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ERMAO DE Padre Anténio Vieira: nota Anténio Vieira nasceu em Lisboa, no dia 6 de fevereiro de 1608. O pai, Cristévao Vieira Ravasco, escrivio oficial, foi nomeado, em 1614, funcionério da Relacao da Bafa, e, assim, Antonio Vieira partiu, aos seis anos, com a familia para o Brasil, tendo iniciado os seus estudos no Colégio dos Jesuttas da Baia. Em 1623, com quinze anos, iniciou 0 noviciado na Companhia de Jesus e, dois anos mais tarde, fez os pri- meiros votos como clérigo. O seu interesse pelos indios amerindios e pelos escravos negros levou-o a estudar tupi-guarani e quimbundo, as linguas destes povos, e influenciou decisivamente a sua opgao de tornar-se ionario e pregador. Ordenado padre em 1634, pregou o Primeiro Sermdo de Santo Anténio a 13 de junho de 1638 e, nesse mesmo ano, foi nomeado professor de Teologia do Colégio da Companhia de Jesus da Baia. ‘As suas preocupacées com a invasao da Baia pelos Holandeses e com a exploracao dos nativos pelos colonos refletiram-se nos seus sermées, tornando-se um pregador de grande prestigio, apesar das suas criticas vee mentes as injusticas e a corrupcao. Em 1641, integrou uma delegagao que veio a Portugal apoiar a Restauracao da monarquia portuguesa. D. Joao IV escolheu-o para seu conselheiro, impressionado com a sua inteligéncia e loquacidade. Durante cinco anos, entre 1646 e 1651, desempenhou varias missGes diplomaticas em Franca, na Holanda e em Italia, procurando apoios para a causa nacional. No final de 1652, Vieira regressou a Sao Luis do Maranhao, onde se dedicou a defesa dos indios amerindios que se haviam tornado auténticos escravos da gandncia e das arbitrariedades dos colonos. Os indios chama- vam-Ihe payassu, que significa «Pai Grande». A 13 de junho de 1654, pregou o Sermdo de Santo Antonio aos Peixes, dias antes de partir para Lisboa em busca de apoio do rei para as miss6es dos Jesultas no Maranhao. Satisfeito por ter conseguido do monarca um diploma que concedia aos Jesuitas a administracao dos indios e que limitava a possibilidade de estes serem feitos escravos, voltou de novo ao Brasil. Apés a morte de D. Jodo IV, em 1656, Vieira nao obteve o apoio da Corte, que tinha tido até entdo, e, em 1661, foi expulso do Maranhao, juntamente com outros jesultas, e recebido em Lisboa com grandes reservas. Acabou por ser encarcerado em Coimbra, em 1667, vitima das intrigas e vingancas da Inquisi¢ao, e proibido de pregar. Dois anos depois, viu a pena anulada e partiu para Roma, onde reabilitou a sua imagem ealcancou grande fama como pregador. © Papa, seduzido pela sua personalidade e eloquéncia, libertou-o da persegui- 40 constante dos frades dominicanos que administravam a Inquisicao. Voltou a Lisboa, em 1675, para tratar da publicagao dos sermées, mas o ambiente nao lhe era favordvel. O primeiro volume de Sermées foi publicado, apenas, em 1679. Em 1681, regressou definitivamente ao Brasil, a So Salvador da Baia, onde se dedicou a tarefa de continuar a edico completa dos seus Sermées. Morreu a 18 de julho de 1697, na Bai Objetivos programaticos da eloquéncia (docere, delectare e movere) A oratéria como «arte de falar em piiblico» est, no século XVIl, intrinsecamente relacionada com a figura do pregador, fosse ele jesuita, dominicano ou frade capuchinho. Ser pregador, para além de pressupor uma aptidao natural, exigia muito estudo, muitas leituras, um trabalho arduo. Antes de enfrentar 0 auditério, 0 pre- gador deveria elaborar, previamente, o plano daquilo que iria dizer, bem como selecionar passagens da Biblia e de outras obras de referéncia para ilustrar e fundamentar o seu discurso. pregador nao Ié o seu serméo, profere-o oralmente, e, como tal, de acordo com o auditério que tem a sua frente, tera de adequar 0 tom de voz, 0 ritmo e a celeridade das palavras, os gestos, de forma a seduzi-loe a perstiadi-lo, imprimindo maior ou menor eficécia ao seu discurso. |, CONTEUDOS PROGRAMATI = 109 € 11.8 ANOS Na época de Vieira, século XVII, 0 século do Barroco', a oratéria predominava sobre os outros géneros liters s. A repressao que avassalava a sociedade, durante a dominacao filipina e, posteriormente, sob 0 jugo da In- quisicao, fazia com que o pulpito fosse o lugar privilegiado para fazer determinadas criticas. Do pulpito, como de uma tribuna politica, o pregador defendia as suas ideias, procurava, frequentemente, conduzir a opiniao publica ou promover determinadas causas. Muitas vezes com uma postura teatral, 0 pregador comportava-se no pulpito como se estivesse num palco, encenava situacées, representava como um ator. Vieira censurava as Posturas teatrais, recomendava apenas um tom de voz forte, uma voz como «trombeta do Céu» ou «raio para © coragao». Os sermées do Padre Anténio Vieira, quer do ponto de vista da sua estrutura, quer do ponto de vista esti tico, s40 obras de uma complexa construcdo, em que os recursos linguisticos e literdrios s4o engenhosamente utilizados para fazer passar a mensagem da forma mais eficaz. A estética de Vieira é uma estética da eficdcia, ‘em que os conceitos classicos da retorica - docere (ensinar), delectare (deleitar) e movere (comover) ~ ser- vem e dao forca a eloquéncia (a arte de bem falar), para que o discurso dé fruto, isto 6, para que seja verdadel- ramente persuasivo, convenca pelos seus argumentos e ensinamentos, deleite pela sua beleza e comova pela forca dos sentimentos que desperta Na linha dos principios da arte da oratéria enunciados por Cicero na sua obra Orator (escrita em 46 a. C) = probare (apresentar as teses com argumentos vélidos), delectare (produzir com as palavras uma agradével impressao estética) e flectere (mover as emocées através do pathos, isto é, do sentimento, da paixdo) - se inscreve o Sermdo de Santo Anténio aos Peixes, do Padre Anténio Vieira. Neste sermao, condena, com argu- mentos sélidos, os pregadores que «se pregam a sie nao a Cristo» e cujo comportamento, por essa razdo, nao pode servir de exemplo aos colonos brasileiros; deleita com o seu estilo envolvente, circular, alegérico, cheio de imagens e metéforas de grande vivacidade e humor e de histérias biblicas cuja simbologia esta repleta de ligdes de vida; e sensibiliza e comove os leitores, lembrando-Ihesa sua pequenez e os vicios e traicbes em que continuamente se atolam e se destroem. A relacao pregador-ouvinte e a importancia do efeito que um sermao provocava nos ouvintes revelaram- -se preocupacdes dominantes de Vieira que, no Sermdo da Sexagésima, afirma: