, aqueles recursos por meio dos quais torna-se
mais fácil imaginar como é algo que não podemos ver para que nosso
caminho se torne menos árduo. Então, para começarmos nossa reflexão
sobre como o antepassado do homem teria vivido quando ainda era um
animal sem pensamento e sem linguagem, vamos recuperar aqui o filme
A Guerra do Fogo, de Jean-Jacques Annaud.

Você já assistiu a ele? Se não o fez, não perca esta oportunidade de


fazê-lo por nada neste mundo! Trata-se de um primoroso trabalho que,
tendo como centro a descoberta do processo para acender o fogo, consis-
te em uma representação ficcional do momento em que o Homo erectus
tornou-se Homo sapiens, o “homem cultural” como o conhecemos.

Os sustos que a gente leva


quando encontra quem sabe mais
Na hipótese que o filme trabalha, o contato ou, se assim podemos dizer,
a fricção entre culturas em diferentes estágios de evolução tem papel cen-
tral na gênese da linguagem e do pensamento humano.

Sendo assim, para seu realizador, a passagem do homem animal para


o homem cultural coincidiu com o momento no qual, motivado pela ne-
cessidade de sobrevivência, nosso antepassado remoto procurou estreitar
laços com seus semelhantes mais evoluídos para aprender como utilizar
instrumentos imprescindíveis para a sobrevivência da tribo.
Linguagem e Pensamento

Que tal conhecer um pouco


o enredo de A Guerra do Fogo?
Annaud partiu da hipótese de que, em um determinado estágio de sua evo-
lução biológica, o ancestral do homem sentiu necessidade de preservação de
um importante conhecimento que tinha acabado de adquirir: a manipulação de
instrumentos. Por sua vez, esse desejo de não deixar perecer uma conquista tão
importante o levou a sofisticar a sua organização social e, consequentemente,
aproveitar-se dos recursos sonoros que seu corpo oferecia para criar um rudi-
mento de linguagem.

Para nos mostrar esse “ancestral da linguagem”, que estava a meio caminho
entre a comunicação animal e a linguagem humana tal qual a conhecemos hoje,
o realizador da obra, em vez de fazer somente uma sonoplastia sem sentido sair
da boca dos personagens, contou com o trabalho especializado de Anthony Bur-
gess1, que assinou o roteiro e – a partir de um detalhadíssimo estudo das línguas
antigas – escreveu as “falas” dos personagens (na verdade, gritos, gemidos, gru-
nhidos, rudimentos de palavras articuladas).

Por meio de imagens muito impressionantes, Annaud retrata as venturas e


as desventuras de dois grupos pré-históricos que teriam vivido há 80 mil anos e
mostra os efeitos que um encontro entre eles gerou. Para falar desses efeitos, é
importante marcar que um dos grupos estava bem mais próximo dos primatas
e o segundo já era um pouco mais evoluído: já dominava a tecnologia de fazer o
fogo e havia construído alguns elementos culturais, como habitações fixas.

O drama narrado no filme é iniciado pelo apagamento acidental do fogo da


tribo menos evoluída, que não têm a mínima ideia do que fazer para acendê-lo
novamente. Como todo mundo naquela época gelada dependia do fogo para
proteção e aquecimento, eles passaram a correr seríssimo perigo de vida e, por
conseguinte, decidiram enviar três membros da tribo numa perigosa aventura
para procurar uma nova chama.

Que lição podemos tirar Evidentemente, os três heróis passaram pelos


dessa história de ficção? mais variados problemas em seu caminho e, neste
ponto, chegamos à parte que mais nos interessa.
Annaud é muito cuidadoso para mostrar que, como os primitivos foram força-
dos a encontrar soluções muito rapidamente para não morrerem, acabaram por

1
Anthony Burgess (1916-1993), foneticista e escritor britânico, célebre por seu romance A Laranja Mecânica (1962), levado ao cinema por Stanley
Kubrick em 1971. Burgess também escreveu O Homem de Nazaré (1979) e Poderes Terrenos (1980).

68
A perspectiva histórica do desenvolvimento do pensamento humano

desenvolver uma habilidade reflexiva que sequer podiam imaginar que tinham.
Na visão do filme, a cada novo esforço conjunto para superar um obstáculo, eles
acabam ganhando ao menos um rudimento de linguagem e de pensamento.

Esse processo torna-se ainda mais acentuado quando os “três mosqueteiros”


encontram a tribo mais evoluída e, evidentemente, muito se surpreendem com
seu modo de organização cultural. Para eles, é particularmente surpreendente o
fato de saberem acender o fogo, possibilidade sequer entrevista anteriormente.
Ou seja: por meio dos contatos com os mais evoluídos, sofrem grande influência
e desenvolvem um germe de ideia.

Embora possamos desconfiar que, por se tratar de um filme, as coisas não


se passaram bem assim, podemos tirar desse trabalho uma importante lição: a
gênese do pensamento na espécie humana não ocorreu quando um primeiro
homem se trancou solitariamente em sua caverna e colocou do lado de fora uma
placa com o aviso “gênio pensando”! Apesar de muito divertida, essa hipótese
é completamente inverossímil, pois, como já sabemos, a gênese do pensamento
humano ocorreu em situação de franco conflito entre homem-animal-natureza e,
em especial, entre os diferentes modos de fazer dos membros dos grupos huma-
noides. Ao encontrar quem “fizesse diferente”, o menos evoluído “descobriu”, como
diria Shakespeare, que talvez houvesse mais coisas entre o céu e terra do que so-
nhava sua vã filosofia...

Assim, teve vontade de que sua grama fosse tão verde como a de seu vizinho,
para continuar nossa linha de metáforas... Hipótese curiosa esta: o pensamen-
to adveio da inveja saudável dos seus semelhantes! Curiosa, sem dúvida, mas
será tão inverossímil assim? Não sabemos. Mas sabemos que, ao descobrir usos
cada vez mais sofisticados para os instrumentos, os homens logo trataram de
compartilhá-los com seus semelhantes e preservá-los para seus descendentes.
Pronto: estava fundada a família e a vida em sociedade.

Introduzindo o pensamento de Vygotsky


Não foram apenas os cineastas os interessados em refletir sobre os modos
pelos quais o advento do pensamento ocorreu na humanidade. Essa questão
interessou profundamente toda uma linhagem de pesquisadores, em especial o
russo Lev Semenovich Vygotsky.

69
Linguagem e Pensamento

Você sabe quem foi Lev Semenovich Vygotsky? Ex-estudante da Universida-


de de Moscou, esse brilhante pesquisador viveu apenas 38 anos. Nasceu, traba-
lhou e morreu na passagem do século XIX para o XX (1896-1934), tendo enfren-
tado as restrições que o isolamento de um sistema político fechado coloca para
todo aquele que tem vocação para a vida intelectual. Especificamente, referi-
mo-nos às dificuldades de circulação de ideias que, naquele contexto, fazia com
que tanto fosse difícil expor sua produção para além de Moscou quanto tomar
contato com trabalhos de colegas de outros países. Apesar da vida curta e do
isolamento, Vygotsky teve tempo suficiente para formalizar algumas ideias que,
embora passíveis de alguma crítica, causaram profundas impressões entre os
educadores e demais interessados na formação do ser humano.

Por causa de sua pertinência e clareza, optaremos, aqui, por iniciar esta intro-
dução à obra de Vygotsky utilizando-nos de um parágrafo escrito pelo professor
James V. Wertsch para apresentar um de seus livros.
A perspectiva teórica delineada por Lev Semenovich Vygosky pode ser compreendida em
termos de três temas gerais que estão presentes em todas as suas obras: a) o uso de um
método genético, ou de desenvolvimento; b) a afirmação de que o funcionamento mental
superior no indivíduo provém de processos sociais; e c) a afirmação de que os processos sociais
e psicológicos humanos são moldados fundamentalmente por ferramentas sociais, ou formas
de mediação. (WERTSCH apud VYGOTSKY; LURIA, 1996, p. 9)

Perseguindo os temas citados acima ao longo do seu trabalho, o psicólogo


russo tentou superar a crise que grassava no campo da psicologia praticada
em sua época, apresentando uma proposta teórica inovadora: a ideia segundo
a qual a consciência humana é determinada historicamente. Dizendo de outro
modo, segundo Jerome S. Bruner – que assina a introdução do livro Pensamento
e Linguagem (VYGOTSKY, 1998) –, um dos principais avanços do psicólogo russo
foi o conceito de atividade mediada, ou seja, compreender que as ferramentas
sociais moldam nossos modos de lidar com o mundo.

Ao fazer essa afirmação, Vygostky se opôs às concepções clássicas das an-


tigas escolas de psicologia que ainda não haviam percebido a conexão entre
pensamento e linguagem como sendo originária do desenvolvimento humano
e, inovando ao longo de seu trabalho, procurou construir uma teoria geral das
raízes genéticas dessa conexão. Por esse motivo, para Oliveira (1992), por sua
vez, referir-se a Vygotsky é algo análogo a referir-se à dimensão social do desen-
volvimento humano, uma vez que um dos pressupostos básicos do autor é o de
que o “ser humano constitui-se enquanto tal na sua relação com o outro social”
(OLIVEIRA, 1992, p. 24). Nessa visão, a cultura torna-se parte da natureza humana
em um processo histórico.
70
A perspectiva histórica do desenvolvimento do pensamento humano

Deixemos, neste momento, o próprio psicólogo russo nos apresentar qual


conclusão, alcançada por ele após a realização de suas pesquisas, ele julga ser a
mais importante.
O fato mais importante revelado pelo estudo genético do pensamento e da fala é que a relação
entre ambos passa por várias mudanças. O progresso da fala não é paralelo ao progresso do
pensamento. As curvas de crescimento de ambos cruzam-se muitas vezes, podem atingir o
mesmo ponto e correr lado a lado, e até mesmo fundir-se por algum tempo, mas acabam se
separando novamente. (VYGOTSKY, 1998, p. 41)

Ainda voltaremos a tirar maiores consequên- Você já percebeu que a


cias do parágrafo acima, mas agora cumpre res- gente não consegue falar
saltar que, por meio dele, o autor nos dá uma im- sobre tudo que sabe?
portante pista para refletir sobre a nossa prática
de sala de aula: pressupor que o aluno vai ser capaz de falar sobre um determinado
assunto tão logo o tenha aprendido é, no mínimo, falacioso, uma vez que tanto po-
demos falar muito sobre algo de que não entendemos nada (talvez até em uma ten-
tativa de entender), como podemos precisar do silêncio por algum tempo mesmo
depois de a explicação estar bastante clara.

Portanto, senhores professores, ao pedir que o aluno reproduza uma explica-


ção que você acabou de dar, lembre: muita calma nessa hora!

A perspectiva histórico-cultural
do desenvolvimento humano
Para entender as relações entre a história e a cultura no desenvolvimento
humano, vamos recorrer a um outro exemplo, o trabalho de um dos maiores his-
toriadores contemporâneos: Carlo Ginzburg. Em especial, interessa-nos seu tra-
balho que reconstituiu, a partir de um exame minucioso de documentos da Igreja
Católica, os modos de pensar dos praticantes de um culto da fertilidade que vive-
ram entre o final do século XVI e a primeira metade do século XVII, na Itália.

Para nós, o mais importante do trabalho de Ginzburg é que, por meio do


exame rigoroso de fatos da história (e não mais da ficção, como no caso do filme
que estudamos), o italiano nos mostra que, na história da humanidade, os modos
de pensar estiveram sempre em fricção, ou dizendo de outro modo, eram fruto
de pertencer a um determinado grupo histórico-social.

Sem compreender muita coisa das crenças bizarras dos camponeses (que sim-
plesmente buscavam, com meios “mágicos” – muito parecidos com as simpatias

71
Linguagem e Pensamento

Você já parou para pensar que ainda hoje persistem entre nós – fazer com
por que os padres da Idade que suas colheitas fossem bem sucedidas), a Igreja
Média localizavam tantas da época tomou-os como sendo participantes
bruxas no mundo? de um culto demoníaco, coisa que estavam bem
longe de ser. Por meio da tortura, essa mesma
Igreja buscou fazer com que confessassem seu “pacto com o diabo”, confissão essa
que os pobres coitados faziam sem sequer entender as consequências.

O exame dos documentos, na maioria transcrição dos depoimentos dos


pobres camponeses torturados, mostrou que os inquisidores se viam constante-
mente em maus lençóis, pois, embora neles aparecessem palavras como inferno
e diabo, não apareciam do modo como era esperado pelos torturadores.

Para maior clareza, tomemos aqui, dentre os muitos depoimentos analisados


pelo pesquisador, um exemplo qualquer no qual dá para ver uma grande “con-
fusão” em andamento:
O acusado, Thiess, um velho com mais de 80 anos, confessa abertamente aos juízes que o
interrogam ser um lobisomem. [...] O velho diz que o seu nariz fora quebrado, no passado, por
um camponês de Lemburg, Skeistan, morto já há bastante tempo. Skeistan era um feiticeiro;
juntamente com os seus companheiros, tinha levado as sementes de trigo ao inferno para
que as messes não crescessem. Acompanhado por outros lobisomens, Thiess fora ao inferno e
lutara contra Skeistan. Este, armado de um cabo de vassoura (o atributo tradicional das bruxas)
enrolado num rabo de cavalo, havia golpeado o nariz do velho naquela ocasião. Não se tratava
de um confronto ocasional. Três vezes por ano, nas noites de Santa Lúcia, antes do Natal, de
Pentecostes e de São João, os lobisomens vão a pé, como uma alcateia, até um lugar situado
“onde termina o mar”: o inferno. (GINSBURG, 1988, p. 50)

Você já imaginou em que embrulhada ficaram os pobres que escutaram esse


depoimento? “Thiess confessa ser um lobisomem, logo ele é do mal”, pensam
os inquisidores, porém sua conclusão não pode se manter intacta por muito
tempo, pois, se ele confessa que vai ao inferno, justifica que o faz para combater
o feiticeiro do mal que estava prejudicando as colheitas (Skeistan) – logo, ele é
um tipo de “herói do bem”.

Todo mundo que conhece a história da Idade Média sabe que, na prática,
esse conflito terminou muito mal. Incapazes de compreender uma lógica outra,
que, por ser tão diferente, escapava-lhes completamente, os inquisidores não
duvidavam: fogueira para eles! Por sua vez, incapazes de entender a lógica dos
inquisidores, esses pobres camponeses (em especial as mulheres, mais frequen-
temente acusadas de serem bruxas) eram completamente incapazes de defesa
própria, pois não conheciam o que poderia ser utilizado como um argumento
plausível do raciocínio do outro grupo. Tudo o que diziam, para se defender, era
logo transformado em mais um argumento de acusação.

72
A perspectiva histórica do desenvolvimento do pensamento humano

O que foi que eles aprenderam, então? Aprenderam que, para se manterem
vivos, havia um “discurso certo” a fazer, que poderia ser proferido aberta e publi-
camente, e algumas práticas nas quais acreditavam para esconder, para serem
feitas na calada da noite e negadas a todo e qualquer preço. O que começou a
ser praticado de forma “inocente” passou então a ser feito de forma “maliciosa” e
“pecaminosa”, pois, devido ao contato com os inquisidores, os camponeses agre-
garam às suas práticas uma carga “maléfica” que anteriormente não estava lá.

Pensando mais detidamente sobre os dois exemplos contidos neste capítulo e


concluindo nossa reflexão, podemos compreender melhor a tese de Vygotsky se-
gundo a qual o ser humano constitui-se na sua relação com o outro social. É a so-
ciedade que lhe ensina o que pode e deve ser dito e, nas últimas consequências,
dita-lhe os modos de pensar. Nessa visão, então, a cultura não é algo separado do
humano, mas uma instância que, a partir de um processo histórico, torna-se parte
da natureza humana.

Texto complementar

Erótica e hermenêutica, ou a arte


de amar o corpo das palavras1
(LARROSA2, 2000)

Nietzsche sabia que ensinar a falar, a escrever e a ler é ensinar a falar, a


escrever e a ler como está ordenado, quer dizer, a experimentar a realidade,
a do mundo e a de si próprio, como está ordenado ou, o que é o mesmo,
a portar-se como está ordenado. Para perverter a ordem e o conformismo,
para aprender a falar, a escrever e a ler de outro modo, para interpretar o
mundo e a nós mesmos de outro modo, para ser de outro modo, Nietzsche
nos convidava a sermos filólogos rigorosos. É com o nome de Nietzsche que
eu também apelo aqui, leitor amigo, para a tua cumplicidade de filólogo [...]
no amor às palavras. [...]

Nietzsche nos convidava para sermos amante-amigo-apaixonados das pala-


vras com uma forma de amizade e de amor que não passe pelo conhecimento,

1
Fragmento da tradução realizada por Claudia Rosa Riolfi para o texto “Erótica y hermenéutica, o el arte de amar el cuerpo de las palabras”.
2
Docente da Universidade de Barcelona, Espanha.

73
Linguagem e Pensamento

nem pelo uso, nem pela vontade de apropriação. Também, talvez essencial-
mente, Nietzsche nos convidava para sermos amante-amigo-apaixonado do
corpo das palavras. [...] O corpo das palavras opera como simples portador de
seu sentido, como representante ou vicário, ou lugar-tenente de seu sentido,
como o lugar que tem e contém o sentido. Desse ponto de vista, a compreen-
são consiste em obter esse sentido arrancando-o do corpo e abandonando
depois o cadáver como letra morta, inanimada. Uma palavra sem sentido é só
um corpo, uma palavra que não expressa nada, que não diz nada. [...]

Se as palavras não são outra coisa além do lugar da materialização, da


encarnação ou da transmissão de algo que é, por sua essência incorpórea,
colocar o acento na compreensão ou na interpretação é conceber a rela-
ção com as palavras como acesso ao espírito que está encarnado na letra
ou como apropriação do sentido que está materializado e transportado no
signo. Compreender é aceder à profundidade espiritual e invisível encarnada
na linguagem ultrapassando nela a superfície material de sua corporeidade
visível. Para a hermenêutica tradicional e, especialmente, para os modelos
de interpretação simbólica, o objeto da compreensão é o espírito do texto:
por isso a interpretação apenas pode realizar-se por meio da marginalização
de sua dimensão corporal. Mas, como poderia ser possível amar sem corpo?

[...]

Escutemos a confissão de um amante-apaixonado do corpo das palavras,


de um homem (ou de um nome) que, na esteira de Nietzsche, está nos en-
sinando a ler e a escrever de outro modo e que, como Garcia Calvo, está nos
convidando para amar aquilo que nas palavras pode funcionar para destecer
o funcionamento servil do sentido, sua relação constitutiva com a ordem e
com a esperança:
É verdade que só as palavras me interessam... amo as palavras... Para mim, a palavra
incorpora o desejo e o corpo... eu só gosto das palavras.... O que eu faço com as palavras é
fazê-las explodir para que o não-verbal não apareça no verbal. Quer dizer, faço funcionar
as palavras de tal maneira que, em um dado momento, deixam de pertencer ao discurso...
E, se amo as palavras, é também por sua capacidade de escapar de sua própria forma, ou
ainda, por interessar-me como coisas visíveis, como letras representando a visibilidade
espacial da palavra ou como algo musical ou audível. Quer dizer, também me interessam
as palavras, ainda que paradoxalmente, pelo que tem de não discursivas, naquilo que
podem ser usadas para explodir o discurso... na maioria de meus textos existe um ponto
no qual a palavra funciona de maneira não-discursiva. De repente, desorganiza a ordem
e as regras, mas, não graças a mim. Presto atenção ao poder que as palavras, e às vezes,
as possibilidades sintáticas também, têm para transformar o uso normal do discurso, o
léxico e a sintaxe.... me explico a mim mesmo através do corpo das palavras – e creio que
apenas se pode falar verdadeiramente do “corpo da palavra” levando em conta as reservas

74
A perspectiva histórica do desenvolvimento do pensamento humano

oriundas do fato de que falamos de um corpo que não está presente em si mesmo – e é
o corpo de uma palavra o que me interessa no sentido de que não pertence ao discurso.
Assim que estou realmente apaixonado pelas palavras, as trato sempre como corpos que
contêm sua própria perversidade – sua própria desordem regulada. Enquanto isto ocorre,
a linguagem se abre às artes não-verbais... Quando as palavras começam a enlouquecer
desta maneira e deixam de comportar-se com respeito ao discurso é quando têm mais
relação com as demais artes.3

[...]

Amar o corpo das palavras não é, então, nem conhecê-las nem usá-las,
mas senti-las: senti-las no que têm de perverso, em seu poder para subver-
ter a normalidade própria do discursivo, e senti-las também no que têm de
inapreensíveis, de incompreensíveis, de ilegíveis, de ininteligíveis. Assim, o
corpo das palavras, como o corpo da amante, se nos oferece plenamente e
sem reservas e, ao mesmo tempo, retira-se de nós escapando de qualquer
apropriação, de qualquer captura apropriadora. O que o corpo das palavras
revela é, justamente, a alteridade constitutiva da linguagem, sua distância e
sua ausência de respeito para consigo própria. Por isso, no corpo das pala-
vras, o que amamos é, precisamente, aquilo de que nós não podemos nos
apropriar, aquilo que nós nunca poderemos tornar nosso, aquilo que, inevi-
tavelmente, escorre e se extravia de nós.

O corpo das palavras é a revelação do que nelas não pertence ao discurso,


a irrupção da não-linguagem no âmago da linguagem. Mas de uma não-
-linguagem que subverte a linguagem, de um não-discurso que, contudo,
é capaz de fazer explodir o discurso, de desestabilizá-lo, de subverter sua
normalidade e de transtornar suas regras. O corpo das palavras é sua insigni-
ficância, porém não uma insignificância neutra, mas uma insignificância que
faz a significação enlouquecer. O corpo das palavras não fica absorvido na
significação, não fica dissolvido na pura função da representação, mas tam-
pouco se mantém exterior a ela. Não há nem correspondência, nem harmo-
nia, nem integração entre a letra e o espírito, mas tampouco há ausência de
relação, pura exterioridade. [...] Por isso, amar o corpo das palavras é fazê-las
explodir, fazê-las funcionar pervertendo ou enlouquecendo qualquer ten-
tativa de mediação encaminhada para a fabricação de sentido. O corpo das
palavras é o lugar do desfalecimento da compreensão, o lugar do colapso do
sentido, a ameaça permanente da interrupção da positividade ordenada de
nossos discursos produtores de sentido.

3
BRUNETTE, Peter; WILLS, David. Las artes espaciales. Una entrevista con Jacques Derrida. Disponível em: <http ://aleph-arts.org/accpar/
numero1/derrida1/htm>.

75
Linguagem e Pensamento

Como se o corpo das palavras fosse lugar de sua liberdade, dado que revela
que as palavras são sempre outra coisa além de servidoras do desejo de sentido
que determina o bom funcionamento da ordem do discursivo. Amar o corpo
das palavras, portanto, significa nem iludir nem recalcar, mas sim assumir e pre-
servar o perigo de não haver sentido, porque o corpo das palavras é o que, em
todo discurso, pode abrir-se à perda do sentido, ao não-sentido.

Atividades
1. Levando-se em conta os estudos de Vygotsky, por que motivo não é correto
pensar que quem fala mal pensa mal?

2. Por que motivo não é correto pensar que quem fala sempre transmite seus
pensamentos?

3. Levando-se em conta os estudos de Vygotsky, por que motivo a convivência


com os pares um pouco mais experientes é fundamental para haver apren-
dizado?

76
A perspectiva histórica do desenvolvimento do pensamento humano

Dicas de estudo
CHARAUDEAU, Patrick; MAINGUENEAU, Dominique. Dicionário de Análise do
Discurso. São Paulo: Contexto, 2004.

Com escolha criteriosa de verbetes e apresentação cuidadosa das diversas


acepções nas quais pode ser tomado, esse dicionário constitui-se em um instru-
mento de trabalho imprescindível para todos aqueles que desejam vir a cons-
truir um trabalho com as produções verbais de uma perspectiva da análise do
discurso, área que, afastando-se de uma concepção de linguagem como expres-
são do pensamento, ajuda-nos a decifrar o não-dito presente nos enunciados e
nos silêncios de um dado sujeito.

CHIERCHIA, Gennaro. Semântica. Campinas: Editora da Unicamp; Londrina:


Eduel, 2003.

Esse grande livro, de 683 páginas, é um atual e completo panorama de um dos


ramos da linguística que mais se relaciona com a especificidade do ser humano: a
semântica, área de estudo que pretende responder ao que faz com que as palavras
e as sentenças signifiquem. Sem perda de qualidade ou de conteúdo, Chierchia
aborda a matéria de modo informal e simples, recorrendo, além disso, a outros
expedientes para nos ajudar a adentrar nessa área tão complexa: exercícios, exem-
plos, indicações bibliográficas para leituras suplementares, entre outros.

77
Significado da palavra: lugar de junção
do pensamento e da linguagem
Para introduzir este capítulo, que tem como tema específico os modos
de enganchamento entre pensamento e linguagem, vamos propor a você
um exercício pequeno, mas nada simples. Ele vai exigir muita imagina-
ção e capacidade de desprendimento, pois seu objetivo é levá-lo para
um tempo anterior ao advento de seu pensamento e de sua inscrição na
linguagem. Tempo de susto e de perplexidade, quando todas as palavras
estavam do lado do outro.

No início, era o corpo...


Trata-se do seguinte: transporte-se agora para os minutos que prece-
deram seu nascimento. Provavelmente, sua mãe está nervosa. Por esse
motivo, buscou ajuda profissional para ajudá-la a cumprir essa missão que
todas as outras mamíferas fazem sozinhas: dar à luz um bebê. Acompa-
nhe-a durante o trabalho de parto, tentando projetar como esse processo
se deu para você. Vamos lá?

Até há pouco tempo, era você quem deci- Como o cérebro do


dia como e quando mexia seu corpo. Virava, bebê reagiu a tanta
torcia, encaixava-se. De repente, não mais excitação?
que de repente, está sofrendo fortes empurrões para todos os lados e sente
que, inevitavelmente, querendo ou não, vai escorregar. Lá vai você rumo ao
desconhecido. Agora, seu corpo deixou o meio líquido e o ar faz fricção em
sua pele. Como está frio! Os ruídos tornaram-se muito altos e invadem seus
ouvidos. Há luz. Alguém lhe pendurou e começou a esfregar um pano no
seu corpo. Aposto que você está com medo.

Com sorte, alguém mais apostou nessa hipótese e lhe colocou sobre um
ventre macio – do lado de fora, evidentemente. Há um cheiro lá. Seu instinto
falou mais forte e você achou um mamilo que, curiosamente, encaixava-se
perfeitamente em sua boca. Sua língua se mexeu e você sugou e, então, eis
que, pela primeira vez, o gosto do leite inundou o céu de sua boca. Como é
bom, Santo Deus, até que valeu a pena todo aquele empurra-empurra.
Linguagem e Pensamento

Se você conseguiu fazer o exercício proposto, pôde perceber que, ainda na pri-
meira hora de vida de uma criança nascida em condições normais, os órgãos dos
sentidos entram em ação: audição, visão, olfato, tato e paladar são convocados e, de
algum modo, começam a ligar o bebê ao mundo, dando-lhe motivos para viver.

No início, portanto, há o predomínio da pura percepção, seguida da sensação


que essa percepção provoca no corpo. O mundo é mudo, não nos diz seu nome.
O bebê passou por uma experiência riquíssima, mas nem sabe quem é e nem
conseguiria explicar o que de fato viveu. Ele se reduz a seu corpo e às sensações
agradáveis ou desagradáveis que este possa lhe proporcionar. A palavra existe,
mas, como ele ainda não transita por ela, está sujeito a um funcionamento muito
parecido aos demais mamíferos, a alternância entre prazer e desprazer.

É interessante notar que, em 1895, ao descrever a experiência de satisfação


do bebê humano no texto “Projeto para uma psicologia científica”, o psicanalista
austríaco Sigmund Freud aproximava-se muito da perspectiva aqui descrita. A
título de curiosidade, leia agora um fragmento desse trabalho que fala sobre o
que acontece quando o bebê precisa lidar com sua sensação de fome.

Uma intervenção dessa ordem requer a alteração no mundo externo [...],


que, como ação específica, só pode ser promovida de determinadas manei-
ras. O organismo humano é, a princípio, incapaz de promover essa ação es-
pecífica. Ela se efetua por ajuda alheia, quando a atenção de uma pessoa
experiente é voltada para um estado infantil por descarga através da via de
alteração interna. Essa via de descarga adquire, assim, a importantíssima
função secundária da comunicação, e o desamparo inicial dos seres huma-
nos é a fonte primordial de todos os motivos morais. [...] Quando a pessoa
que ajuda executa o trabalho da ação específica no mundo externo para o
desamparado, este último fica em posição, por meio de dispositivos reflexos,
de executar imediatamente no interior de seu corpo a atividade necessária
para remover o estímulo endógeno. A totalidade do evento constitui então
a experiência de satisfação, que tem as consequências mais radicais no de-
senvolvimento das funções do indivíduo. Isso porque três coisas ocorrem no
sistema: (1) efetua-se uma descarga permanente e, assim, elimina-se a ur-
gência que causou desprazer em; (2) produz-se no pallium a catexização de
um (ou de vários) neurônio(s) que corresponde(m) à percepção do objeto;
e (3) em outros pontos do pallium chegam as informações sobre a descarga
do movimento reflexo liberado que se segue à ação específica. Estabelece-se
então uma facilitação entre as catexias e os neurônios nucleares.

80
Significado da palavra: lugar de junção do pensamento e da linguagem

Você já se deu conta de quanto tempo demora para que a educação (familiar
ou institucional) tire o bebê desse funcionamento mínimo e o faça interagir com
o mundo de maneira refletida? No melhor dos casos, não menos de um ano, pois
é apenas quando pode dispor de rudimentos de palavras que o humano começa
a organizar um pensamento elaborado que o difere daquilo que um chimpanzé,
animal bastante inteligente, também consegue construir.

Ou seja, estamos aqui afirmando mais uma vez que a linguagem tem uma
função primordial na organização de nossas complexas formas de pensar e,
dada a reiteração dessa tese principal, é chegada a hora de, com Vygotsky, inter-
rogarmos mais aprofundadamente as relações entre pensamento e linguagem.

O conceito de pensamento verbal em Vygotsky


Se você tem mais de 15 anos, com certeza absoluta já ouviu a seguinte inter-
rogação: “Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?” Também deve saber que
nos lembramos de reproduzir essa frase toda vez que nos parece muito difícil
determinar onde alguma coisa começou, não é mesmo?

Quando nos interrogamos sobre as relações entre pensamento e linguagem,


logo aparecem acaloradas discussões de igual teor: para alguns, o pensamen-
to aparece primeiro e nos dá condições de aprender as palavras, e para outros
ocorre o contrário. Vygotsky encontra-se dentre os partidários do último grupo.
De fato, pode-se afirmar que, para o autor, a palavra é o material do pensamento
ou, melhor dizendo, ela é o meio pelo qual o pensamento se estrutura. Para ele,
“o pensamento não é simplesmente expresso em palavras; é por meio delas que
ele passa a existir” (VYGOTSKY, 1998, p. 156-157).

Nesse momento, é importante ressaltar dois aspectos cruciais na teoria do


significado da palavra adotada por Vygotsky.

 O autor não comete o mesmo erro comum entre os não-especialistas


em linguagem, que é o de pensar que uma palavra refere-se a um obje-
to isolado do mundo. Afastando-se desse ponto de vista inadequado, ele
concebe cada palavra como uma generalização que consiste em “um ato
verbal do pensamento e reflete a realidade de modo bem diverso daquele
da sensação e da percepção” (VYGOTSKY, 1998, p. 6).

 Embora foque na análise dos significados das palavras, o autor não ignora
que elas só funcionam na presença de um sistema de signos que lhes dá

81
Linguagem e Pensamento

consistência. Somente dentro do sistema, utilizando os termos do autor,


pode haver entendimento entre as mentes por meio da linguagem como
expressão mediadora.

Como a palavra poderia É importante ressaltar que o psicólogo


dar origem ao pensamento? russo não explica o papel de ligação entre pen-
samento e linguagem exercido pela palavra
considerando sua materialidade sonora (significante). Muito pelo contrário. Para
Vygostsky, a parte da palavra que interessa é o significado.

Vejamos, nas palavras do próprio autor, essa centralidade do significado: “Uma


palavra sem significado é um som vazio; o significado, portanto, é um critério da
‘palavra’, seu componente indispensável. [...] do ponto de vista da psicologia, o
significado de cada palavra é uma generalização ou um conceito.” (VYGOTSKY,
1998, p. 151). Lendo essa citação, podemos concluir, portanto, que, para o autor,
são os significados que associam o pensamento à representação da realidade
feita pelos sujeitos.

Não temos contato direto com o mundo, mas incidimos parcialmente sobre
ele na forma de nossos juízos (Ex.: “Que mulher feia!”), de nossos conceitos (Ex.:
“Uma mulher feia é aquela em que as partes do corpo não combinam entre si”),
ou de nossas deduções (Ex.: “Fulana, que dá muita importância à aparência física,
está muito reticente sobre a nova namorada do filho: ela deve ser feia”).

É importante notar que, embora os três exemplos do parágrafo preceden-


te sejam perfeitamente compreensíveis para todos nós, eles não nos fornecem
qualquer descrição mais concreta de como seria uma mulher considerada feia
pelo seu locutor. Inclusive, pode ser que, ao nos encontrarmos com a pessoa, a
julguemos bastante apresentável.

O que isso significa? Que ninguém tem acesso direto aos objetos que são
alvo do pensamento do outro. No máximo, temos acesso às palavras escolhidas
por ele para descrevê-los para nós. Dada essa compreensão, é importante notar
que, para construir sua teoria sobre as relações entre pensamento e linguagem,
Vygotsky (1998) afastou-se de duas tradições de pesquisa que circulavam em
sua época, quais sejam:

 a identificação – perspectiva que consiste na fusão entre o pensamento e a


fala, isto é, na compreensão de que se tratava de fenômenos indissociáveis; e

82
Significado da palavra: lugar de junção do pensamento e da linguagem

 a disjunção – perspectiva que consiste na segregação entre o pensamento


e a fala, isto é, na compreensão de que são fenômenos que nada têm em
comum.

Ao fazê-lo, construiu uma terceira vertente aproximativa, a intersecção (termo


a ser entendido do modo como é feito na teoria dos conjuntos, ou seja, referin-
do-se àquele subgrupo de elementos que é comum a dois conjuntos maiores).
Observe a figura 1, para uma melhor visualização da teoria de Vygotsky sobre a
relação entre pensamento e linguagem.

Significado
Linguagem Pensamento
da palavra

Figura 1 – O pensamento verbal como locus da união entre pensamento e linguagem.

Observando a figura 1 mais atentamente, o leitor notará que, para o psicó-


logo russo, no cérebro humano, pensamento e linguagem estão ligados numa
zona que consiste no pensamento já recortado e formatado por meio da pala-
vra. Vygotsky chama essa entidade híbrida de pensamento verbal.

A dupla função organizadora da palavra


Para Vygotsky, a palavra tem importantes funções de organização interna e ex-
terna do ser humano. Ao recortar uma massa indistinguível de pensamento em
pensamento verbal, permite que um sujeito compreenda as coisas que vê e vive e,
também, que possa partilhar essa compreensão com seus pares e descendentes.
Confira a figura 2, para uma primeira tomada de conhecimento dessa dupla função.

83
Linguagem e Pensamento

IESDE Brasil S. A.
Ser uma unidade interna do Ser uma unidade do intercâmbio social.
pensamento generalizante.

Figura 2 – A dupla face da palavra.

De acordo com a figura 2, podemos pensar que, funcionando tanto em uma


vertente interna quanto em uma externa, o significado da palavra dá aos homens
uma coerência em sua reflexão e mantém aos olhos de seus pares uma consis-
tência de seu lugar no mundo. Retomando um pouco mais esquematicamente:

 Função interna da palavra – organizar o pensamento do homem, por meio


de operações como, por exemplo, a classificação e a seriação.

 Função externa da palavra – permitir aos homens que possam a) compar-


tilhar as conclusões a que chegaram a partir da organização prévia de suas
idéias; b) inserir-se nas relações sócio-históricas por meio de um lento pro-
cesso de apropriação dos conceitos; c) transmitir esses conceitos aos des-
cendentes de uma cultura.

Em suma: nessa visada, a palavra tem uma importante função no desenvolvi-


mento intelectual do humano. Não se pode esquecer que, em grande parte, esse
processo se deve ao fato de que as palavras evoluem, não são estáticas. Isso é
verdade tanto se considerarmos a história da humanidade quanto se isolarmos
a história de uma criança em particular.

Para ilustrar a riqueza em que consiste o acompanhamento da evolução dos


modos de pensar sobre o mundo e expressar os pensamentos de uma criança,

84
Significado da palavra: lugar de junção do pensamento e da linguagem

trago aqui um testemunho escrito por um pai de uma menina brasileira que, na
ocasião em que os fatos relatados ocorreram, estava com 18 meses.1

Observe que o narrador, que na ocasião estava fazendo parte de seu doutora-
do em linguística em Paris, mostra-se encantado com as inegáveis mostras de refi-
namento conceitual de sua pequena filha e, por esse motivo, gasta algum espaço
de uma longa carta escrita para seu orientador no Brasil visando partilhar a experi-
ência que vivia naquele momento narrando uma parte de sua vida familiar.

Não se trata, entretanto, de uma narrativa vã. Se o leitor prestar bastante


atenção, vai perceber que, para além do pai, lá está o linguista. Ele não se limita
a narrar acontecimentos, mas o faz estabelecendo as relações existentes entre a
ampliação vocabular e a compreensão de mundo testemunhado por sua garoti-
nha. Acompanhemos sua saborosa narrativa.

Quem produz conhecimento a todo vapor é mademoiselle Lorrá (Laura


para os poucos íntimos que ela tem por aqui). Na área de zoologia, é difícil
acompanhá-la. Primeiro, ela descobriu o cachorro e o chamou de vau. Depois,
resolveu incluir toda a fauna nessa categoria. Com um pouco mais de obser-
vação e de reflexão, ela criou a categoria pato, na qual incluiu todas as aves
e as tartarugas. Passou um pouco mais e ela dividiu ainda mais a fauna, in-
ventando a categoria pexe, que logo foi aperfeiçoada para peixo, e as tartaru-
gas, jacarés e cobras foram reclassificadas, ficando neste último grupo. Veio
então o tempo de redefinir o grupo vau: ganharam autonomia dois grupos, o
mó (englobando geralmente os vaus que têm chifres) e o cavao (os vaus que
pareçam meio grandes). Como grupo isolado, figuram em sua classificação
o popote (hipopótamo) e o giiafa. Aproveitando essa fase produtiva, ontem
fomos com ela ao Zoológico. Penso que a partir de agora sua análise vai ficar
ainda mais refinada. Para mim, ela resolveu de uma vez por todas o proble-
ma de classificação das focas: quando está nadando é peixo, quando põe a
cabeça fora d’água é vau.

Laura adora museus. Quando a gente entra, ela já sabe onde está e vibra.
Ela já desenvolveu até um balanço de corpo específico para fazer quem es-
tiver com ela no colo ir para o quadro seguinte. Depois, ela faz voltar várias
vezes naquele que ela mais gostou. A cada vez, ela vai descobrindo coisas
menores nos quadros. Nas igrejas, é a mesma coisa. Em geral, ela vê primeiro
os bida (umbigo), os nalijo (nariz) e os pé dos anjos!

1
Agradeço a Valdir Heitor Barzotto a gentileza de autorizar a divulgação deste encantador parágrafo de uma carta escrita por ele para João Wan-
derley Geraldi, em 20 de janeiro de 1997.

85
Linguagem e Pensamento

Sua língua é, sem dúvida, o português. No começo, ela ria quando a gente
falava francês com ela, achava que era brincadeira. Agora, ela já sabe que muita
gente fala francês e até fala alguma coisa como boju (bon jour), ovoá (au revoir),
maintnant, vavá (ça va?), tô (manteau). E canta uma musiquinha que tem um
longínquo parentesco com a nossa A barquinha virou, é: batô, batô, batô.

Morando na França, descobrindo o mundo em duas línguas, a menininha fala


como pode, sempre meio estranho, mas, segundo seu pai, sempre de modo mais
pertinente. Ao fazê-lo, ela se inscreve no mundo e, dando testemunho dessa deli-
cada operação, contamina os adultos que a cercam com a agudeza de seu olhar.

Ainda bastante necessitada de usar a mímica e os movimentos de corpo, ela


já está em uma situação que é bastante diferente daquela do bebê pequeno
com a qual iniciamos esta investigação. Suas percepções e sensações já não são
mais corpóreas: estão sujeitas aos dispositivos culturais e, na forma de suas pala-
vras, neles deixam sua marca.

Se no início da aventura do homem


O que podemos concluir dessa
sobre a Terra há o predomínio da pura
leitura de parte do percurso de
percepção, seguida da sensação que essa
construção do pensamento de uma
percepção provoca no corpo e, como não
criança?
estamos sozinhos sobre a face da Terra,
nossos semelhantes logo passam a dizer os nomes das “coisas do mundo”, às quais
nos apresentam. A palavra tem uma importante função no desenvolvimento inte-
lectual do humano. Essa operação não é vã: ela nos leva a construir categorias cada
vez mais elaboradas para conduzir nossa reflexão. Esse é um outro modo de dizer
que somos seres de linguagem.

Texto complementar

Dialogismo:
a linguagem verbal como exercício do social
(LUKIANCHUKI, 2005)

O pensamento de Bakhtin revelado em suas obras, apesar de plural, tem


uma unidade garantida pela centralidade da linguagem, cujo método de aná-
lise é a dialética. Dialogismo é o conceito que permeia toda a sua obra. É o

86
Significado da palavra: lugar de junção do pensamento e da linguagem

princípio constitutivo da linguagem, o que quer dizer que toda a vida da lin-
guagem, em qualquer campo, está impregnada de relações dialógicas. A con-
cepção dialógica contém a ideia de relatividade da autoria individual e conse-
quentemente o destaque do caráter coletivo, social da produção de ideias e
textos. O próprio humano é um intertexto, não existe isolado, sua experiência
de vida se tece, entrecruza-se e interpenetra com o outro. Pensar em relação
dialógica é remeter a um outro princípio – a não-autonomia do discurso. As
palavras de um falante estão sempre e inevitavelmente atravessadas pelas
palavras do outro: o discurso elaborado pelo falante se constitui também do
discurso do outro que o atravessa, condicionando o discurso do eu. Em lingua-
gem bakhtiniana, a noção do eu nunca é individual, mas social. Nos seus escri-
tos, Bakhtin aborda os processos de formação do eu através de três categorias:
o eu-para-mim, o eu-para-os-outros, o outro-para-mim. Da formulação dessa
tríade, pode-se entrever sua inquietude frente a algumas questões: Como o eu
estabelece sua relação com o mundo? Existe uma oposição entre o sujeito e o
objeto? De acordo com Maria Teresa de Assunção Freitas, “Para ele, não há um
mundo dado ao qual o sujeito possa se opor. É o próprio mundo externo que
se torna determinado e concreto para o sujeito que com ele se relaciona.”

[...] A consciência individual é, portanto, um fato social e ideológico. Dito de


outra maneira, a realidade da consciência é a linguagem e são os fatores so-
ciais que determinam o conteúdo da consciência – do conjunto dos discursos
que atravessam o indivíduo ao longo de sua vida, é que se forma a consciência.
O mundo que se revela ao ser humano se dá pelos discursos que ele assimila,
formando seu repertório de vida. Pelo fato de a consciência ser determinada
socialmente, não se pode inferir que o ser humano seja meramente reprodu-
tivo, o que se ressalta é, portanto, a criatividade do sujeito humano: é influen-
ciado pelo meio, mas se volta sobre ele para transformá-lo. Duas vezes nasce o
homem: fisicamente (o que não o faz inserir na história) e socialmente deter-
minado pelas condições sociais e econômicas. Posto isso, não se pode susten-
tar a ideia – tão propalada pelo idealismo e pelo positivismo psicologista – de
que a ideologia deriva da consciência. Sob a forma de signos é que a atividade
mental é expressa exterior e internamente para o próprio indivíduo. Sem os
signos a atividade interior não existe. A palavra não é só meio de comunicação,
mas também conteúdo da própria atividade psíquica.

[...] Retomando a questão do dialogismo, e, ainda com relação à palavra


diálogo, além do seu sentido estrito – o ato de fala entre duas ou mais pes-
soas –, pode-se tomá-la também em seu sentido amplo, a saber, qualquer

87
Linguagem e Pensamento

tipo de comunicação verbal, oral ou escrita, exterior ou interior, manifestada


ou não. O livro, por exemplo, é um ato de fala impresso. Segundo Bakhtin, “O
discurso escrito é de certa maneira parte integrante de uma discussão ideoló-
gica em grande escala: ele responde a alguma coisa, refuta, confirma, antecipa
as respostas e objeções potenciais, procura apoio etc.”. Tudo está em constante
comunicação. À ideia de diálogo agrega-se um outro elemento que não se
refere apenas à fala em voz alta de duas pessoas, mas a um discurso interior, do
qual se emanam as várias e inesgotáveis enunciações, que são determinadas
pela situação de sua enunciação e pelo seu auditório. Conforme Bakhtin,
A situação e o auditório obrigam o discurso interior a realizar-se em uma expressão exterior
definida, que se insere diretamente no contexto não verbalizado da vida corrente, e nele se
amplia pela ação, pelo gesto ou pela resposta verbal dos outros participantes na situação
de enunciação.

A toda essa questão está relacionada a formação de repertórios, que, no


dizer de Bakhtin, são formas de vida em comum relativamente regularizadas,
reforçadas pelo uso e pela circunstância.

Dessa maneira, as formas estereotipadas no discurso da vida cotidiana res-


pondem por um discurso social que as consolida, ou seja, possuem um audi-
tório organizado que mantém a sua permanência, refletindo, assim, ideologi-
camente a composição social do grupo, evidência da afirmação de Bakhtin ao
dizer que “a palavra é o fenômeno ideológico por excelência” ou “todo signo é
ideológico”. Por essa razão é que, mesmo em uma aparente simples anedota
que se conta sobre o negro, o judeu, o nordestino, a mulher etc., os preconcei-
tos que afloram nada mais são do que exercício constante dos elementos cul-
turais desse grupo social. O enunciatário, no entanto, pode oferecer obstáculos
à sua realização/manutenção provocando rupturas que vão infiltrando sensí-
veis mudanças iniciais, mas que podem ganhar corpo. Daí o entendimento de
que todos são sujeitos da enunciação – enunciador e enunciatário – porque o
caráter interativo nada mais é do que a possibilidade de transformação, seja
pelo enunciador, seja pelo enunciatário, passando a refletir e refratar a reali-
dade dada. É a ideia da palavra em movimento, o poder da palavra. Por meio
dela, os sujeitos são postos em ação para reproduzir ou mudar o social.

[...] Por todas essas considerações, pode-se perceber por que o dialogismo
é vital para a compreensão dos estudos de Bakhtin e das questões referen-
tes à linguagem como constitutiva da experiência humana e seu papel ativo
no pensamento e no conhecimento. Do ponto de vista comunicacional, a
importância desse conceito reside, inclusive, no fato de ratificar o conceito

88
Significado da palavra: lugar de junção do pensamento e da linguagem

de comunicação como interação verbal e não-verbal e não apenas como


transmissão de informação. A contribuição à complexidade desse conceito
também se verifica por implicar outros: interação verbal, intertextualidade e
polifonia. Esses termos parecem designar um mesmo fenômeno com peque-
nas variações entre si. São estas especificidades que vão estabelecer as dife-
renças entre eles, aproximando-os ou distanciando-os em graus diferencia-
dos. O mais importante é perceber que todos eles, independentemente de
suas particularidades, rompem com a arrogância e a onipotência do discurso
monológico. O ser social nasce com o exercício de sua linguagem.

Atividades
1. Em que medida falar com o bebê pequeno é importante para a estruturação
do pensamento do humano?

2. Em que medida Vygotsky se interessava por pesquisar o pensamento em si?

89
Linguagem e Pensamento

3. Qual a função do significado da palavra na estruturação do pensamento hu-


mano de acordo com a teoria de Vygotsky?

Dicas de estudo
LURIA, Alexander Romanovich. Pensamento e Linguagem: as últimas conferên-
cias de Luria. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987.

Essa obra trata de diversos temas articulados entre si: a relação entre a lin-
guagem e a consciência; a palavra e a estrutura semântica; o desenvolvimento
das palavras; campos semânticos; a linguagem interior; a linguagem oral e a or-
ganização cerebral. Dentre essas tantas contribuições, destaca-se o conceito de
comunicação verbal desdobrada, que, por sua vez, refere-se ao processo psíquico
interno (para o autor, projeto de alocução) que precede um determinado ato de
fala. Estudar o projeto de alocução é, portanto, uma tentativa de estudar o pen-
samento propriamente dito ou, melhor dizendo, a parte deste que é possível
conhecer, uma vez que ele não se deixa apreender totalmente pela linguagem.

Ressalte-se que essa é uma publicação de fundamental importância para os


professores que trabalham com a expressão oral, leitura e escrita, uma vez que
deixa claro que uma enunciação verbal não é um simples ato de materialização
de uma ideia previamente formada, mas precedida por um complexo mecanis-
mo interior, que tem por finalidade a expressão verbal.

90
Significado da palavra: lugar de junção do pensamento e da linguagem

91
O papel da linguagem no desenvolvimento
intelectual de uma criança
Você já parou para pensar que, em nossa cultura, não existe consenso sobre
as possibilidades e limitações da educação na formação de uma criança?

De um lado, está um grande número de adultos descompromissados


que justificam sua falta de habilidade para exercer uma ação formativa por
meio de uma posição determinista. Ela pode ser expressa pelo ditado po-
pular “Pau que nasce torto, morre torto”. Segundo sua lógica, já há no bebê,
em estado latente, tudo aquilo que um homem virá a ser um dia, não exis-
tindo, consequentemente, qualquer possibilidade de sucesso para alguém
que, em determinado momento de sua vida, tendo se dado conta, por
exemplo, de um erro cometido na educação de um filho, deseja corrigi-lo.

Do outro lado, estão os corajosos que assumem o desafio de sustentar


o ato educativo desde a mais tenra idade daqueles pelos quais se sentem
responsáveis. Segundo sua lógica, embora seja verdadeiro que, desde o
nascimento (e talvez até antes) seja possível detectar diferenças de com-
portamento, gostos, caráter etc. em nossos bebês, não é menos verdadei-
ro que essas tendências – em certa medida, constitucionais – possam ser
refreadas ou encorajadas de acordo com as normas da cultura na qual a
criança está sendo inserida. Ainda recorrendo ao campo dos ditados po-
pulares, sua posição pode ser descrita do seguinte modo: “É de pequenino
que se torce o pepino”.

O primeiro grupo, portanto, acredita em uma espécie de petrificação do


homem: ao longo de sua vida, cada um permanece do jeito que sempre foi
e sempre será. Como uma espécie de múmia viva, ele vem e vai no mundo
sem nunca ter deixado sobre ele qualquer tipo de marca. O segundo grupo,
ao contrário, é partidário da possibilidade do movimento, da alteração
qualitativa da situação de um sujeito. Muito comumente, reconhecem que
a possibilidade de alterações não é infinita, uma vez que encontra limites
no real do corpo e em todo tipo de contingência social (condições socio-
-econômicas muito precárias, ausência de adultos comprometidos com a
criança, inserção em uma comunidade de criminalidade etc.).

Vamos propor, agora, então, uma brincadeira que, ao mesmo tempo é


uma pergunta séria. Se Vygotsky fosse vivo e estivesse fazendo fofoca sobre
Linguagem e Pensamento

os filhos dos vizinhos aí pertinho da sua casa, em que grupo ele estaria? Você disse
que estaria no grupo dos que acreditam na necessidade de “torcer o pepino”?
Muito bem! Essa resposta indica que você está pronto para compreender o papel
que a linguagem exerce no desenvolvimento intelectual de uma criança.

A linguagem torna o homem mais complexo


As teses que devem sua origem ao pensamento vygotskyano defendem uma
concepção de homem segundo a qual o adulto humano é um ser que nasce
portando várias de suas futuras qualidades em estado latente. Entretanto, ele se
afasta da visada que defende a existência de uma espécie de “programação de
computador genética” responsável por fazê-lo amadurecer e tornar-se adulto
por meio da passagem do tempo e da absorção das informações que um orga-
nismo poderia conseguir interagindo diretamente com o meio.

Como se porta o adulto que Ao contrário, como resultado de suas inú-


exerce a importante função meras pesquisas, o autor defendia a tese de
de introduzir os novatos na que toda e qualquer aquisição de conheci-
cultura elaborada? mento por parte de um humano é sempre
intermediada (explícita ou implicitamente)
pelas pessoas que rodeiam a criança. Dentro dessa visada, portanto, o adulto
tem um papel absolutamente primordial no desenvolvimento intelectual de
uma criança. Isto é: ninguém nasce “inteligente”, mas torna-se um ser capaz de
construir e usar um complexo sistema de “processamento de dados” que corres-
ponde aos complexos mentais superiores.

Neste ponto, é importante ressaltar que Vygotsky não imaginava que o pai e
a mãe de um bebê deveriam se portar como uma espécie de professores anteci-
pados na educação de seus filhos. Quando ele defendia a importância do papel
dos adultos no desenvolvimento dos pequenos, não se tratava de uma posição
de douto conferencista, mas simplesmente do fato de poder portar condigna-
mente os significados sociais e históricos das coisas e palavras com as quais o
bebê toma contato.

Mesmo correndo o risco de tratar a questão de modo um pouco superficial,


vamos trazer aqui um exemplo muito simples. Tomemos o caso de uma criança
assustada com o barulho de fogos de artifício. Aquela que vamos chamar de
mãe 1, diz “Cala a boca, seu tonto, que besta!” Enquanto isso, aquela que vamos
chamar de mãe 2 diz “Não se assuste. São fogos de artifício. As pessoas sempre
usam para comemorar quando estão contentes.”
94
O papel da linguagem no desenvolvimento intelectual de uma criança

Analisando os dois enunciados fictícios aqui reproduzidos, veremos que a


primeira mãe limita-se a insultar seu próprio filho e opta por mantê-lo na igno-
rância no que diz respeito às causas de seu medo. A segunda, por sua vez, realiza
as seguintes operações por meio de sua fala: 1) acalma a criança; 2) nomeia o
objeto que está produzindo o ruído; 3) esclarece a criança sobre os usos sociais
do objeto; 4) usando a palavra sempre, previne a criança de que aquela situa-
ção tende a se repetir. Por último, de maneira mais indireta, testemunha de que,
também ela, não tem medo de fogos de artifício, uma vez que pode falar tran-
quilamente sobre o assunto.

Ou seja, a mãe 2 é capaz de portar os significados sociais e históricos das


coisas e transmiti-los ao seu filho. Teorizando um pouco mais esse processo que
acabamos de tratar de maneira intuitiva, vamos recorrer ao trabalho de Luria e
Yudovich (1985). Após um extenso e rigoroso processo de pesquisa envolven-
do crianças de variadas idades, esses seguidores de Vygotsky chegaram a uma
conclusão que muito interessa a todos que se responsabilizam pela educação
de crianças: a descoberta de que as mudanças qualitativas no uso na linguagem
não se fecham em si, mas, ao contrário, introduzem diferenças na formação dos
complexos processos mentais superiores do homem. Nas palavras dos autores:
As primeiríssimas palavras da mãe, quando mostra a seu filho objetos e os nomeia, atribuindo-
-lhes uma palavra determinada, têm uma importante influência, não avaliável, porém decisiva,
na formação dos processos mentais da criança. A palavra, relacionada à percepção direta do
objeto, isola seus traços essenciais. O fato de nomear o objeto percebido “copo”, acrescentando
o seu papel funcional “para beber”, isola as propriedades essenciais do objeto e inibe as menos
essenciais (como seu peso ou forma exterior). (LURIA; YUDOVICH, 1985, p. 12)

Concluindo: os autores afirmam que a palavra, O que a criança faz com


ao transmitir a experiência de gerações tal como foi as informações que lhe
incorporada à linguagem, liga um complexo siste- são disponibilizadas
ma de conexões no córtex cerebral da criança. Por pelos adultos?
ser portadora do saber acumulado na cultura e na
história, a palavra “toma corpo”, inscreve-se num organismo e, ao fazê-lo, alte-
ra-o. De posse da palavra contextualizada, a criança ganha uma poderosíssima
ferramenta que sofistica a percepção infantil, dotando-a de formas de análise e
de síntese que a criança seria incapaz de desenvolver sem o auxílio de um adulto
parecido com aquele que chamamos de mãe 2.

Dizendo de outro modo, as abordagens educativas que tiveram sua origem


na teoria vygotskyana concebem a aprendizagem como um fenômeno que se
realiza somente quando há oportunidade de interação de um sujeito com o
outro. Essa posição é coerente com a premissa do psicólogo segundo a qual o
desenvolvimento psicológico dos homens é parte do desenvolvimento geral de
95
Linguagem e Pensamento

nossa espécie, ou seja, fruto de nossa organização social. Até o presente mo-
mento, entretanto, estivemos discorrendo sobre o papel do adulto no desen-
volvimento intelectual infantil, mas nada falamos sobre o que ocorre do lado do
bebê. É chegada a hora, portanto, de discorrer sobre o que ocorre com a criança
a partir da disponibilização desse cabedal de informações.

O conceito de internalização e sua


relevância para refletir o ato educativo
O bebê humano pressuposto na teoria de Vygotsky não é um ser passivo.
Ao contrário, ele só caminha na direção da complexificação de seus padrões
de pensamento caso se engaje em um processo de reelaboração daquilo que
“aprendeu” para transformar as palavras que escutou em outras que sejam mais
adequadas à sua “linguagem interna”.

Compreendendo que a faculdade da linguagem diferencia o homem dos demais


animais inteligentes, o autor destaca que, para nós humanos, o uso de signos faz
com que se crie um elo intermediário entre o estímulo e a resposta. Consequente-
mente, ele classifica os signos como estímulos de segunda ordem, cuja lógica, ao se
impor para o bebê, substitui o processo simples de estímulo e resposta por um ato
complexo, isto é, mediado pela linguagem (VYGOTSKY, 1988, p. 45).

Pode-se dizer, portanto, que o signo funciona como elo entre nós e o mundo.
Ele cumpre a importante função de fazer com que os elementos que nossa per-
cepção capta façam sentido para nós. Esse processo tem extrema importância
para o processo do desenvolvimento humano, pois dificilmente, ao escutar uma
palavra cujo significado nos escapa ou ao encontrar um objeto cujo uso desco-
nhecemos, vamos tentar utilizar uma coisa ou outra, o que limita nosso campo
de experiência. Isso ocorre porque o homem é um animal que precisa que as
coisas “façam sentido” para que ele se autorize a incidir sobre elas.

Você já notou que nós temos Ressalte-se, neste ponto, portanto, que os
medo de pegar objetos cuja signos têm a importante propriedade de exer-
forma não “entendemos”? cer uma ação, não só sobre o ambiente externo
mas também, em primeiro lugar, sobre o indi-
víduo, oferecendo-lhe não só um campo maior de objetos nos quais ele se autoriza
a incidir como igualmente formas de operações psicológicas novas e superiores.

96
O papel da linguagem no desenvolvimento intelectual de uma criança

Por meio de experiências clínicas com crianças de várias idades, o psicólogo


e seus seguidores perceberam que a conquista dos processos psicológicos supe-
riores demora a ser construída no pequeno humano, dando-se da maneira como
sistematizada no quadro 1.

Quadro 1 – A conquista dos processos psicológicos superiores

Idade pré-escolar Idade escolar Adulto


A criança ainda não é capaz A criança já pode controlar O signo linguístico age como
de controlar previamente seu seu comportamento com o um instrumento da atividade
comportamento quando de- auxílio de signos externos e, psicológica, organizando-a.
seja realizar tarefas concretas, desse modo, é mais eficien- Consequentemente, seu com-
estando sujeita às contingên- te na realização de tarefas às portamento pode permanecer
cias. quais se propõe. mediado, ou seja, planejado e
refletido com antecedência.

Idade pré-escolar Idade escolar Adulto


Exemplo: não verifica se pe- Exemplo: para não esquecer Exemplo: antes de começar
gou todos os bonecos que de pegar um livro na bibliote- fazer um bolo, a dona-de-
vai precisar para montar a en- ca, amarra uma fita em torno -casa experiente verifica se
cenação de uma guerra, ten- do braço. dispõe, em seu armário, de
do que voltar ao seu armário todos os ingredientes de que
muitas vezes. precisa.

Dada essa sinopse, é necessário nos interrogar como uma fase dá lugar à outra.
Para responder a essa interrogação, o autor parte da premissa de que a troca de
palavras em meio social possibilita ao sujeito a apropriação de conhecimentos
que circulam no lugar onde vive por meio de uma internalização das atividades
socialmente enraizadas e historicamente desenvolvidas. Nas suas palavras, “a in-
ternalização das atividades socialmente enraizadas e historicamente desenvolvi-
das constitui o aspecto característico da psicologia humana; é a base do salto qua-
litativo da psicologia animal para a psicologia humana” (VYGOTSKY, 1988, p. 65).

Para ele, todo processo de aprendizagem se inicia por uma atividade externa.
Na vida cotidiana, percebemos, por exemplo, que a criança não fica indiferente
às atividades dos adultos. Quando vê os outros fazendo algo que ela não conhe-
ce, a criança não só costuma observar atentamente como interroga o praticante
sobre diversos aspectos de seu interesse. A partir de sua curiosidade, portanto,
num primeiro tempo se estabelece um processo que é interpessoal.

Num segundo momento, esse processo torna-se intrapessoal. A criança, por assim
dizer, fala consigo como o adulto fez durante o primeiro momento. Observando-a

97
Linguagem e Pensamento

mais detidamente, podemos escutar, inclusive, que ela censura: “Você não está fa-
zendo isso direito”, dá recomendações para si mesma: “Faça isso com mais calma”,
relembra-se do próximo passo a ser seguido: “Agora tem que fechar a perna do o...”
Ela incorpora, portanto, a voz do outro que previamente lhe ensinou.

Vygostsky conclui dessa constatação empírica que o processo de internaliza-


ção consiste no resultado de uma longa série de eventos ocorridos ao longo do
desenvolvimento humano. Curiosamente, todas as funções no desenvolvimento
do homem aparecem duas vezes: uma primeira no nível social e, posteriormente,
no nível individual.

A zona de desenvolvimento proximal e sua


aplicabilidade para refletir sobre a educação
Prosseguindo o raciocínio sobre os processos de internalização que acaba-
mos de mencionar, Vygotsky (1988) busca estabelecer dois níveis de desenvol-
vimento para compreender como se dão as relações entre o processo de desen-
volvimento e a capacidade de aprendizagem.

 Nível de desenvolvimento real: refere-se à capacidade que a criança


apresenta para solucionar atividades ou funções sem o auxílio de outra
pessoa. Caracteriza-se, portanto, pelo desenvolvimento já consolidado.

 Nível de desenvolvimento potencial: refere-se àquelas ações que a


criança tem dificuldade para realizar, necessitando da ajuda de um adulto
ou de uma criança mais experiente que ela para ser bem-sucedida. Nível
que denota desenvolvimento, uma vez que não somos capazes de fazer
determinadas coisas sem auxílio.

Examinando os dois níveis que acabam de ser descritos, o leitor poderá con-
cluir que entre um e outro existe uma zona a ser preenchida. Ela é chamada por
Vygotsky de zona de desenvolvimento proximal e compreende, portanto, a distância
entre o conhecimento real e o potencial, uma vez que comporta as funções psico-
lógicas ainda não consolidadas, mas que já estão presentes na criança em estado
embrionário. Ela caracteriza prospectivamente o desenvolvimento mental.

O mais importante para a reflexão sobre nossa prática pedagógica é, entretan-


to, entender que, nessa linha de raciocínio, o processo de desenvolvimento cog-
nitivo depende da possibilidade de o sujeito ser sempre colocado em situações-

98
O papel da linguagem no desenvolvimento intelectual de uma criança

-problema que, a partir de sua zona de desenvolvimento proximal, provoquem a


construção de conhecimentos e conceitos.

A possibilidade concreta de construção e consolidação de um conhecimen-


to novo não está no eterno repetir daqueles que já foram consolidados, mas
em sua desestabilização por novas informações que, ao serem processadas, irão
gerar a mobilização de outros conhecimentos e de outros sujeitos.

O que o conceito de zona de desenvolvimento proximal nos ensina sobre o


professor? Para estudar esse conceito e sua utilidade para a reflexão sobre a prá-
tica do professor, julgamos relevante retomar algumas das considerações desen-
volvidas em estudo anterior (RIOLFI, 1999). Concluímos aquele texto defenden-
do a necessidade de apresentar aos alunos um conteúdo que, ao contrário da
“papinha industrial que costuma ser o conteúdo dos nossos livros didáticos”,
consistisse em “um osso duro de roer”.

Evidentemente, tratava-se de uma metá- O que o conceito de zona de


fora forjada para a compreensão da neces- desenvolvimento proximal nos
sidade de apresentar os conteúdos sempre ensina sobre ser professor?
na forma de um enigma e não previamente
mastigados pelo professor. Já naquela ocasião, afirmávamos que ninguém ensina
a ninguém, cada um aprende por si próprio. Só que isso não quer dizer que alguém
aprenda seja lá o que for sozinho. Ninguém aprende nada sozinho e, para que se
aprenda, o professor tem um papel absolutamente fundamental. Seu papel é o de
transmitir um desejo bastante específico: o desejo de saber, o desejo de sustentar
um trabalho que o leve a saber sobre algo que diz respeito ao sujeito que aprende,
qualquer que seja a matéria curricular em jogo naquele momento.

Para argumentar a favor dessa tese, recorremos ao exemplo do desenho ani-


mado O Rei Leão, da Disney – grande sucesso de venda entre as crianças e os
adultos desde o seu lançamento, em 1995. Acho que todo mundo se lembra da
história: após uma infância feliz, vivida lado a lado com seu pai, um adulto côns-
cio de seu lugar na comunidade e exercendo com sucesso sua função de pai –
que é basicamente a de transmitir ao jovem os valores da cultura, preparando-o,
por sua vez, para encontrar o seu lugar na linhagem –, o jovem leão é forçado a
se separar de sua família.

Exilado, junta-se a uma turma de outros jovens, mais interessados em “curtir


a vida” do que em fazer valer sua saída da infância. Nessa turma, entrega-se aos
prazeres de uma vida irresponsável, o avesso daquilo que seu pai lhe ensina-
ra. Isso somado aos arrotos sonoros, à juba mal penteada, à maneira dançante

99
Linguagem e Pensamento

de andar, às conversas disparatadas – em suma, a uma exibição de desrespeito


pelos conteúdos construídos historicamente por sua comunidade de origem.

Efetivamente, o leão apaixona-se por sua ex-companheira de infância, desde


sempre prometida como sua noiva, reencontrada por acidente no meio da selva,
mas, já que não estava disposto a arcar com suas responsabilidades, ele não en-
tabula qualquer relacionamento de compromisso com ela.

O que essa história A saída desse período irresponsável se dá por uma


nos ensina? ação decidida de um adulto, pela ação incisiva de alguém
que encarna o papel do sábio, portador de um saber cons-
truído e transmitido por gerações: o velho macaco, que assume seu papel sem
vacilação. Por uma ação decidida (uma pancada com um pedaço de pau para lhe
por “algumas ideias na cabeça”), essa “explicação” sobre qual era o seu lugar social
faz com que o leão se insira novamente na comunidade, forme família e cumpra
seu papel de bom rei, há muito previsto na cadeia das gerações.

O que essa história nos ensina? Antes de tudo, a fábula do desenho animado
nos mostra que é por meio da intervenção da geração precedente que a nova
geração assume suas responsabilidades sociais. Mostra-nos que, no caso especí-
fico do professor, cabe a ele mostrar ao aluno que este vai à escola para aprender
os valores acumulados durante séculos pela cultura. Cabe ao professor auxiliar o
jovem a encontrar uma direção na vida, que, no mundo moderno, o da crise e o
do desemprego, parece tão incerta. É pena quando os professores são levados a
abrir mão também da sua função de adultos...

Em um texto muito curto, escrito em 1910 para criticar um diretor de escola


que tentava eximir-se da responsabilidade pelo suicídio de alguns de seus alunos,
Freud é preciso com relação a esse ponto, afirmando que a escola
[...] deve lhes dar [a seus alunos] o desejo de viver e devia oferecer-lhes apoio e amparo numa
época da vida em que as condições de seu desenvolvimento os compelem a afrouxar seus
vínculos com a casa dos pais e com a família. Parece-me indiscutível que as escolas falham
nisso, e a muitos respeitos deixam de cumprir seu dever de proporcionar um substituto para a
família e de despertar o interesse pela vida do mundo exterior. Esta não é a ocasião oportuna
para uma crítica às escolas secundárias em sua forma presente; mas talvez eu possa acentuar
um simples ponto. A escola nunca deve esquecer que ela tem de lidar com indivíduos imaturos
a quem não pode ser negado o direito de se demorarem em certos estágios do desenvolvimento e
mesmo em alguns um pouco desagradáveis. (FREUD, 1969, p. 243-244 , grifo nosso)

Concluindo aqui nossa reflexão sobre o papel da linguagem no desenvolvi-


mento intelectual de uma criança, é necessário frisar que o educador que pro-
cura inspiração na teoria de Vygotsky, para conduzir a sua prática, encontra-se
convocado a conduzir seu cotidiano educacional de modo a formar um aluno
que interaja com seu meio, com seus colegas e com o próprio professor.
100
O papel da linguagem no desenvolvimento intelectual de uma criança

Faz também parte do papel do professor compreender que os erros devem


ser vistos como sendo um indício do que a criança não consegue realizar sozinha
ainda. Apostando em seu papel para o desenvolvimento intelectual da criança, o
educador passa a encarar o erro como aquilo que revela o espaço no qual o pro-
fessor deve oferecer auxílio. Não se trata, portanto, de julgar a criança, mas de fazer
seu papel de educador, ou seja, transformar a falha em mais uma das conquistas
de uma criança em formação. Vejamos o que Esteban afirma a esse respeito:
Nesta perspectiva, o processo ensino-aprendizagem é fortalecido e, ao mesmo tempo,
redimensionado. A preocupação não se reduz apenas a alcançar a resposta certa e a aceitar os
“erros” que porventura a precedam. Trata-se de priorizar a possibilidade de alunos e professores,
num processo interativo, construírem novos conhecimentos que realimentem o processo. O
coletivo é recuperado como espaço de construção e apropriação do conhecimento. (ESTEBAN,
1992, p. 83)

Finalmente, cumpre ainda dizer que aqueles que aderem à teoria sócio-histó-
rico-cultural de Vygotsky assumem, portanto, um importante desafio: conhecer
cada um dos seus alunos ao iniciarem suas atividades em sala, respeitando e
compreendendo que o conhecimento adquirido no seu meio e as especificida-
des dos modos de pensar de seu grupo cultural interferem na aprendizagem
e no desenvolvimento do estudante e são instrumentos importantíssimos para
serem utilizados a seu favor.

Texto complementar

Aula particular
(NUNES, 1988, p. 51-60)

O canário na gaiola cantou; Maria olhou. A gaiola estava pendurada na


janela, batia sol no canário, ele parou de cantar e começou a pular de um
lado pra outro, será que ele queria sair? Mas a porta estava fechada, uma
gaiola de nada, como é que prendiam ele assim apertado com tanto lugar
pra voar? Escutou a voz de Dona Eunice:

— Mas antes você me diz se esses números são divisíveis por três, por dez
e por mil.

Antes? Antes por quê? O que é que ela tinha falado primeiro? Será que
tinha explicado muita coisa?

101
Linguagem e Pensamento

Dona Eunice tirou um fiapo que estava preso na saia e botou ele dentro
de um pratinho.

— É pra escrever, dona Eunice?

— É.

Maria fez força pra pensar. Dona Eunice levantou a mão, sacudiu o braço,
e tudo quanto é pulseira foi pro cotovelo, uma esbarrando na outra. Quando
Dona Eunice sacudia o braço daquele jeito é porque estava meio sem paci-
ência, era melhor escrever logo uma coisa, mas o quê?

Uma coisa qualquer, depressa, correndo. Escreveu. Vai ver estava tudo
errado. Dona Eunice foi dizendo:

— Certo. Certo. Certo. Este aqui tá errado!

Maria pegou o lápis.

— Não, não, não!

Que tanto não-não era aquele?

— Não risca, Maria! Eu já disse que não se risca caderno. Fica uma coisa
feia, suja. E não tem nada pior do que a sujeira. Usa a borracha.

Maria pegou a borracha. Dona Eunice viu um fiapo no tapete e se levan-


tou pra pegar. A borracha escapou da mão de Maria, rolou pro chão, caiu tão
perto do focinho do cachorro que ele nem precisou se mexer pra começar
a cheirar a borracha vendo se era coisa de comer. Maria olhou de rabo de
olho e viu Dona Eunice descobrindo outro fiapinho no tapete; aproveitou
e pegou disfarçado a borracha de Dona Eunice, que estava dentro de uma
caixinha azul; começou a apagar com cuidado, pro papel nem enrugar nem
rasgar. Dona Eunice sentou de novo.

— Isso. Agora escreve certo – Puxou tudo quanto é farelinho de borracha


pra palma da mão, puxou o pratinho pra botar o farelo dentro, largou tudo de
repente, prato, farelo, fiapo, a vontade de espirrar vinha vindo, vinha vindo, [...].

O espirro não veio e Dona Eunice falou:

— E então, Maria?

102
O papel da linguagem no desenvolvimento intelectual de uma criança

Maria olhou pra Dona Eunice mas continuou pensando no cachorro: e se


ele cismava de engolir a borracha? Era uma borracha grandona, boa mesmo
pra ficar entalada em garganta de cachorro. Imagina se ele ficava todo en-
gasgado e...

— Acorda, Maria!

— Hmm?

— Você não fez errado? Não apagou? Então? Faz direito! Mas vamos de
uma vez, você tá mole demais.

Maria começou a escrever. [...] O que é mesmo que ela tinha que escrever?
Ah! Antes ela tinha feito errado, bom, se antes tava errado, o jeito era fazer ao
contrário. Mas será que ele tinha engolido mesmo a borracha? Firmou o olho
no caderno e acabou de escrever.

— Tá certo, dona Eunice?

Dona Eunice suspirou “até que enfim” e começou a explicar matéria nova.
Maria ficou olhando pra ela. Só quando Dona Eunice olhava pro livro é que Maria
olhava pro chão. O cachorro não se mexia [...] vai ver engasgo de borracha não
fazia barulho! E se o cachorro tinha se engasgado baixinho? E morrido bem
baixinho? Dona Eunice falava, escrevia, a dormência do pé foi subindo, subin-
do, Maria já não sentia a perna direito, por que que a Dona Eunice tinha virado
o caderno pra ela?

— Você vai efetuar essas adições e subtrações de frações com denomina-


dores iguais e desiguais.

Fração? Mas elas não estavam em número divisível?

— Mas, olha, Maria, eu quero que você use o MMC.

— MMC? (Ai, como a perna tava esquisita! Como ia ser bom sacudir ela bem.)

— Menor múltiplo comum. Ou será que você já esqueceu?

— Não esqueci, não. (Mas de que jeito? Se sacudia a perna, batia no


cachorro.)

— E o MDC?

103
Linguagem e Pensamento

— MDC? (e se a perna batia... e o cachorro, não mexia?)

— É.

— Que que tem? (Bom, se ele não mexia...)

— Você está lembrada do MDC?

— Tô, sim senhora. (...é porque tinha mesmo morrido baixinho.)

— Então, vamos ver: faça aí as operações.

Maria se debruçou no caderno. [...]

Maria começou a somar as frações. Resolvendo que só ia pensar no múl-


tiplo e mais nada. [...]

A aula continuou.

Mas Maria não conseguia mais se lembrar do que ela tinha que fazer com
o menor múltiplo. Desatou a morder o lápis. A unha de Dona Eunice come-
çou a puxar de novo a pelezinha do polegar. Maria olhou pro relógio em
cima da cristaleira (era relógio-despertador, tocava na hora da aula acabar).

— Temos tempo, Maria, temos tempo. Endireita as costas. Atenção com a


coluna. Não morde o lápis desse jeito, estraga ele todo. E olha só sua boca, o
lábio tá preto! Tudo sujo de casca de lápis.

[...] Dona Eunice suspirou. O cachorro voltou para baixo da mesa e o canário
cantou. Maria sentou na mesma posição que estava antes. A aula continuou.

— Você sabe o que é um segmento?

— Um o quê?

— Segmento.

— Não.

— Você sabe o que é uma semirreta?

— Só reta.

— Alguma vez você já ouviu falar em paralelismo e perpendicularismo?

104
O papel da linguagem no desenvolvimento intelectual de uma criança

— Bom ... – lembrou-se do circo: às vezes eles falavam em botar os cabos


de aço paralelos. O pensamento ficou no circo; só voltou quando a dona
Eunice parou de falar pra pegar o lencinho de bolso. [...]

Maria sentou em câmara lenta; endireitou as costas em câmara lenta; enco-


lheu as pernas em — hmm! — quanto tempo ia aguentar naquela posição? E
foi só o cachorro deitar que a Dona Eunice botou o pé em cima dele e falou:

— Agora vou explicar contorno, figura aberta e figura fechada. — Olhou


pra Maria; franziu a testa, mal podendo acreditar: — Mas o que é isso?!

— O quê?...

— Você tá com a boca toda preta outra vez!

Ai: ia começar tudo de novo?

Mas o despertador tocou bem comprido e a aula particular acabou.

Atividades
1. Qual a função das palavras da mãe na estruturação do pensamento do bebê
de acordo com a teoria de Vygotsky?

105
Linguagem e Pensamento

2. Em que medida a teoria de Vygotsky se afasta da perspectiva comportamen-


talista, segundo a qual, para o humano, é possível associar o estímulo e a
resposta?

3. Como Vygotsky e seus seguidores descreveram a conquista dos processos


psicológicos superiores no ser humano?

Dicas de estudo
RODARI, Gianni. Gramática da Fantasia. São Paulo: Summus, 1982.

Nesse livro, que traz numerosas sugestões práticas de atividades que podem
ser reproduzidas ou adaptadas pelos professores das séries iniciais, Gianni Rodari
propõe uma série de expedientes para que os educadores consigam manter um
contato prazeroso e afetivo com seus alunos; para que, por meio de atividades muito
ricas e divertidas, consigam trabalhar o desenvolvimento da linguagem, da lógica,
da estética; e que, por meio do exercício pleno da sua fantasia, consigam o fortaleci-
mento da imaginação e a construção da criatividade, compreendida não como um
dom concedido a poucos, mas como sendo parte da essência do humano.

106
O papel da linguagem no desenvolvimento intelectual de uma criança

107
A influência do aprendizado escolar
no desenvolvimento da criança
Qual é a hora certa para ensinar alguma coisa? Será que essa “hora
certa” chega ao mesmo tempo para todos? Ela chega como fruto de um
trabalho ou é consequência do desenvolvimento natural de uma crian-
ça? Enfim, são muitas as perguntas que um professor se coloca quando
o assunto em questão é a introdução, aprofundamento e progressão de
conteúdos. Essas interrogações costumam ser desconfortáveis, já que, na
maioria das vezes, geram insegurança quanto ao melhor ritmo para o de-
senvolvimento de seu trabalho.

Para os professores que se inspiram na perspectiva vygotskyana para or-


ganizar o seu modo de trabalhar, talvez a angústia para tentar respondê-las
seja um pouco menor, uma vez que, nessa orientação, a educação não fica à
espera do desenvolvimento intelectual da criança, mas, ao contrário, enten-
de que sua principal função é dar origem ao desenvolvimento. Não se trata,
portanto, de esperar a criança se desenvolver primeiro para fazê-la aprender
depois, mas, ao contrário, de fazê-la aprender para que possa se desenvolver.

Para você, essa perspectiva parece muito pouco familiar? Provavel-


mente, sim, uma vez que essas ideias demoraram um bom tempo para
chegar ao nosso país. Lembremos que, embora Vygotsky tenha sido autor
de vasta obra – iniciada quando ele contava apenas 21 anos –, ela perma-
neceu censurada na Rússia (seu país de origem) durante muitos anos. Por
esse motivo, ela tornou-se pública em diversos países apenas a partir do
final dos anos 1950 e início da década de 1960, quando algumas de suas
obras chegaram às universidades americanas e europeias e, assim sendo,
foram traduzidas para várias línguas.

Quem foi Vygotsky?


Vygotsky formou-se em Literatura e Direito pela Universidade de
Moscou. Mais tarde, iniciou estudos de História e Filosofia na Universida-
de Popular de Shanyavskii e de Medicina de Kharkov e Moscou. Não
Linguagem e Pensamento

concluiu estas últimas formações, mas nelas encontrou os subsídios que pre-
cisava para desenvolver os estudos na área de psicologia. A partir de 1917,
iniciou uma carreira extremamente rica em produções. Ainda na cidade de
Gomel, onde esteve até 1923, fundou uma editora, criou uma revista lite-
rária, estruturou um laboratório de psicologia, dirigiu a seção de teatro do
departamento de educação e ainda proferiu várias palestras cujas temáticas
centrais eram a ciência, a literatura e a psicologia. Morreu de tuberculose em
1934, mas sua obra não terminou junto com ele. Teve continuidade a partir
do trabalho de dois pesquisadores que colaboravam e participavam de seus
projetos: Alexei Leontiev e Alexander Luria.
(Disponível em: <http://www.planetaeducacao.com.br/new/colunas2.asp?id=431, 2005>.)

Lembremos ainda que, em suas pesquisas para identificar as mudanças qualita-


tivas dos fundamentos do pensamento, encontram-se as influências marxistas do
materialismo histórico. Essas teses levaram-no a conceber uma teoria que explica
o desenvolvimento do comportamento humano em sua relação com o contexto
social e, por este motivo, dar muita importância aos lugares em que o aprendizado
se faz de modo sistemático e socialmente organizado, como veremos a seguir.

O papel da escola no
desenvolvimento intelectual
Desde o início do capítulo, frisamos a importância de ensinar uma criança
para que ela possa se desenvolver na plena potencialidade como os demais
membros de sua espécie.

Você já ouviu falar Isso significa que, segundo essa perspectiva, a função
que “uma andorinha da escola é a de soterrar as crianças com o maior número
não faz verão”? de conteúdos possíveis? De forma alguma! Aprender,
nessa visada, não é sinônimo de tomar contato com uma
lista de pontos registrada no currículo escolar, mas forçar uma passagem: trans-
formar os conceitos espontâneos (aqueles que desenvolvemos na convivência
social) em conceitos científicos (aqueles que são formalizados de acordo com as
regras da cultura elaborada). Vejamos na citação a seguir o argumento utilizado
pelos autores para defender a necessidade da intervenção do adulto no desen-
volvimento intelectual da criança:

110
A influência do aprendizado escolar no desenvolvimento da criança

[...] a criança não consegue pensar de maneira suficientemente lógica e consistente para perceber
que conceitos associados ao mundo exterior podem ser colocados em vários níveis e que um objeto
pode pertencer ao mesmo tempo a uma classe mais estreita e outra mais ampla [...] pode-se dizer
que o pensamento da criança é sempre concreto e absoluto. (VYGOTSKY; LURIA, 1996, p. 149)

As crianças, quando são espontâneas, divertem-nos muito, não é verdade?


Você, com certeza, já ouviu a seguinte anedota circular entre as mães que são
suas conhecidas, nas mais diversas variações.
Criança:
— Me compra aquela boneca?
Mãe:
— Não posso, não tenho dinheiro.
Criança:
— Então compra com cheque, ué!

Por que elas fazem isso? De acordo com a perspectiva aqui exposta, elas o
fazem porque têm indiferença pelas contradições e, por esse motivo, não con-
seguem, por exemplo, alcançar soluções para problemas lógicos cujas soluções
não podem ser inferidas por meio da observação direta do mundo real. Para tal
fim, elas precisam ser inseridas na lógica da cultura.

Nesse ponto, uma importante constatação se apresenta: a necessidade da


organização coletiva do grupo da escola, capaz de, às vezes, pelo simples teste-
munho do modo como se organiza, dar a ver para um pequeno ser humano que
certas soluções não são passíveis de serem alcançadas pela observação direta,
necessitando de um cálculo. Para o professor, trabalhar no sentido de organizar
o grupo é mais importante que imitar um super-herói, um cavaleiro da luz que
trabalha sozinho e anônimo para o bem comum, tendo pouco “poder de fogo”.

Para dar um exemplo sobre o tipo de organização ao qual nos referimos,


vamos trazer aqui o trabalho de Pacheco (2004), famoso mundialmente pelos
bons resultados que vem conseguindo com “crianças difíceis” na Escola da Ponte,
em Portugal. Interrogado sobre as razões de seu sucesso, Pacheco afirma que o
segredo de seu trabalho é o estabelecimento de uma cultura de escola, compos-
ta por normas, todas levadas muito a sério, estabelecidas há cerca de 30 anos.
Deixemos Pacheco comentar a primeira de suas regras:
A primeira delas é: “Quem não é solidário não permanece aqui”. Esse valor de solidariedade
é um valor que é avaliado permanentemente. Ninguém se disfarça de solidário. Não se pode
disfarçar uma coisa dessas para jovens de 10, 11, 12, 14, 16 anos ou mais. Eles percebem a
mentira nos gestos das pessoas. Se o professor não é solidário com o outro professor, também
não vale a pena pensar que eles vão agir solidariamente. (PACHECO, 2004, p. 199)

111
Linguagem e Pensamento

Lendo o trabalho de Pacheco, podemos ganhar em nossa compreensão sobre


a tese, defendida por Vygotsky e Luria (1996, p. 148), pela qual os fatores mais
importantes para o desenvolvimento psicológico são “[...] o desenvolvimento da
tecnologia e, em correspondência a isso, o desenvolvimento de uma estrutu-
ra social”. No nosso caso específico, podemos salientar a importância de uma
cultura de escola que, como um todo, desafie o aluno e lhe forneça, não só um
ambiente seguro para suas explorações intelectuais como, também, a presença
inquestionável do saber acumulado pela geração anterior.

Tendo aqui concluído nossa exploração sobre o que Vygotsky e Luria chamam
de desenvolvimento de uma estrutura social, é hora de nos interrogarmos sobre o
que os autores chamam de tecnologia. Para tal fim, daremos privilégio à formu-
lação que foi feita em suas próprias palavras:
A tecnologia avançada resulta na separação entre as leis da natureza e as leis do pensamento
[...] paralelamente a um nível superior de controle sobre a natureza, a vida social do homem
e sua atividade de trabalho começam a exigir requisitos ainda mais elevados para o controle
do próprio comportamento. Desenvolve-se a linguagem, o cálculo, a escrita e outros recursos
técnicos da cultura. Com a ajuda desses meios, o comportamento do homem ascende a um
nível superior. (VYGOTSKY; LURIA, 1996, p. 149, grifo nosso)

Se você entendeu a citação que acaba de ler, entendeu também um assunto


que nos interessa muito de perto: a importância do ensino deliberado e sistemá-
tico das funções sociais da escrita, seus modos de apropriação pela comunidade
do aluno e as maneiras como ela circula no grupo escolar do qual você e o seu
aluno fazem parte.

Que se frise, portanto, neste momento: não se pode esperar o aluno escrever
por si só – é preciso instigá-lo e desafiá-lo para que tenha vontade de fazê-lo. Se
você nos permite uma expressão muito popular que bem qualifica este ponto da
reflexão, devo dizer que “é aí que a porca torce o rabo”!

Construir uma educação desafiadora


para promover o desenvolvimento humano
Neste momento de nossa reflexão, aposto que você já deve estar se pergun-
tando sobre quais aspectos são os mais importantes se quisermos construir uma
educação desafiadora para promover o desenvolvimento humano. Para respon-
der a essa pergunta, é necessário dizer que, em primeiro lugar, devemos levar
em conta que nossas salas de aula estão longe de serem homogêneas com rela-
ção à sua procedência cultural.

112
A influência do aprendizado escolar no desenvolvimento da criança

Essa heterogeneidade de nosso público-alvo, por sua vez, leva-nos à neces-


sidade de pensar sobre as escolas que adotam o chamado multiculturalismo
crítico. Vejamos, no que se segue, o que Cortesão (2004) tem a nos acrescentar
sobre os efeitos positivos e potencialmente negativos daquilo que chama de
práticas educativas e interculturais.
 Nós devemos valorizar as características socioculturais, mas se não estivermos atentos e
não analisarmos as coisas profundas, nós podemos estar somente folclorizando as diferen-
ças, não vendo as armadilhas postas ali.

 Nós podemos contribuir para maior afirmação social de grupos minoritários, mas ao mes-
mo tempo podemos, quando eles se assumem com uma identidade e têm consciência
dela, acentuar o exotismo das diferenças, tornando a questão bizarra.

 Podemos ainda contribuir para a melhoria da autoimagem pessoal e grupal, entretanto,


essa melhoria pode ser acompanhada da inculcação da ideologia da incompetência, é a
questão do “que coitadinhos”.

 Podemos também contribuir com algo que para mim é muito claro, que é o caráter lúdico,
a alegria do processo da aprendizagem. É preciso que as escolas deixem de ser chatas, de
ser soturnas, que haja alegria na aprendizagem, mas é preciso que isso não seja pago com
o preço de as pessoas aprenderem menos. Pode-se aprender bem e contente, bem e feliz,
isso acontece quando as pessoas percebem por que estão aprendendo, qual o significado
e para que serve o aprendizado.

 Finalmente, podemos produzir um processo de aquisição de poder, de consciência dos di-


reitos de cidadania, mas pode ser uma situação em que, com a folclorização das diferenças
e a acentuação do exotismo, haja o isolamento, o enfraquecimento e até mesmo a gue-
tização dos grupos, fazendo-os se isolarem da sociedade. Esse ponto eu tenho trabalha-
do com os ciganos, o isolamento desse grupo diante da sociedade moderna. (CORTESÃO,
2004, p. 262-263)

A professora Cortesão, que mora e leciona em Portugal, mostra-nos, na lista


de oposições encontradas acima, que, embora o discurso sobre o “respeito às
diferenças” esteja muito disseminado, muitas vezes, por não ser suficientemente
digerido, ele acaba sendo uma armadilha para seus defensores, que, sem per-
ceber, acabam criando na escola um ambiente de segregação para as crianças
cujos padrões de pensamento não são os da maioria. Para transpor essa discussão
para o contexto brasileiro, vamos recorrer a um exemplo e a algumas das consi-
derações analíticas desenvolvidas por Barzotto (2005). Como ponto de partida,
em uma palestra sobre os discursos que circulam no interior da escola brasileira,
o autor utilizou-se de uma gravação em áudio feita por uma de suas alunas, há
alguns anos, numa primeira visita a uma escola. Trata-se de um diálogo do qual
participam um aluno, de aproximadamente oito anos, e um supervisor escolar.

Tomemos contato com esse diálogo.

Aluno:

— A tia Rose taí?

113
Linguagem e Pensamento

Supervisor:

— Que cê qué c’a Rose? Ahn?

Aluno:

— Falá um negócio pr’ela.

Supervisor:

— Que negócio cê qué falá c’a Rose?

Aluno:

— Um negócio.

Supervisor:

— Ué, negócio é negócio, meu fio. Vem cá. Vem cá. Que conteceu?

Aluno:

— (incompreensível) e eu fui lá vê na sala e lá tem outro professor.

Supervisor:

— Quem é a outra professora? Que sala que cê foi?

Aluno:

— Ahn?

Supervisor:

— Qual sala que cê foi. Qual a professora sua?

Aluno:

— Estudo c’a Marta.

Supervisor:

— E tá, qual a professora que tá lá agora?

Aluno acena com a cabeça indicando que não sabe.

Supervisor:

— Uma Leda, uma de óculos?

Aluno:

— É.
114
A influência do aprendizado escolar no desenvolvimento da criança

Supervisor:

— É naquela sala qué pu cê entrá mesmo, é lá mesmo qué pra entrá...

Na análise desse extrato, Barzotto mostrou que um primeiro nível de abor-


dagem ao diálogo que foi transcrito seria o de focalizar o seu conteúdo, atendo,
portanto, apenas aos fatos narrados. Nesse caso, a pergunta “De que fala o extrato
acima?” nos levaria a uma resposta do seguinte tipo: trata-se do relato envolven-
do um aluno, que foi até a sala em que estuda e encontrou outra professora. Sem
entender direito o que estava acontecendo, procurou por uma pessoa a quem
chamava de “tia Rose” e não a encontrou. Então, um supervisor da escola, um
tanto impaciente, esclareceu que era para o aluno entrar na sala assim mesmo.

Afirmando que esse nível de exploração é bastante superficial e não nos leva
a compreender de fato o impasse que está em jogo na relação desse adulto com
a criança, Barzotto também aponta para a possibilidade de abordar o excerto
a partir da pergunta “as falas dos personagens estão em conformidade com as
regras da gramática normativa da língua portuguesa?”. No entanto, para ele, essa
pergunta teria utilidade apenas na medida em que a variedade de língua utiliza-
da pelos dois falantes servisse de indício para se especular sobre a classe social a
que podem pertencer os envolvidos no diálogo, dado que, em si, não nos ajuda
a aprofundar a reflexão sobre o cotidiano escolar.

Por esse motivo, o autor nos propõe um terceiro nível de exploração: refletir
sobre a escolha dos enunciados realizada por cada um dos falantes. Defende que
a pergunta proposta por Foucault (1987) como fundamental para a análise do dis-
curso – “Por que apareceu o enunciado X e não outro possível?” – tornaria a análise
mais produtiva. Para explorar essa vertente da análise, o autor salienta que é inte-
ressante notar, por exemplo, que na primeira vez que o supervisor fala, ao invés de
responder à pergunta que lhe foi feita, ele interpela o aluno com uma outra per-
gunta, quebrando, ao mesmo tempo, as regras do diálogo e da etiqueta social.

Perseguindo a escolha de enunciados feita pelo supervisor, é possível formu-


lar uma hipótese segundo a qual ela parece estar menos interessada em auxiliar
o aluno e a lhe fornecer um espaço para pensar do que começar uma luta pelo
poder. De fato, segundo a análise de Barzotto, a pergunta feita pelo supervisor
demonstra que o poder de quem está num determinado lugar de prestígio lhe
confere o direito de fazer perguntas que aquele que está em posição despresti-
giada não tem. Dentro dessa lógica, a pergunta da criança ameaça o poder do
adulto, que, de pronto, recupera-o.

Na continuidade de sua análise, mostra que a criança não ficou indiferente à


posição do supervisor: ao contrário, ela entendeu muito bem que uma disputa
115
Linguagem e Pensamento

estava instalada. Assim sendo, a criança também se deu o direito de não respon-
der, embora tenha feito semblante de quem dá uma resposta. Ela é evasiva, escon-
de o jogo, dizendo simplesmente “Falá um negócio pr’ela”, mantendo sua posição
de esquiva quando nova pergunta é feita de novo, ela diz apenas “Um negócio”.

Ou seja, Barzotto nos mostra que a criança disputa o poder com o supervisor.
Já que este tomou de volta o direito de perguntar (e o poder que tal ato confere),
a criança lhe nega o direito de obter resposta e resiste o quanto pode. É como
se ela fizesse questão de deixar claro o seguinte: “não é com você que eu quero
falar, não é a você que eu confio minhas dificuldades”.

Tendo acompanhado a exposição feita por Barzotto, agora pensemos juntos:


o que é possível ensinar para uma criança que, em consequência de nossos atos,
está nos dizendo “eu não quero falar com você”? Muito pouco, sem dúvida!

Construindo uma relação pedagógica


na qual seja possível explorar os conteúdos
Infere-se do exemplo explorado anteriormente, bem como de todo trabalho
de Vygotsky, que não são tanto os conteúdos em si que contam, mas, em primei-
ro lugar, o que faz diferença é a instalação de uma relação de confiança na qual a
criança, a partir do que pôde concluir por suas investigações solitárias, tenha von-
tade de fazer as perguntas corretas aos adultos responsáveis por sua formação.

Na concepção vygotskyana, portanto, o sujeito não é apenas ativo, mas in-


terativo, uma vez que se constitui a partir das relações interpessoais. Por esse
motivo, é importante compreender que, nessa visada, o aluno é visto como
alguém que aprende junto com o seu grupo social. De fato, ele está, antes de
tudo, amarrado por tudo o que o seu grupo social produz: os valores, as práticas
sociais, os modos de circulação do conhecimento e assim por diante.

Por esse motivo, julgamos imprescindível que a escola recupere a identidade


de ser o lugar onde a intervenção pedagógica intencional visa desencadear o
processo de aprendizagem. Assim, o professor não deve se omitir. Ao contrário,
como mediador entre a criança e a cultura elaborada, ele tem o papel explícito
de interferir no processo da criança.

Faz parte do trabalho do professor, portanto, organizar sua prática pedagó-


gica levando em conta que a aula não é um ambiente informal no qual a criança
aprende por imersão em um ambiente cultural, mas sim um espaço em que, na
116
A influência do aprendizado escolar no desenvolvimento da criança

troca com outros sujeitos, os conhecimentos, seus papéis e suas funções sociais
sejam internalizados.

Para concluir, gostaríamos agora de retomar a questão com a qual esta nossa
discussão foi aberta “Qual é a hora certa para ensinar alguma coisa e tentar subs-
tituí-la por outra que nos parece mais produtiva?”, “Será que nossa relação com
nossos alunos e a relação deles entre si está organizada de modo que seja possível
aprender alguma coisa?”. Em caso afirmativo, a boa hora chega, com certeza!

Texto complementar

A favor dos videogames


(KANITZ, 2005, p. 22)

O cérebro humano é um órgão que absorve quase 25% da glicose que


consumimos e 20% do oxigênio que respiramos. Carregar neurônios ou si-
napses que interligam os neurônios em demasia é uma desvantagem evolu-
tiva e não uma vantagem, como se costuma afirmar.

Todos nós nascemos com muito mais sinapses do que precisamos. Aque-
les que crescem em ambientes seguros e tranquilos vão perdendo essas
sinapses, que acabam não se conectando entre si, fenômeno chamado de
regressão sináptica.

Portanto, toda criança nasce com inteligência, mas aquelas que não a
usam vão perdendo-a com o tempo. Por isso, o menino de rua é mais esperto
do que filho de classe média que fica tranquilamente assistindo às aulas de
um professor. Estimular o cérebro da criança desde cedo é uma das tarefas
mais importantes de toda mãe e todo pai modernos.

Sempre fui a favor de videogames, considerados uma praga pela maioria dos
educadores e pedagogos. Só que bons videogames impedem a regressão si-
náptica, porque enganam o cérebro fazendo-o achar que seus filhos nasceram
num ambiente hostil e perigoso, sinal de que vão precisar de todas as sinapses
disponíveis. O truque é encontrar bons jogos, mas não é tarefa impossível.

O primeiro videogame que comprei para meus filhos foi o famoso SimCi-
ty, um jogo em que você é o prefeito de uma pequena vila e, dependendo
de suas decisões, ela pode se tornar uma megalópole ou não. Se você for
117
Linguagem e Pensamento

um péssimo prefeito, a população se mudará para a cidade vizinha, e fim de


jogo. Em vez de eleger prefeitos, seria muito melhor se empossássemos o
vencedor do campeonato de SimCity em cada cidade.

Um dia, eu estava brincando de prefeito quando meus filhos de 11 e 13


anos de idade, analisando meu planejamento urbano inicial, balançaram a
cabeça em desaprovação: “Tsk, tsk, tks. Pai, daqui a 50 anos você vai dar com
os burros n’água.” Eu, literalmente, caí da cadeira. Quantos de nós, aos 11
anos, tínhamos consciência de que os feitos na época poderiam ter conse-
quências nefastas 50 anos depois? Quantos de nós pensaríamos em prever
um futuro dali a 50 anos?

A lição que me deram com o famoso videogame Mario Brothers foi ainda
melhor. Não tendo a paciência de meus filhos, eu vivia cortando caminho pelos
vários atalhos existentes no jogo, quando novamente me deram o seguinte
conselho: “Não se podem queimar etapas, senão você não adquire a experiên-
cia e a competência necessárias para as situações difíceis que ainda estão por
vir.” A frase não foi exatamente essa, mas foi o suficiente para me deixar com
os cabelos em pé. Dois garotos estavam me ensinando que cada etapa da sua
vida tem seu tempo e aprendizado, e nela não se pode sair apressado.

No jogo Médico, as crianças aprendem a fazer um diagnóstico diferen-


cial, a pior das alternativas sendo uma apendicite. Nesses casos, elas têm de
operar “virtualmente” o paciente seguindo condutas médicas corretas. Um
dos procedimentos é a assepsia da pele, e ai de quem não escovar o peito do
paciente, com o mouse nesse caso, por três minutos, o que é uma eternidade
num videogame e para uma criança. Quem gasta menos do que isso é su-
mariamente expulso do hospital por erro médico. Que matéria ou professor
ensinam esse tipo de autodisciplina?

Em A-Train, o jogador é um administrador de empresa ferroviária. A crian-


ça tem de investir enormes somas colocando trilhos e locomotivas sem
contar com muitos passageiros no início das operações. Aprende-se logo
cedo que uma empresa começa com prejuízo social e tem de ter recursos
para suportar os vários anos deficitários.

Aos 12 anos, meus filhos já tinham noção de que os primeiros anos de um


negócio são os mais difíceis, e controlar o capital de giro é essencial. Avaliar
riscos e administrar o capital de giro, nem grandes empresários sabem fazer
isso até hoje.

118
A influência do aprendizado escolar no desenvolvimento da criança

Como em tudo na vida, é necessário ter moderação nas horas devotadas


ao videogame. Mas ele é uma ótima forma de estimular o cérebro da criança
e impedir sua regressão sináptica, além de ensinar planejamento, paciência,
disciplina e raciocínio, algo que nem sempre se aprende numa sala de aula.

Atividades
1. Por que o professor que segue a perspectiva vygotskyana não se preocupa
tanto com aspectos como prontidão ou maturação?

2. Por que os vygotskyanos tendem a dar grande importância à escola e à sua


organização?

3. Em que medida ensinar um grande número de conteúdos às crianças é im-


portante para os vygotskyanos?

119
Linguagem e Pensamento

Dicas de estudo
CERTEAU, Michel de. A economia escriturística. In: _____. A Invenção do Coti-
diano. Petrópolis: Vozes, 1994, p. 221-246.

Partindo de uma perspectiva teórica conhecida como antropologia cultural, Cer-


teau defende a tese de que o termo escritura é o nome que foi dado a uma triunfal
conquista da economia que se consolidou nos séculos XVII e XVIII. O autor nos ex-
plica que, sob o domínio de uma sociedade na qual a escritura serve como princípio
organizacional, o ato de escrever não pode mais ser compreendido como uma ação
mecânica. Ao contrário disso, segundo o autor, construir um texto sobre a página
em branco pode ter um poder sobre a exterioridade. Ou seja, esse interessante
texto de Certeau nos mostra como, a partir de um certo período histórico, a escrita
não mais se limita a ser um registro do mundo, mas pode mudar a realidade.

120
A influência do aprendizado escolar no desenvolvimento da criança

121
O desafio de ensinar
a escrever bem nos dias de hoje
Você já parou para se perguntar por que o ato de escrever é uma dificul-
dade bastante acentuada para tanta gente? Se não o fez ainda, com certe-
za pelo menos assistiu a algum filme ou novela que representa a seguinte
cena clássica: a pilha de papéis amassados na cesta de lixo ao lado do escri-
tor vai crescendo assustadoramente e o pobre infeliz vai ficando cada vez
mais entristecido, pois, apesar de tanto trabalho, ele nada produz...

Pensando sobre essa inibição frente ao ato de escrever afirmamos, em


(RIOLFI, 2005b), que o trabalho com a escrita é, ao mesmo tempo, fasci-
nante e dilacerante. Ressaltamos que a escrita pode ter a magia de perpe-
tuar uma ideia, um pensamento, sentimentos e emoções à condição de
que seu autor se autorize a sustentar um exercício constante de reflexão,
paciência e perseverança. Reflexão sobre a questão mobilizada antes de
escrever; paciência para a busca das palavras mais adequadas; perseve-
rança para reescrever quantas vezes forem necessárias para alcançar a pa-
lavra justa. Naquela ocasião, dizíamos ainda que escrever é um exercício
constante de transformação. Se aquele que escreve está disposto a pagar
o preço de se perder para se reencontrar em seu próprio texto, a escrita
pode transformar tudo, inclusive o ser humano.

Será que sempre foi assim?

A invenção da escrita
Sabemos que a potência transformadora da escrita demorou a se ins-
talar na humanidade. A escrita surgiu em lugares diferentes, com fun-
ções diferentes. Para alguns povos, tinha função predominantemente
religiosa. Para outros, de acordo com Manguel (1998), a escrita foi desen-
volvida por uma necessidade econômica: a de registrar quantidades de
terras e de animais, bem como a de delimitar regiões geográficas. Para
tais fins pragmáticos, os sumérios desenvolveram uma tecnologia apro-
priada para suas necessidades específicas – a escrita cuneiforme. Manguel
mostra que, ao se apropriar dessa escrita rudimentar para fins diferentes
Linguagem e Pensamento

daqueles originariamente imaginados, nossos antepassados remotos foram,


paulatinamente, construindo um instrumento ainda mais potente e que causou
uma grande revolução da humanidade: o alfabeto fonético.

Por possibilitar infinitas combinações, po-

Domínio público.
dendo ser utilizado para atingir um grande
número de pessoas com uma única emissão
(como é o caso, por exemplo, dos outdoors) e
oferecendo uma fixidez maior que a da fala,
essa tecnologia foi, pouco a pouco, tornan-
do-se central na organização e na manuten-
ção de nossa cultura. Registrando normas
e procedimentos, compartilhando ideias e
Escrita cuneiforme.
checando a aprendizagem, a escrita é o ins-
trumento que pode proporcionar uma coerência de princípios filosóficos e ope-
racionais nas várias instâncias, pois, para além da fala, que pode ser negada ou
omitida, a escrita tem força de lei.

A mutação das funções sociais da escrita1


Nos mais variados lugares de nosso país aonde vou para ministrar cursos de
formação de professores, uma mesma pergunta é repetida por aqueles que se
dedicam ao ensino da escrita: “É ainda possível transmitir o amor pela escrita às
novas gerações?”. De uns tempos para cá, mais do que nunca, penso como res-
ponder a isso de forma sincera o dia inteiro. Ao fazê-lo, uma vozinha interna me
diz: “Claudia, não esquece que você foi formada em outro tempo, é fruto de outras
regras e, portanto, tem que explicar direito seu amor pela escrita.” Para contextu-
alizar meu confesso amor pela escrita, devo dizer que nasci em 1965, mas como
sou filha de pai velho, cresci em cidade do interior, e fui aluna de professores que,
na data de minha graduação, tinham bem mais do que 50 anos, a tradição cultu-
ral que em mim deixou sua marca é, sem dúvida, aquela anterior aos anos 1950.

Com certeza há, entre os meus leitores, pessoas que compartilham dessa he-
rança cultural, mas isso não é verdade para um grande número de pessoas que
estão na ativa como professores hoje, e ainda menos verdade para os alunos
que, atualmente, povoam as carteiras das escolas básicas. Hoje em dia, o laço
cultural que organiza nossas trocas sociais é outro. Cada um vale mais ou por

1
Nesta parte do texto, em decorrência da natureza bastante singular da argumentação que fiz no texto que lhe serve de base (RIOLFI, 2004), aqui
apresentado de maneira adaptada, peço licença ao leitor para usar a primeira pessoa do singular.

124
O desafio de ensinar a escrever bem nos dias de hoje

sua (boa) aparência ou pelo que tem do que pelo que é. Ou seja: nos últimos
40 anos, o discurso capitalista se impôs como uma realidade indiscutível, sendo
poucos os redutos nos quais não é ele quem dá as cartas e dita as regras do jogo.
Seu centro é o objeto, ou seja, aquilo que pode ser comprado por via do dinheiro,
usufruído para um prazer ou resultado imediato e, de preferência, rapidamen-
te trocado por um objeto mais novo, mais moderno. Corremos como baratas
tontas atrás das novidades, alimentando um mercado que demanda sempre
mais dinheiro, enriquece sempre alguém.

A maioria de nossos alunos funciona nessa lógica. Confrontados com os con-


teúdos escolares, os alunos querem saber que tipo de prazer imediato os conte-
údos podem lhes dar ou a sua serventia direta para ganhar dinheiro. Tive opor-
tunidade de escutar diversos relatos de professoras magoadas por alunos que as
interpelavam em sala de aula dizendo a seguinte frase ou suas variações: “Não
vou fazer nada do que a senhora está propondo, ganho mais em um dia ajudan-
do os traficantes do meu bairro do que a senhora em um mês dando aulas aqui.”
Eles não estão mentindo, é bom deixar claro. Estão apenas verbalizando em alto
e em bom som um processo que, em maior ou menor medida, é comum a todos:
a diluição dos valores morais e dos ideais formadores de conduta.

Os psicanalistas têm explicado essa diluição nos seguintes termos: eles dizem
que rompemos com a lógica de uma cultura centrada no pai, caracterizada por
um certo pensamento monotemático, por uma unidade de pensamento e de
orientação. É isso que tenho em mente quando me lembro dos meus quase 40
anos. Quando fui educada, os pais tinham poucas dúvidas sobre a direção na
qual deveriam encaminhar seus filhos e filhas. Na cabeça do meu pai, fã dos
ditos populares, o que valia no exercício de uma profissão era a seguinte frase:
“Você pode até ser um coveiro, mas seja um bom coveiro.”

Resumindo: o que estou querendo mostrar é que, para essas pessoas “anti-
gas”, a letra tinha muito peso na tradição cultural, tendo quase um valor de feti-
che. Aprendíamos a cultuar o bem escrever e a admirar os bons autores. Na cor-
rida matrimonial, ganhava pontos como parceiro quem soubesse escrever uma
poesia ou, ao menos, uma bela carta de amor ressaltando nossas qualidades.

Valia até copiar uma poesia do outro, mas que fosse bela, transcrita sem erros!
Se, por um lado, tratava-se de um tempo em que havia muitos analfabetos, por
outro, a letra estava no centro da cultura, e mesmo os analfabetos não lhe ne-
gavam o valor. Se verificarmos a história de nossas famílias, com certeza muitos
de nós nos depararemos com grandes sacrifícios feitos por algum antepassado

125
Linguagem e Pensamento

analfabeto para educar seus filhos, pois havia um certo consenso no fato de que
deveria ser preparado um melhor destino para as crianças e que este se obteria
por via da introdução dos descendentes na cultura letrada.

Por milhões de anos, mantivemos o caráter original da escrita: o de objeto


sagrado, originariamente inventado para servir de intermediário entre os
homens e Deus. Quem conhece a história da Bíblia sabe que em um de seus
livros (EXODO 31:8) está claramente indicado o fato de que as tábuas da aliança
entre os homens e o reino dos céus eram tábuas de pedra, escritas pelo dedo de
Deus. Independentemente das crenças religiosas de cada um, estudando a his-
tória do advento da escrita, somos obrigados a admitir que a escrita alfabética
como a conhecemos hoje surge na cultura ao mesmo tempo que a invenção do
monoteísmo, tendo, por longo tempo, funcionado como aliada na manutenção
da cultura centrada nos valores de um pai, como apontei logo acima.

O que estou querendo mostrar com esse recuo até a instalação do monote-
ísmo é que o estudo da história da escrita nos mostra, antes de tudo, como seu
advento e seus usos estão completamente ligados com o laço maior da cultura.
Portanto, não é possível estudar os fenômenos ligados ao uso, ao ensino e à
conservação da letra como prática social sem nos remetermos ao laço social de
forma mais ampla. É diferente considerarmos a letra como um fragmento do
sagrado, exigindo cuidado, conservação e transmissão sistemática, e a conside-
rarmos como uma tecnologia entre tantas outras possíveis. Manter a letra em
seu pleno funcionamento, persistindo no difícil esforço de bem articulá-la no
texto, demanda, pelo menos em algum grau, a insistência na manutenção de
uma sociedade na qual as regras são claras, e que, antes de tudo, é claro o fato
de que há regras a serem cumpridas e ensinadas para as crianças.

Isso que acabo de afirmar no parágrafo precedente equivale a dizer que, para
aquelas pessoas que são fruto de uma tradição cultural contemporânea, na qual
um pai não vale por sua mera condição de pai, mas pelo que pode ofertar em
termos de conforto material para sua mulher e filhos, a letra deixou de ter um
valor central. Estamos em face de um estranho paradoxo: no momento em que
caminhamos para “o extermínio” do analfabetismo, uma vez que, como nunca,
temos pessoas consideradas alfabetizadas, a letra foi esvaziada do seu valor.
Perdemos o amor pela escrita como um fator social generalizado, mantendo-o,
apenas, como um fenômeno isolado e pontual. O que temos hoje é uma insis-
tência no uso da letra como uma tecnologia instrumental.

Escrever para conseguir emprego, redigir para ser secretária e dissertar para
passar no concurso público são ações solidárias com a lógica da cultura capitalista,
126
O desafio de ensinar a escrever bem nos dias de hoje

ou seja, quanto mais “funcionarmos” dentro de uma lógica utilitarista, mais fare-
mos com que a letra perca seu poder, uma vez que a transformamos num objeto
como outro qualquer. Nossa cultura contemporânea é caracterizada pelo fato
de ser plural. Em seu seio, praticamente não há predomínio de uma opção em
detrimento das outras: quase tudo se pode escolher.

O problema principal nessa perda de estatuto sofrida pela letra é o fato de


que ninguém ama um objeto. A gente pode comprá-lo, usá-lo, trocá-lo, destruí-
-lo, mas quase nunca amá-lo. Consequentemente, cada vez mais, escreve-se de
qualquer jeito, sem cuidado, sem carinho, sem requintes de ternura para com
a mulher amada. Não é de se estranhar que, de norte a sul, uma mesma queixa
sobre a má qualidade da escrita dos alunos se imponha e, o que é pior, seja real.
Insistir nessa queixa é ajudar a enterrar os restos mortais da letra. Ninguém con-
vence a quem quer que seja a voltar ao passado, até porque seria impossível.

Assim sendo, o que resta ao professor fazer?

O papel do professor no
processo de aprender a escrever
Dadas as considerações de cunho cultural que acabamos de fazer no item
precedente, convidamos o professor para “deixar de chorar o leite derramado” e
olhar de frente a crise em que nossa geração se encontra. Para sermos eficazes
no ato de ensinar a ler e a escrever, é necessário abdicar completamente das vãs
esperanças de fazer com que nossos alunos vejam o mundo com os olhos de 50
anos atrás, porque, muito evidentemente, mesmo o professor mais competente
não tem uma máquina do tempo.

Retomando a pergunta que os professores costumam se fazer (“É ainda possível


transmitir o amor pela escrita às novas gerações?”), é necessário ressaltar que sua
reposta é, ao mesmo tempo, negativa e afirmativa. Ela é negativa para todo aquele
que pretende transmitir o seu amor pela escrita ao outro, sem levar em conta o fato
de que, na contemporaneidade, as crianças estão regidas por uma outra lógica.

Entretanto, ela é positiva para todo aquele que, não temendo aprender com
as lições do passado, olhe de frente para as mazelas do presente e, incluindo-
-se nelas, reflita sobre sua eventual responsabilidade e participação no estado
atual das coisas e ouse criar para si um novo modo de viver e para seus alunos
um novo modo de aprender. Tracemos, portanto, outros modos para trabalhar

127
Linguagem e Pensamento

com a escrita. É hora de nós, educadores, transformarmo-nos em “operários do


amanhã”. De preferência por escrito, dada a natureza de nossa profissão.

Tendo considerado essa decisão a respeito da importância de exercer seu papel


de mediador, é hora de trazer algumas informações de natureza mais técnica que
podem ajudar o professor a ensinar a escrever. Vamos dividir essa reflexão em duas
partes: a primeira versa sobre o que não se deve fazer no momento de auxiliar a
criança a se apropriar do código alfabético; e a segunda, por sua vez, traz algumas
indicações para facilitar o trabalho no momento de auxiliá-la a redigir melhor.

Auxiliar a criança a se apropriar do código


alfabético exige saber o que estamos fazendo
Para discutir sobre a centralidade do papel de mediador exercido pelo profes-
sor para que a criança possa se apropriar do código escrito, vamos analisar um
fragmento de aula de alfabetização registrado por Smolka (1989, p. 33).
São 35 crianças na sala de aula de uma 1.ª série. Os “ruins” ocupam duas fileiras à esquerda,
mas distante da mesa da professora, que se encontra no canto à direita. A professora começa e
escrever na lousa, em linha horizontal e letra cursiva: ma me mi mo mu mão.
Pede para as crianças lerem a última sílaba dizendo:
— Aqui vocês vão ler com ão.
As crianças “leem”.
A professora escreve uma segunda linha e pede para que as crianças leiam: na ne ni no nu não.
As crianças repetem. A professora pede para as crianças copiarem cada linha no caderno de
classe e depois no de casa. [...]
De frente para a lousa e de costas para as crianças, a professora pergunta:
— Se eu puser isso (aponta bo) aqui (na frente do né), como é que fica?
Uma criança fala:
— Boneca.
A professora pergunta, virando-se para as crianças:
— Quem falou boneca?
Ninguém responde.

Em sua análise a partir do fragmento acima, Smolka salienta que as crianças


não correspondem às expectativas da professora quando planejou sua aula. Elas
nem entendem o que era para fazer e nem realizam a tarefa conforme era es-
perado. Tendo constatado essa falha no processo educativo, a autora passa a se
ater no que a professora diz aos seus alunos no prosseguimento da aula.

Para nossa maior comodidade, em vez de transcrever a sequência da aula


toda, recortamos, a seguir, algumas das falas da professora.
128
O desafio de ensinar a escrever bem nos dias de hoje

— Quedê, você não fez nada? Nem o cabeçalho?


— Tem que fazer. Você não deixou espaço. Olha lá. Eu deixei espaço lá.
— Esse aqui é o bo. Tá errado, tá errado. Olha bem lá! Já copiou errado.
— Tá feio! Feio, fio. Seu o parece um a. Tem que melhorar a letra.
— Assim eu não gosto. Tem que fazer certinho, senão fica aquela misturança.
(SMOLKA, 1989, p. 8)

Todos sabemos como é desagradável criticar nossos colegas, mas, neste mo-
mento, convidamos você a fazer uma reflexão sincera: se entendermos que o tra-
balho do professor como mediador é, em primeiro lugar, fazer com que as crian-
ças entendam a função dos conhecimentos que devem aprender para, apenas
em um segundo tempo, introduzi-los, nós poderemos dizer que essa professora
sabia o que estava fazendo em sua sala de aula?

Se você entendeu o que estivemos discutindo até aqui, com certeza respon-
deu que não. Embora ela tenha se agitado muito, andado por todos os lados na
sala de aula, olhado os cadernos etc., somos obrigados a admitir que ela não
ajudou em absolutamente nada para que seus alunos pudessem se apropriar
do alfabeto fonético como um instrumento e, a partir dessa apropriação, desen-
volvessem padrões de pensamento que pudessem proporcionar a instalação do
complexo trabalho da escrita propriamente dito.

Deixemos que Smolka conclua a respeito do que acontece quando um adulto


age desse modo:
Os efeitos desse ensino são tragicamente evidentes, não apenas nos índices de evasão e
repetência, mas nos resultados de uma alfabetização sem sentido que produz uma atividade
sem consciência: desvinculada da práxis e desprovida de sentido, a escrita se transforma num
instrumento de seleção, dominação e alienação. (SMOLKA, 1989, p. 38)

Para concluir esta parte da reflexão, gostaríamos de registrar, ainda, que caso
tivéssemos tido a oportunidade de dar apenas um conselho para a professora que
serviu de informante para a pesquisa de Smolka, esse conselho seria ao mesmo
tempo simples de ser enunciado e bastante complexo de ser cumprido. Ele se
resumiria na seguinte frase: não negue conhecimento aos seus alunos.

Auxiliando a criança a redigir melhor


Para refletir sobre o trabalho que se faz para
Você já parou para
ensinar a redigir após a aquisição do alfabe-
refletir como escrever bem
to propriamente dita, queremos recuperar as
é extremamente difícil?
ideias desenvolvidas em um de nossos últimos
trabalhos (RIOLFI et al., 2005).
129
Linguagem e Pensamento

Nossa equipe de pesquisa esteve um tempo muito curiosa para entender por
que escrever bem parece ser tão difícil para um grande número de pessoas e,
de fato, gastamos bastante tempo para explicar isso. A partir de um cuidadoso
trabalho de pesquisa, chegamos à conclusão de que a instalação do “trabalho
da escrita” (isto é, das operações que nos levam a escrever direito) depende da
relação que o sujeito tem com o seu outro, para quem escreve. Traduzindo em
miúdos: se o indivíduo é um leitor sofrível, aí estará um escritor medíocre...

Por que isso acontece? Porque, se for um bom leitor, o professor sabe onde
incidir para levar o seu aluno a aprender a ler criticamente o que ele mesmo
escreveu. Não é possível produzir um bom texto apenas andando para frente: é
preciso aprender olhar para trás, analisar o que está escrito e deixar que o pró-
prio texto, por assim dizer, diga-nos como melhorá-lo. Quando o ato de escrever
deixa de ser uma tarefa chata e se transforma em um importante ganho cultural,
o aluno entra em contato com um tipo bastante específico de trabalho de retro-
ação que pode alterar sua relação com sua palavra, sua história, sua vida.

O que determina Tomando-se o que uma criança ainda pequena pode


a qualidade final produzir como parâmetro, podemos dizer que um texto
de um texto? está bem escrito quando ele não apresenta grandes difi-
culdades de compreensão para um grande número de lei-
tores, ou seja, quando se trata de um texto que tenha vocação à universalidade.

O que é necessário para escrever um texto assim? Ora, essa complexa tarefa
demanda duas pré-condições no que se refere à relação com o leitor:

 que o escritor possa assumir parcialmente o lugar do outro e deixar que


seja esse lugar que lhe dê as diretrizes norteadoras para decidir sobre
a manutenção, supressão ou alteração de cada um dos segmentos que
compõem o texto escrito;

 que o escritor possa esquecer parcialmente esse mesmo lugar, deixando


que a lógica interna do texto vigore, podendo, assim, sustentar e justificar
cada uma das operações discursivas realizadas para a construção da ficção
textual (RIOLFI et al., 2005).

Concluindo, a qualidade do produto final da escrita é estritamente depen-


dente da representação que faço de meu sujeito leitor e dos modos por meio
dos quais o incluo (ou não) no texto que estou escrevendo. Se, para os escritores
proficientes, é possível já ter incorporado em si o outro que se torna puro cálcu-
lo durante o trabalho, para os escritores iniciantes, esse cálculo é realizado de

130
O desafio de ensinar a escrever bem nos dias de hoje

modo precário a partir dos indícios que pode obter do seu professor, argumento
esse que só reforça a importância da função do professor como mediador.

Texto complementar

Prefácio1
(POMMIER, 1993, p. 5-14)

Na maior parte das vezes, minha mão me obedece. Não obstante, a


mestria sobre as formas que traço usualmente me escapa quando escre-
vo. Relendo minhas notas, e pensando no que queria exprimir, me descu-
bro frequentemente em falta, se não de ortografia, pelo menos de estilo ou
legibilidade. Teria eu verdadeiramente escrito para ser lido? A quem se en-
dereçam os rabiscos feitos na margem de um pedaço de papel, rabiscados
quando as ideias se apressam e devem ser anotadas antes de desaparecer?
Desse modo, o lugar de onde vem a minha escrita é o que primeiramente
me escapa no momento de interrogar sobre a origem da escrita. A aprendi-
zagem escolar não caracteriza essa proveniência e, quando me acontece não
poder escrever, não é graças a uma técnica ensinada que consigo superar a
angústia da folha em branco.

Aquele que acabou de escrever é capaz de dizer de onde procede aquilo


que, na forma de suas letras, pertence exclusivamente a ele mesmo? Ele
poderá explicar facilmente o conteúdo, os pensamentos, as ficções, as in-
formações comunicadas por seu texto, mas não dirá nada sobre a origem
de sua escrita, independentemente do que ela significa. Eis o motivo para
interrogar a história das grafias, observar as primeiras evoluções formais das
letras, examinar as condições e as modalidades desse desenvolvimento. Bus-
cando responder a essas questões, aprenderei, quem sabe, que um cuidado
idêntico ao dos primeiros inventores me habita quando procuro alinhar pa-
lavras sobre o papel.

O problema da origem da escrita pode ser abordado considerando sua


evolução ao curso dos últimos milênios. Trata-se de examinar o importante
1
Tradução de Cristine Maria Tedeschi Conforti e Andreza Roberta Rocha.

131
Linguagem e Pensamento

material arqueológico hoje disponível, de organizá-lo segundo suas inva-


riantes e sua cronologia e, eventualmente, interpretar suas modificações. A
gênese da escrita pode também ser estudada examinando-se sua aquisição
individual. É conveniente, então, observar como as crianças se põem a escre-
ver segundo os procedimentos conhecidos das regras gerais e das exceções.
As dificuldades de integração da leitura e da escrita merecem uma atenção
particular, porque elas permitem desembaraçar os pontos de sustentação
externa e, por consequência, as etapas dessa iniciação. Lá, ainda, o pesquisa-
dor poderá tentar interpretar essa evolução.

Uma longa história de escrita precede o momento em que uma criança


se apodera dos signos do alfabeto. Que analogias existem entre a aprendiza-
gem individual da escrita e as etapas que a humanidade precisou atravessar
para descobri-la? Há quem pense que tal semelhança de destino determi-
naria que a escrita seja um instrumento de comunicação progressivamente
aprimorado por aproximações sucessivas. Uma vez experimentada sua téc-
nica, ela teria sido em seguida transmitida às gerações seguintes. Segundo
uma tal concepção, bem ocidental, a escrita teria progredido por etapas, e
sua forma mais prática, o alfabetismo, teria finalmente superado a pictogra-
fia e o silabismo. Esses aprimoramentos sucessivos de procedimentos de
transcrição das mensagens seriam, em seguida, aplicados à aprendizagem a
ser cumprida por cada criança. Em consequência, o conhecimento da histó-
ria da escrita e de seus estágios poderia ainda ser útil para fazer os escolares
compreenderem como formalizar suas letras.

Os egípcios, por exemplo, utilizavam a acrofonia para isolar algumas


de suas consoantes. Quem não seria tentado a imaginar que a descoberta
dessas letras se efetua do mesmo modo como o alfabeto continua a ser en-
sinado às crianças? A letra A não é compreendida graças a sua acrofonia com
Ana, a letra B graças a balão etc.? Nos esqueceríamos, assim, que se trata de
um método mnemônico inventado pelos adultos e que resiste a numero-
sos sintomas que têm o valor de uma útil evocação à ordem: um modelo
histórico não pode ser comparado a técnicas destinadas a facilitar a apren-
dizagem, pois elas não são, indubitavelmente, a própria aprendizagem.
Dentro de um louvável cuidado pedagógico, deseja-se ajudar as crianças
com procedimentos supostamente análogos aos da invenção do alfabeto,
mas transmitir-lhes um instrumento inventado antes delas não será sempre
o mesmo que deixá-las descobrir por si mesmas. Quando a hora chega, as
crianças não inventam, por si próprias, a chave da escrita e, se elas não fazem

132
O desafio de ensinar a escrever bem nos dias de hoje

esse trabalho solitariamente, não se torna impossível transmitir-lhes as for-


malizações gráficas próprias de sua cultura?

Possivelmente, a descoberta histórica da escrita e sua aprendizagem in-


dividual seguem o mesmo caminho. Mas, para sustentar essa hipótese de
uma correspondência entre filogênese e ontogênese, é preciso mostrar que
as etapas de certas invenções, elaboradas em alguns milênios, devem ser
novamente transpostas em poucos anos por cada criança. Se assim sucede
com a escrita, ela brilhará muito pouco por sua originalidade. De outras des-
cobertas, conhece-se o mesmo destino: é duvidoso que o homem soubesse
caminhar ereto se ele crescesse fora do abrigo cultural. Mesmo a possibilida-
de de falar depende de um aprendizado, senão de uma técnica. No entanto,
a língua não se aprende no sentido usual do termo, pois, se a linguagem
constitui o objeto dessa iniciação, o próprio sujeito faz parte desse objeto.
Essa apropriação da língua é um fato cultural, se bem que, por outro lado,
cada criança se engaja na palavra segundo seu ato próprio de apreensão.

Existem muitas invenções semelhantes na história da humanidade. Cada


um deve refazê-las por si, porque é sujeito delas. A escrita faz parte dessas
descobertas. É verdade que existem sociedades ditas “sem escrita”, que não
parecem ter se imposto tal obrigação. Não obstante, todas as civilizações,
sem exceção, têm uma prática da arte, seja por meio do desenho ou da es-
cultura. Suas representações artísticas, o denominador mínimo comum da
humanidade, quiseram se fazer portadoras de uma mensagem que ainda se
endereça a nós. Entre esta universalidade, um número maior de culturas ela-
borou uma escrita ideográfica. Mais raras ainda foram aquelas que utilizaram
ideogramas. Por fim, apenas algumas utilizaram o recurso dos alfabetos.

[...] Quando traça um desenho, a criança se representa e apresenta inicial-


mente seus sonhos; seus desenhos são traçados segundo as dimensões oníri-
cas que ela projeta: a evolução de suas representações segue então o mesmo
trajeto que o de seus sonhos, cuja lembrança se perde sempre, mais ou menos,
no recalcamento. Sabemos no que nossos sonhos transformam: esquecemo-
-los quase todos, pois eles encenam um prazer que ocultamos. Da mesma
forma, se os primeiros desenhos possuem um valor idêntico ao dos sonhos,
não serão eles, em si, sujeitos a um recalcamento cujo resto será escrita?

Eis, então, o que este livro deseja explorar: os primeiros desenhos apre-
sentam os fantasmas que estarão sujeitos ao recalcamento até o ponto em
que o retorno do recalcado se escreve na letra. Entre o espaço do desenho

133
Linguagem e Pensamento

e o da letra, convém, consequentemente, localizar o evento diacrônico do


recalcamento. Se uma criança não consegue escrever antes de certa idade,
não é porque ela seria incapaz tecnicamente mais cedo. Com efeito, antes de
estar em condições de formar as palavras, ela já conduziu a termo operações
mais complexas que a de fazer corresponder um som e um signo. Se ela não
pôde fazê-lo até então, é provavelmente porque sua relação com a represen-
tação pictórica, seu valor psíquico, impedia-a. Quando completar um certo
caminho com relação aos desenhos, a criança se porá a escrever, ainda que,
quão inteligente fosse ela, não pudesse tê-lo feito antes.

[...] Se alguém deseja manter a hipótese de uma invenção da escrita


comum à história da humanidade e à de cada um de seus membros, será
necessário igualmente examinar uma origem da letra pertinente em todas
as ocorrências em que está em questão a transmissão de uma mensagem
e estabelecer uma definição mais ampla que aquela à qual estamos acostu-
mados. É necessário examinar o que pode haver em comum entre o sonho,
o desenho, o pictograma e a letra do alfabeto. A instância da letra no incons-
ciente, tal como a psicanálise a define, não permite situar essa primeira for-
malização da escrita, comum a todos, ainda que cada um deva reinventá-la?
Qualquer que seja a maneira pela qual comunique sua mensagem, poder-
-se-á mostrar que o grafismo do homem descende do pensamento.

[...] O que há em comum entre o que hoje me permite traçar letras e


aquele que, há muito tempo, atribuiu um significado estável a alguns dese-
nhos? Diante dessa questão, descobri, talvez, o que me faz irmão do escriba
e do mandarim. Do sacerdote do faraó, mestre da escrita, dando seu beijo
da manhã à estátua divina, recitando-lhe nos ouvidos seus próprios textos,
como se, sem ela (a estátua), não pudesse rememorá-los. Do adivinho chinês
lendo os primeiros signos do destino graças aos bastões incandescentes que
ele guiava sobre cascos de tartaruga, escrevendo os primeiros caligramas
no fundo de vasos onde a ninguém ocorreria lê-los: no início, escrito para os
deuses! Irmão da criança rabiscando seus desenhos cuja forma não convém
mais a suas obsessões, riscando seu desenho como se explorasse inocente-
mente o interdito da representação, rasurando e descobrindo uma letra que
não se parece com nada e, portanto, significa.

A cada vez que escrevo uma palavra nova, em que me assemelho ao es-
criba, ao mandarim ou à criança? Como os corpos dormindo à noite, dis-
solvidos na obscuridade, ligam-se ao fio de suas vidas graças à escrita tenaz

134
O desafio de ensinar a escrever bem nos dias de hoje

de seus sonhos? Como aqueles em vigília bem tarde, quase até a manhã,
debruçados sobre o papel branco: as letras que eles traçam não guardariam
seus semelhantes, os adormecidos, e elas não lhes permitiriam repousar em
paz? Espécies de sentinelas, irmãs do hieróglifo onírico, elas tecem sobre a
cidade a rede que impede os sonhadores de se perderem em suas canções,
elas os acompanham até o despertar e lhes chamam para o dia. Como foram
traçados os primeiros signos capazes de falar por nós em nossa ausência?
Aprenderemos a traçá-los sempre em nós para além de nossa aparência?

Atividades
1. Em que medida a escrita influencia na organização social do ser humano?

2. Em que medida um professor que deseja transmitir o amor pela escrita às


novas gerações pode esperar ser bem-sucedido?

135
Linguagem e Pensamento

3. É mais importante que o professor faça os alunos compreenderem as fun-


ções dos conhecimentos do que ensiná-los de maneira isolada? Justifique.

Dicas de estudo
ALLOUCH, Jean. Letra a Letra: transcrever, traduzir, transliterar. Rio de Janeiro:
Campo Matêmico, 1995.

Esse livro não é um daqueles que se destaca por sua clareza e, muito menos,
pelo fato de se tratar de um texto fácil para se ler. Entretanto, todos aqueles que
se dispuserem a pagar o preço de gastar algumas (muitas) horas de estudo perse-
guindo o raciocínio deste francês incansável para compreender os três registros
distintos do ato de escrever que são dissecados pelo psicanalista (transcrever, tra-
duzir e transliterar) com certeza ganhará em profundidade e em consistência na
reflexão sobre o ato de escrever. Embora não se trate de um livro sobre o ensino
da escrita, ao tomar a letra como seu objeto de estudo ele nos dá alguns elemen-
tos muito significativos para refletir sobre a história da escrita na humanidade,
sua apropriação pelos sujeitos e, consequentemente, sobre seu ensino.

136
O desafio de ensinar a escrever bem nos dias de hoje

137
Perspectiva histórico-social: a aula de Língua
Portuguesa e seus textos nela produzidos
Você já parou para refletir como são diversificados os modos de rela-
ção dos professores com as teorias que circulam no meio universitário?
Se já o fez, com certeza pode perceber o seguinte: alguns professores
estão engessados por suas opções teóricas, as quais elevaram ao estatuto
de dogma. Outros, que não tiveram a oportunidade de aprofundar seus
estudos e compreenderem-nas profundamente, carregam-nas como se
fossem profissões de fé. Os mais aguerridos agitam-nas ao público como
se tratasse de causas a serem defendidas a qualquer preço. Por último, os
discretos consideram-nas como opções particulares necessárias para dar
coerência e consistência a sua prática investigativa e pedagógica.

Tão diversos entre si, tão parecidos no seguinte traço: todos acham
desagradável quando alguém questiona as suas opções, uma vez que é
necessária muita coragem para colocar anos de experiência na balança
e refletir sinceramente se o que você aprendeu com eles continua valen-
do no presente. Por esse motivo, iniciamos este capítulo visando refletir
sobre a aula de Língua Portuguesa e analisar os textos nela produzidos
sob uma perspectiva histórico-social. Para tanto, convidamos o leitor para
se afastar o máximo possível de “sua opinião formada sobre tudo” e, como
recomendava nosso saudoso Raul Seixas, estar permeável para tornar-se
uma “metamorfose ambulante”. Feito esse primeiro alerta, façamos nossa
primeira parada no Brasil.

O pensamento sobre a alfabetização no Brasil


Para melhor contextualizar as diversas tendências de discurso sobre a al-
fabetização em nosso país, é importante recuperar uma denúncia que serve
como ponto de partida para o trabalho de Magnani (1997): o fato de que,
contaminados pelo que se pode chamar de furor novidadeiro, os brasileiros
estão sempre tentando se desvencilhar das tradições para que se produzam
“novas metodologias”, supostamente mais adequadas para superar os desa-
fios concretos que os professores encontram em sala de aula.
Linguagem e Pensamento

Visando superar essa prejudicial tendência que apaga nosso passado e, con-
sequentemente, condena-nos a um eterno patinar no mesmo lugar, a autora faz
uma rigorosa pesquisa de fundo histórico para mostrar como a crescente impor-
tância dada à alfabetização pelos governos esteve sempre atrelada a um projeto
político de modernização social. No quadro 1, a seguir, o leitor encontrará os
principais momentos de um século de discussão sobre a alfabetização, confor-
me Magnani.

Quadro 1 – Tensão entre os “modernos” e os “antigos” em cem anos de alfa-


betização no Brasil

Predomínio dos métodos que ensinam a escrever a partir da insistência


Antes de 1880
na soletração e na silabação.

Silva Jardim divulga o “revolucionário método” João de Deus, baseado


1880
na palavração, para o ensino da leitura (método sintético).

Miss Márcia Browne introduz no Brasil a seguinte diretriz: iniciar o ensino


Início da República
de leitura pelo todo, e decompô-lo (método analítico).

A polêmica criada entre os seguidores de Silva Jardim (partidário do


método sintético) e Márcia Browne (partidário do método analítico) co-
1930
meça a decrescer a favor da tentativa de construção de uma solução
intermediária: o método misto (ou eclético).

Lourenço Filho publica os testes ABC – medidas de maturidade para o


1934 aprendizado na leitura e na escrita, objetivando a “organização racional
e homogênea” das classes de alfabetização.

A discussão sobre o método mais eficaz cede lugar à investigação sobre


as causas da repetência e da evasão. Cresce o número de investigações
Década de 1970
sobre as “patologias” e, depois, sobre os condicionantes sociais e econô-
micos do fracasso escolar.

O construtivismo, inspirado nos trabalhos de Piaget e seguidores (em


especial, Emília Ferreiro), ganha hegemonia em nosso país.
Década de 1980
Com a “descoberta” do interacionismo, iniciam-se as críticas ao constru-
tivismo.

Começam a se configurar as disputas pela hegemonia de projetos para


Década de 1990 o ensino inicial da leitura e da escrita em estreita relação com os projetos
político-sociais.

Magnani justifica o esforço gasto para pesquisar 100 anos de história de


nosso país: evitar um efeito nefasto que as discussões levadas a cabo no interior
das universidades costuma exercer sobre os professores – cegá-los para o seu
cotidiano educacional. Identificados com uma perspectiva que aprendem pri-
meiro “no papel”, sem a necessária reflexão sobre ela, os profissionais da educa-
ção passam a divulgar sua experiência com a certeza de estarem de posse de uma
verdade inquestionável (MAGNANI, 1997, p. 46). Por esse motivo, constrói uma

140
Perspectiva histórico-social: a aula de Língua Portuguesa e seus textos nela produzidos

sistematização da cronologia aqui previamente exposta, dessa vez destacando


qual era a “verdade inquestionável” que predominava em cada um dos períodos.
Para conhecê-las, confira o quadro 2.

Quadro 2 – Momentos históricos cruciais para a constituição da alfabetiza-


ção como objeto de estudo no Brasil

Época Discussão predominante No que ela consiste?

Método João de Deus X Os partidários da palavração conde-


1876-1890 nam os partidários da soletração e da
métodos sintéticos silabação.

Os partidários dos métodos analíticos


Métodos analíticos X métodos
1890-1930 condenam os partidários dos métodos
sintéticos
sintéticos.

Meados da década Os partidários dos métodos ecléticos


Métodos ecléticos X métodos
de 1920 - final da condenam os partidários dos métodos
analíticos
década de 1970 analíticos.

Os partidários do construtivismo con-


denam os partidários de tudo o que foi
Final da década de Construtivismo X métodos tra-
feito antes, atribuindo a todos a mesma
1970 - final da dé- dicionais
importância: a dos métodos tradicionais.
cada de 1990 Interacionismo X construtivismo
Os partidários do interacionismo conde-
nam os partidários do construtivismo.

Como você já deve ter percebido, a pesquisa de Magnani conclui-se com o


fim do século XX, e é exatamente aqui que nosso trabalho começa. Guardemos
essa lição sobre a relevância de não se “perder o pé” da história de nosso país e
agreguemos a ela uma perspectiva política que defenda o aprendizado da leitura
e da escrita como um direito da participação do sujeito humano na cultura de
seu tempo e também uma perspectiva de ser um produtor de sentidos válidos no
presente e aptos a construir um futuro. Essa recomendação é feita aqui no sentido
de nos fornecer um terreno mais seguro para alargar nossa reflexão e interrogar
os padrões de interlocução verbal e seus efeitos na aula de Língua Portuguesa.

A interlocução verbal
na aula de Língua Portuguesa
Para melhor contextualizar nossa reflexão, a interlocução verbal na aula de
Língua Portuguesa, vamos recorrer brevemente a um exemplo já explorado por
nossa equipe de trabalho (RIOLFI et al., 2005) com maior detalhamento. A seguir,
você vai encontrar um registro de uma aula de Língua Portuguesa feito em 2003

141
Linguagem e Pensamento

por uma das autoras do livro Ensinar a Língua Portuguesa no Século XXI: desafios e
perspectivas para o Ensino Fundamental II, em um momento de sua vida em que
ainda não era professora de Língua Portuguesa, mas aluna de Letras, cumprindo
suas obrigações de estagiária.

Trata-se do retrato de um acontecimento registrado pela pesquisadora em


seu diário de campo com riqueza de detalhes, inclusive com seus comentários
de cunho pessoal. É importante perceber preliminarmente o olhar perplexo de
quem anotou a aula, olhar esse ainda não gasto/contaminado pela indiferença
e o descrédito que grassa na contemporaneidade. Antes de prosseguirmos com
nossa reflexão, examinemos as cenas descritas pela “novata”.

Cada qual faz o que quer!


Neste dia, no primeiro horário, observei uma “aula” surreal! Com o desen-
rolar dos eventos, fiquei pensando que o acompanhamento individual da es-
crita do aluno é importante, mas não do modo como ele estava sendo feito.
Percebi dois problemas: 1) a professora estava corrigindo somente a forma
das redações (no caso, se o mesmo seguia o padrão de “abaixo-assinado”) e
ignorando os aspectos ligados à Língua Portuguesa propriamente dita; e 2)
dado que não havia nenhuma outra atividade preparada para o restante da
sala, o acompanhamento individual estava sendo prejudicial à classe como
um todo. A professora dirigiu uma única frase para o grupo durante os 45 mi-
nutos que lá permaneceu: “Pessoal, quem já tem o ‘abaixo-assinado’ pronto,
traz que eu vou dar visto.” Obedientemente, os alunos levavam o texto até a
professora, que os verificava protocolarmente.

...enquanto isso...

 Dois ou três grupinhos ficaram conversando baixo.

 Um aluno ficou cantando e beijando o rosto de quase todas as meni-


nas da sala.

 Um casal permaneceu com os rostos encostados na carteira, beijando-


-se e cochichando ao mesmo tempo.

 Um outro aluno fazia ginástica no meio da sala, dançando capoeira,


“plantando bananeira” etc.

142
Perspectiva histórico-social: a aula de Língua Portuguesa e seus textos nela produzidos

 Uma aluna deitou sua cabeça na carteira e dormiu durante a aula toda.

 Algumas alunas olhavam silenciosamente o ambiente de bagunça e


a indiferença da professora. Depois, olhavam para mim, parecendo
constrangidas com a situação.

A professora continuava indiferente a tudo isso e, maquinalmente, escre-


via o “visto” nos cadernos dos alunos. Tocou o sinal. Acabou a “aula” de Língua
Portuguesa.

Refletindo sobre a aula de Língua Portuguesa cuja Você acha que


descrição você acaba de ler, você pode até acreditar na alguém aprendeu
boa-fé da professora, que estaria cumprindo sua obri- alguma coisa?
gação de “dar visto nos cadernos”, mas, provavelmente,
terá mais dificuldade para fazer uma lista sobre os conteúdos relativos à escrita
que foram aprendidos durante essa aula.

Não se trata nem do fato de que a professora não apresentou conteúdos


novos durante 45 minutos, pois todos sabemos que, muitas vezes, em nome de
um maior aprofundamento de um ou outro tópico, é necessário permanecer
nele por um período maior. Ao contrário disso, nossa restrição incide sobre o
fato de que não houve nenhum esforço, por parte da professora, para organizar
um ambiente de trocas verbais entre os alunos que pudesse levá-los a se enga-
jarem em um trabalho e, consequentemente, desenvolverem um estágio mais
elaborado de seus conhecimentos sobre a escrita. Paralelamente, sua própria
“produção verbal” é muito restrita, apresenta baixíssimo nível de informativida-
de e não apresenta qualquer desafio intelectual a seus alunos. “Pessoal, quem
já tem o ‘abaixo-assinado’ pronto, traz que eu vou dar visto” é o tipo de fala que
mantém os sujeitos exatamente no lugar onde estão.

Independentemente da filiação teórica declarada pela professora cuja aula


nossa estagiária assistiu, uma coisa é certa: em sua prática concreta, essa pro-
fissional não estava levando em conta a importância que tem sua ação para au-
xiliar a mediação necessária para a construção dos conhecimentos em aula. Em
suma: aquilo que ela fazia parecia vir de nenhum lugar e ir para lugar algum, ou
dizendo de outro modo, a interlocução entre professor e aluno existente em sua
aula de escrita não estava inscrita na história – limitava-se a um fazer estereoti-
pado e sem maiores questionamentos.

Para concluir nossa reflexão sobre a aula de Língua Portuguesa e os textos nela
produzidos, vistos sob a óptica da perspectiva histórico-social, vamos recorrer
143
Linguagem e Pensamento

ao trabalho de Klein (1997), um dos principais expoentes brasileiros no que se


refere à investigação sobre a alfabetização vista dessa óptica.

É importante frisar, preliminarmente, que, longe de fazer um discurso partí-


cipe do narcisismo humano, que coloca as individualidades em primeiro lugar,
a autora parte do princípio de que, acima de tudo, e em primeiro lugar, é ne-
cessário não negar ao aluno as “condições de civilização”, ou seja, assumir que o
processo de humanização se dá “pela radical e inteira socialização do indivíduo”
(KLEIN, 1997, p. 86).

Especificamente no que se refere ao ensino da escrita, a autora afirma:


A partir, portanto, de uma compreensão histórica do homem, é possível afirmar que o contato
da criança e sua ação sobre os símbolos da escrita, ainda que esses símbolos estejam organizados
correta e significativamente como linguagem, não garantem, por si sós, que a criança aprenda
a linguagem escrita. Isso porque, nesta circunstância, o aprendiz estará diante de um punhado
de “coisas” que não configuram a linguagem escrita. É preciso que haja homens utilizando de
forma real a linguagem para que ela se configure enquanto tal. (KLEIN, 1997, p. 99-100)

Que lições podemos A citação é bastante rica, mas, em primeiro lugar,


tirar da citação que parece-nos necessário destacar que, na perspectiva
acabamos de ler? adotada pela autora, não se pode tentar ensinar uma
criança a escrever sem levar em conta sua inserção no
“mundo dos homens”. Não se trata de aprender a escrever por escrever: pelo
contrário, trata-se de fazer nosso aluno compreender que aprender a escrever
consiste em uma importante conquista de um instrumento precioso.

Acompanhando a evolução da humanidade, é possível perceber que a es-


crita não serve apenas para registrar a história – aliás, uma de suas importan-
tes funções – mas também, em grande medida, ao nos auxiliar a compor textos
que possam formatar novos modos de pensar em nossa sociedade, fornece-nos
alguns meios para construí-la.

A aula de escrita
gerando desenvolvimento
subjetivo para o professor e seu aluno
Para concluir de maneira mais concreta nossa reflexão sobre uma prática de
ensino de escrita que não atinge nem o professor nem seu aluno da história da
qual são partícipes, vamos recorrer a um belo trabalho de ensino de Língua Por-
tuguesa já explorado parcialmente em trabalho anterior (RIOLFI, 1999).
144
Perspectiva histórico-social: a aula de Língua Portuguesa e seus textos nela produzidos

Como será que isso aconteceu? Não vamos recuperá- Como será que
-lo em sua integralidade, evidentemente. Trata-se aqui isso aconteceu?
apenas de recortar um pequeno fragmento da prática
pedagógica da professora S que, ao compreender o caráter histórico do homem,
levou-o em conta no planejamento de suas aulas e, com bastante insistência,
conseguiu uma preciosa conquista: fazer com que um aluno de 13 anos, que
vinha se negando obstinadamente a escrever qualquer coisa que fosse, produ-
zisse seu primeiro texto escrito.

É importante ressaltar que esse primeiro sim dito à escrita não se deu de
modo isolado: ele foi contemporâneo à suspensão do emudecimento de alguns
alunos, que, vindo a se envolver profundamente com um longo projeto de tra-
balho de pesquisa sobre as histórias de suas famílias e da construção da sua
cidade – Foz do Iguaçu –, acabaram por poder assumir, em primeira pessoa, sua
história de vida. Em equipe, os alunos produziram o volume Escrevendo a História
de Foz do Iguaçu, cujo sumário segue abaixo para maior conhecimento do leitor.

1. História de Foz do Iguaçu

2. Pontos Turísticos

2.1 Parque Nacional do Iguaçu

2.2 Cataratas do Iguaçu

2.3 Marco das Três Fronteiras

2.4 Salto do Macuco

2.5 Ponte da Amizade

2.6 Ponte da Fraternidade

2.7 Itaipu Binacional

2.8 Ecomuseu

2.9 Aeroporto Internacional

2.10 Cassino Acaray e Cidades Paraguaias

3. História de Nossa Turma

4. Comentário

5. Referências Bibliográficas

145
Linguagem e Pensamento

Assim sendo, após o trabalho quase heroico para organizar uma turma de
adolescentes para, de fato, construir um projeto comum, a professora S – que,
durante um longo tempo lamentava o fato de que dois de seus alunos nada es-
creviam, e mesmo quase nada falavam se não se levasse em conta os momentos
de bagunça generalizada – teve o prazer de se surpreender com a boa adesão de
um de seus alunos ao trabalho em um dia decretado por ela como sendo o “dia
de falar sobre a vida”, atividade de transição entre a pesquisa dos documentos
oficiais da cidade e a investigação das histórias oficiosas das famílias.

Nesse dia, seu aluno Pedro, cuja voz mal conhecia, falou ao grande grupo
pela primeira vez, ainda que apenas para responder, bastante laconicamente, às
perguntas dos colegas sobre sua vida. Embora não parecesse muito à vontade,
após quase um ano de trabalho intenso por parte da professora, nosso aluno
escreveu um texto pela primeira vez.

Não era um texto qualquer, pois, como o leitor poderá comprovar logo abaixo,
inscreve o menino em uma linhagem, dando a ele um lugar na história de Foz do
Iguaçu. Convido, então, o leitor a ler generosamente o texto de Pedro.

Tenho 13 anos meu nome e pedro meu pai tem 39 anos seu nome e sebas-
tião e minha mãe tem 39 anos seu nome e maria eu naci no paraguai o meu pai
na bahia e minha mae nasceu em minas gerais e eles foram morar no paraguai
mas meu pai ouviu falar uma conversa que tinha uma obra grande no brasil e ia
ficar muita gente e dai o meu pai comprou um lote aqui no brasil isto já faz 10
anos que nos viemo morar aqui para o meu pai trabalhar na obra logo que nos
viemo para ca o meu pai ja fichou na obra e trabalhou seis anos depois eles foi
despedido ele voutou para o paraguai trabalhou na agricultura mas ele deijou
nos no brasil para estudar e ele de todo 15 dias ele vem visistar nos.

Remontando às suas origens, Pedro narra, O que, de uma perspectiva


ao mesmo tempo, seu drama familiar e dá a histórico-social, o trabalho da
ver os efeitos da construção da hidrelétrica de professora S nos ensina sobre
Itaipu nas correntes migratórias em seu local a aula de Língua Portuguesa?
de implantação. Seu texto, embora muito pro-
blemático do ponto de vista da norma padrão, consiste numa bela denúncia sobre
as dificuldades enfrentadas pelas famílias cujos “chefes”, acossados pelo desempre-
go, são obrigados a mudar não só de cidade mas até de país.

Concluindo nossa reflexão sobre a aula de Língua Portuguesa, relembremos


que levar em conta a necessidade de assumir-se como partícipe no processo
de humanização de seus alunos – que se dá pela sua socialização, isto é, sua
146
Perspectiva histórico-social: a aula de Língua Portuguesa e seus textos nela produzidos

inserção consequente na civilização em que grande parcela da população está à


margem – exige do professor que, ao longo de todas as fases de seu trabalho, ele
não esqueça do caráter histórico do homem, incluindo ele próprio.

Ao relembrar o que tem sido a história da humanidade e analisar o papel de


cada um dos instrumentos que construímos em suas grandes transformações,
aquele que ensina a escrever não corre o risco de tornar-se o títere vivo das ten-
dências da moda e, consequentemente, conduzir sua prática de um modo que,
até por ele mesmo, é ignorado. Se, por um lado, é verdade que jamais temos in-
teira consciência de tudo o que fazemos, por outro, não podemos esquecer que,
para além do trabalho mecânico, há o gosto por aquilo que fazemos, o prazer de
partilhar as conquistas, a obrigação ética de registrar nossas descobertas, para
que outros dela também se beneficiem.

Nessa direção, a discussão sobre qual seria o melhor método perde sua cen-
tralidade, uma vez que é substituída por uma reflexão cultural mais ampla na
qual a questão dos métodos e técnicas localizados é apenas um detalhe.

Texto complementar

A vida não é torre de Hanói


(MITSUMORI, 2005)

Eu, por tantas e tantas vezes, desejei que a vida fosse torre de Hanói. Sabe
aquele jogo em que você tem que transportar uma “pirâmide” de discos de
uma haste para outra, intercambiando-os de um em um entre essas duas
colunas, usando também uma terceira como intermediária?

Pois é, o objetivo desse jogo é fazer um número mínimo de movimentos.


Para isto, basta descobrir a lógica da relação entre as ações e estabelecer
minimamente a ordem de seu encadeamento. Pronto: tudo se torna passível
de previsão e de planejamento. Os movimentos estão todos conectados por
uma interdependência. Assim, a consideração da jogada anterior é suficiente
para antecipar o deslocamento da seguinte.

Está certo... no começo o jogo nem sempre é assim tão simples: em geral,
a gente erra, volta, se atrapalha, faz um monte de movimentos totalmente
“inúteis”. Mas quando se percebe que o que se tem ali é um sistema lógico,
147
Linguagem e Pensamento

fica fácil inferir as regularidades, as leis que compõem a sua estrutura; o mis-
tério é desfeito.

Como eu ia dizendo, muitas vezes desejei que a vida fosse como esse jogo.
Pensem como seria legal: eu, professora, frente a um aluno rebelde (desses
que adoram desafiar a “autoridade”, ou que se recusam a fazer qualquer coisa
que não contraria o outro), só teria que procurar a técnica e os meios ade-
quados e planejar o momento certo de sua aplicação. Além disso, um livro
de receitas bastaria para que eu me tornasse uma boa cozinheira. Afinal, ele
não me mostra todos os passos para se fazer um belo bolo, por exemplo?

Sim, a vida, se fosse torre de Hanói, seria (quase) perfeita: meus alunos
seriam todos uns “anjos”, como professora eu não teria problema algum,
meu bolo seria comestível... Mas a vida não é assim.

Por mais que se reflita, raciocine e planeje uma ação, nunca é possível
saber ao certo o que virá depois. As regras, as leis que regem os aconteci-
mentos não estão dadas de antemão e as decisões são quase sempre uma
aposta. Uma aposta de que aquele é o melhor caminho, o mais certeiro, o
que nos ajudará a chegar aonde queremos. Enfim, a marca da vida é essa
imprevisibilidade, essa incerteza que nos deixa sempre a sensação de que as
coisas “escapam por entre os dedos”.

Mas então, se tudo na vida é incerto e se os desdobramentos das ações


nunca são passíveis de antecipação, por que a pedagogia insiste tanto em
falar em planejamento? Planejamento educacional, planejamento pedagó-
gico, projeto de escola, plano de aula... Não seria tudo isso uma inutilidade,
uma perda de tempo?

Se pensarmos nesse tal planejamento como escudo contra toda e qual-


quer falha no processo, como possibilidade de previsão dos resultados,
talvez possamos dizer que sim.

Porém, não seria possível pensar nessa questão em outros moldes?

Não podemos esquecer que falamos de um trabalho que é direcionado a


uma outra vida humana. Assim, como não esperar que esse alguém a quem
nos dirigimos saia do lugar em que estava e passe a ocupar uma outra posi-
ção? Não é essa causa que abraçamos?

Sim, e com certeza é isso que nos orienta e que nos leva a querer... plane-
jar as ações. Mas esse planejar tem que considerar aquele imprevisível que é
148
Perspectiva histórico-social: a aula de Língua Portuguesa e seus textos nela produzidos

a marca da vida de todos nós; não pode deixar de levar em conta o desejo do
outro sujeito, que pode, em última instância, seguir por rumos totalmente
diversos daqueles por nós “planejados”. Caso contrário, esse planejamento
vira “camisa-de-força”.

Enfim, a educação nos lança esse enorme desafio de planejar o implane-


jável, de prever o imprevisível, numa busca incessante (e sempre frustrada)
de uma vida (quase) perfeita, feito torre de Hanói.

Atividades
1. Analisando-se a história da constituição da alfabetização como objeto de
estudo no Brasil, o que podemos entender a respeito das transformações
sofridas nessa prática pedagógica?

2. O contato do aluno com os símbolos da escrita garante que ele vá aprender


a escrever, bastando que estejam organizados correta e significativamente?
Justifique.

149
Linguagem e Pensamento

3. Por que o professor precisa compreender-se como agente da socialização de


seus alunos?

Dicas de estudo
CALKINS, Lucy McCormick. A Arte de Ensinar a Escrever: o desenvolvimento do
discurso escrito. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.

Tematizando o “ensino de redação”, trata-se de um livro muito abrangente,


escrito de um modo simples, bastante agradável para se ler. Está repleto de su-
gestões que podem ser colocadas em prática, desde a pré-escola até o Ensino
Médio, por todos aqueles que desejam ensinar a escrever. Contém capítulos
sobre o ensino de poesia, ficção e escrita de relatórios, consistindo, portanto, em
leitura imperdível para todos que estão preocupados com o desenvolvimento
do discurso escrito de seus alunos.

150
Perspectiva histórico-social: a aula de Língua Portuguesa e seus textos nela produzidos

151
Gabarito

A linguagem humana
e seus efeitos sobre o pensamento
1. Em uma visão que dá prioridade à linguagem, compreendida como
sistema de articulação de signos verbais exclusivo do homem, quan-
do compreendemos a extensão do poder que a linguagem tem sobre
os seres humanos, nós podemos ser mais eficazes como agentes da
manutenção da cultura em geral e, também, refletir a respeito dos su-
cessos e os impasses da educação dos alunos que nos foram confiados
com maior pertinência.

2. Para os animais, e mesmo para os primeiros humanoides, é possível


estabelecer uma relação entre causa e consequência uma vez que eles
são regidos pelo instinto, se comportam de modo não mediado pela
linguagem e pelo pensamento. Como somos animais de linguagem,
isto é, pensamos e falamos, essa correlação se torna fluída. Isso permi-
te, por exemplo, que um humano não tenha que pagar uma violência
com outra violência; sempre podemos tentar dialogar. Essa tentativa
mantém a sociedade humana organizada.

3. O principal motivo para dedicar tempo à organização do ambiente es-


colar como um todo reside no fato de que o pensamento humano não
é um processo isolado e independente das contingências histórico-
-culturais e sim intimamente ligado a elas, que, em certa medida,
determinam-no. Assim sendo, se quisermos agir na direção de ajudar
uma criança a estruturar o seu pensamento, trata-se de agir, em pri-
meiro lugar, no ambiente onde ela está inserida.

O imprevisível animal humano


1. A linguagem humana é escorregadia, não existem sentidos fixos. As-
sim sendo, o fato de que alguém diga uma coisa e o interlocutor en-
tenda outra é a regra, e não a exceção. A partir dos sons que alguém
escuta, é possível que ele crie sentidos perfeitamente verossímeis para
Linguagem e Pensamento

si, mas em nada relacionados às intenções comunicativas de quem falou. Se


isso não for esclarecido, a margem normal de equívoco pode se tornar de-
masiadamente grande, com prejuízo para o processo educacional.

2. Diversificar as ofertas de conteúdos e de tipos de atividades em uma sala de


aula é importante porque, quando se trata do ser humano, não existe unici-
dade, nem nos padrões de comportamento nem na história de vida de cada
um de nossos alunos. Assim sendo, o que funciona para uns não funciona
para outros e vice-versa.

3. Porque nenhum ser humano tem o curso de seu pensamento completamente


determinado pelas leis que nos são impostas pela biologia de nossa espécie.
Isso significa que não temos um contato pleno com o mundo como ocorre com
os animais. Ao contrário, temos nosso encontro com a realidade de maneira
parcelar e fragmentada e construímos nosso padrão de pensamento a partir
dos fragmentos. As coisas no mundo são o que são, mas as percepções que
temos dela permanecem diversas, parcelares, frequentemente deformantes.
Assim, nenhum ser humano é o dono da verdade, apenas, o da sua verdade.

Concepção do homem como ser de linguagem


1. Porque vivemos em sociedade. Assim sendo, em nome da possibilidade de
convívio, e, até, da nossa autopreservação, precisamos usar as palavras para
outros fins, tais como lisonjear, convencer, seduzir, virar determinada situa-
ção a nosso favor, e muitas outras funções que, legitimamente, não podem
ser chamadas de comunicação. Às vezes, precisamos, inclusive, saber utilizar
as palavras sem comunicar absolutamente nada, pois é de nosso interesse
não quebrar o sigilo a respeito de determinada informação.

2. Porque não somos animais! A nossa linguagem vai muito além do que os códi-
gos utilizados pelos animais. Caracteriza-se pela capacidade de ser potencial-
mente infinita, uma vez que, cada enunciado permite análise e rearranjo de
suas partes com as de outros enunciados. Nossa linguagem não sofre os limi-
tes da percepção visual, assim sendo, podemos imaginar, formular hipóteses,
projetar as consequências de nossas ações no futuro e assim sucessivamente.

3. Porque apenas podemos utilizar as palavras como suporte de nosso pen-


samento na medida em que se encontram organizadas em um sistema (a
linguagem, a cultura) que lhes dá consistência. Isoladas, as palavras não sig-
nificam absolutamente nada. A linguagem nos liga ao mundo ao fornecer

154
Gabarito

um aparelho por meio do qual podemos manter o contato com a realidade:


a possibilidade de nomear os objetos e, por meio do nome, construir um
conceito para apreendê-lo.

Analisar os modos de falar e de pensar:


exclusividade do ser humano
1. É necessário levar o jovem humano a refletir a respeito da linguagem para
incidir sobre o seu desenvolvimento intelectual porque manter certo distan-
ciamento das palavras que falamos é condição necessária para interrogar
a realidade que nos circunda. Sem isso, nosso pensamento tende a ser, ao
mesmo tempo, limitado e limitante.

2. Pessoas de comunidades linguísticas diferentes tendem a interpretar fatos


análogos de modos diferentes, tornando claro que tanto a percepção quan-
to a linguagem estão indissoluvelmente ligadas à práxis social. Como a lín-
gua amarra a percepção, um indivíduo não consegue ver qualquer realidade
que já não esteja previamente marcada em sua língua. Assim, pessoas que
falam diferentes línguas tendem a ver diferentes realidades.

3. É difícil para as crianças aprender a analisar os modos de funcionamento da


linguagem porque tomar um fato da língua como objeto de análise exige
uma experiência de vida na cultura que proporcione ao sujeito um repertó-
rio que lhe permita se distanciar dos enunciados que nela circulam o bastan-
te para poder estudá-los.

A perspectiva histórica do
desenvolvimento do pensamento humano
1. Em suas pesquisas, Vygotsky mostrou que o progresso da fala não é paralelo
ao progresso do pensamento. Para ele, as curvas de crescimento de ambos cru-
zam-se muitas vezes, podem atingir o mesmo ponto e correr lado a lado, e até
mesmo fundir-se por algum tempo, mas acabam se separando novamente.

2. Porque o ser humano precisa viver em sociedade. Assim sendo, logo aprende
que, para se manter vivo, há um “discurso certo” a fazer, que pode ser proferido
aberta e publicamente, e outros discursos e práticas que é necessário velar.

155
Linguagem e Pensamento

3. A convivência com os pares é fundamental para haver aprendizado porque o


ser humano constitui-se na sua relação com o outro social. É a sociedade que
lhe ensina o que pode e deve ser dito e, nas últimas consequências, dita ao
humano seus modos de pensar. Assim sendo, confrontar formulações precárias
com as de seus colegas mais experientes ajuda o aluno a ir, paulatinamente,
refinando seus modos de pensar.

Significado da palavra: lugar de junção


do pensamento e da linguagem
1. Falar com o bebê pequeno é importante para a estruturação do pensamento
do ser humano porque, no início, o bebê funciona de modo mínimo, ou seja,
apenas segundo os imperativos do princípio do prazer (saciar a sede, matar
a fome, satisfazer o sono etc.). Nesse nível, não há diferença entre um ser
humano e um animal. É por meio da influência de seus semelhantes mais ex-
perientes que lhe fornecem rudimentos de palavras em um contexto social
que o humano começa a organizar um pensamento elaborado.

2. Vygotsky afastou-se de duas tradições de pesquisa que circulavam em sua


época. Não concordava nem com uma perspectiva que consiste na fusão en-
tre o pensamento e a fala nem com outra que consiste na segregação entre o
pensamento e a fala, isto é, na compreensão de que são fenômenos que nada
têm em comum. Construiu uma terceira vertente: a da consideração do pen-
samento verbal. Para o autor, no cérebro humano pensamento e linguagem
estão ligados numa zona que consiste no pensamento através da palavra.

3. A palavra tem uma importante função no desenvolvimento intelectual do hu-


mano, tanto internas quanto externas. Internamente, pode organizar o pensa-
mento do homem, por meio de operações como, por exemplo, a classificação
e a seriação. Externamente, pode auxiliar na organização do homem em so-
ciedade, permitindo aos homens que possam a) compartilhar as conclusões
a que chegaram a partir da organização prévia de suas ideias; b) inserir-se nas
relações sócio-históricas por meio de um lento processo de apropriação dos
conceitos; e c) transmitir esses conceitos aos descendentes de uma cultura.

156
Gabarito

O papel da linguagem
no desenvolvimento intelectual de uma criança
1. De acordo com a teoria de Vygotsky, as palavras da mãe são fundamentais na
estruturação do pensamento do bebê. Quando ela mostra objetos a seu filho e
os nomeia, exerce uma importante influência decisiva na formação dos proces-
sos mentais da criança. Como está relacionada à percepção direta do objeto, a
palavra isola seus traços e propriedades essenciais, inibindo as secundárias.

2. A teoria de Vygotsky se afasta da perspectiva comportamentalista na medi-


da em que entende que, para nós humanos, o uso de signos faz com que se
crie um elo intermediário entre o estímulo e a resposta. Vygotsky classifica
os signos como estímulos de segunda ordem. Para ele, quando a lógica da
linguagem se impõe ao bebê, ela substitui o processo simples de estímulo e
resposta por um ato complexo.

3. Para o autor, a criança pequena ainda não é capaz de controlar previamente seu
comportamento quando deseja realizar tarefas concretas. Assim sendo, tende
a fracassar em todas as tarefas que exigiriam reflexão e planejamento. Após
os sete anos, em média, ela já consegue controlar seu comportamento com o
auxílio de signos externos, como por exemplo, utilizando-se de um barbante
amarrado no dedo para não se esquecer de algo. Desse modo, é mais eficiente
na realização de tarefas às quais se propõe. Ao se tornar adulto, o humano tem
sua atividade psicológica organizada pelo signo linguístico. Consequentemen-
te, mesmo sem o auxílio de instrumentos externos, seu comportamento pode
permanecer mediado, ou seja, planejado e refletido com antecedência.

A influência do aprendizado
escolar no desenvolvimento da criança
1. O professor que segue a perspectiva vygotstkyana não se preocupa tanto
com aspectos como prontidão ou maturação porque, nessa orientação, a
educação não fica à espera do desenvolvimento intelectual da criança, mas,
ao contrário, entende que sua principal função é dar origem ao desenvol-
vimento. O professor não fica esperando a criança se desenvolver primei-
ro para fazê-la aprender depois, mas, ao contrário, trata de fazê-la aprender
para que possa se desenvolver.

157
Linguagem e Pensamento

2. Os vygotstkyanos tendem a dar grande importância à escola e à sua orga-


nização porque compreendem que o desenvolvimento do comportamento
humano dá-se em sua relação com o contexto social. Por esse motivo, eles
dão muita importância aos lugares em que o aprendizado se faz de modo
sistemático e socialmente organizado, como a escola.

3. Ensinar um grande número de conteúdos às crianças é pouquíssimo impor-


tante para os vygotstkyanos. Para eles, aprender não é sinônimo de tomar
contato com uma lista de pontos registrada no currículo escolar. O ato edu-
cativo bem-sucedido é aquele que força uma passagem: transformar os con-
ceitos espontâneos (aqueles que desenvolvemos na convivência social) em
conceitos científicos (aqueles que são formalizados de acordo com as regras
da cultura elaborada).

O desafio de ensinar a escrever bem nos dias de hoje


1. Desde a invenção do alfabeto fonético, pouco a pouco essa tecnologia foi se
tornando central na organização e na manutenção de nossa cultura. A escrita
tem força de lei porque registra normas e procedimentos. Pode proporcionar
uma coerência de princípios filosóficos e operacionais nas várias instâncias por-
que ajuda no compartilhamento das ideias e na checagem da aprendizagem.

2. Se um professor leva em conta o fato de que, na contemporaneidade, as


crianças estão regidas por outra lógica, ele pode ter expectativas mais rea-
listas. Ele compreenderá que, muito provavelmente, não poderá transmitir
um amor igual ao seu, compatível com os tempos onde a vida era outra.
Compreenderá que deve se responsabilizar pela transmissão de outro tipo
de amor. Assim, ele tentará aprender com as lições do passado para olhar
de frente para as mazelas do presente e se responsabilizar pela invenção de
soluções sobre os novos problemas.

3. É mais importante que o professor faça os alunos compreenderem as fun-


ções dos conhecimentos do que ensiná-los de maneira isolada. Sua função
principal é a de ser mediador, isto é, auxiliar os jovens a integrar conheci-
mentos isolados em uma rede simbólica cuja internalização gera o processo
do desenvolvimento dos processos psicológicos superiores.

158
Gabarito

Perspectiva histórico-social: a aula de Língua


Portuguesa e seus textos nela produzidos
1. Analisando-se a história da constituição da alfabetização como objeto de
estudo no Brasil, podemos perceber que o momento atual sempre se funda
na condenação das práticas que caracterizavam o momento anterior. Aque-
les que desejam ver a sua perspectiva adotada por todos afirmam que seus
contemporâneos estão errados, independente do fato de estarem obtendo
bons resultados.

2. O contato da criança e sua ação sobre os símbolos da escrita, ainda que es-
ses símbolos estejam organizados correta e significativamente como lingua-
gem, não garantem, por si só, que a criança aprenda a linguagem escrita. A
partir, portanto, de uma compreensão histórica do homem, compreende-se
que é preciso que haja homens utilizando de forma real a linguagem para
que ela se configure enquanto tal.

3. O professor precisa compreender-se como agente da socialização de seus


alunos para não perder de vista que ele é corresponsável pelo processo de
humanização daqueles que educa. O professor precisa ajudar o aluno no di-
fícil processo de sua inserção na civilização, na qual grande parcela da popu-
lação está à margem. Para ser bem-sucedido, ele deve considerar o caráter
histórico do homem, incluindo ele próprio.

159
Linguagem e Pensamento

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Linguagem e Pensamento

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Anotações
Linguagem e
Pensamento

Linguagem e Pensamento
Claudia Rosa Riolfi

Linguagem e
Pensamento