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Apontamentos (ainda sobre Ourique)

1. “Lugar de memória” é o termo utilizado por Pierre Nora ao referir-se sobre os arquivos como veículos
privilegiados da memória coletiva, uma vez que a historiografia é um índice fundamental da
constituição da identidade histórica de um grupo social, de uma comunidade ou de uma nação.
2. Os documentos que compõem esses “lugares de memória” retêm uma dimensão monumental por
conta de um elemento bem preciso: a sua utilização pelo poder.
3. Jacques Le Goff afirma que: “No domínio da história, sob a influência das novas concepções do tempo
histórico, [...] desenvolve-se uma nova forma de historiografia – a história da história – que, de fato, é
o mais das vezes o estudo da manipulação pela memória coletiva de um fenômeno histórico que só a
história tradicional tinha até então estudado”. (LE GOFF, in: Enciclopédia Einaudi, 1984, pp. 100-104).
4. “Na vida do indivíduo, como na vida colectiva, não influi apenas o passado tal como é reconstruído
e tão frequentemente inventado”. (GODINHO, 1971, pp. 206-207).
5. A “aparição” de Jesus Cristo a D. Afonso Henriques na véspera da Batalha de Ourique (1139) terá uma
importância fundamental no estabelecimento de uma memória das origens, reproduz globalmente
aquilo que Henri Janne considera uma das linhas mestras do conceito de mito: a sua proximidade com
a representação coletiva, a relação com o sagrado, o vínculo entre o poder e o sagrado, enfim “a
contrastividade entre a utopia e o mito: se a utopia é um modelo, o mito é uma imagem”. (JANNE,
1962, pp. 19-25)
6. O milagre de Ourique, fundamento ideológico de uma explicação multissecular da nacionalidade e
do seu destino tem, também ele, uma história. O percurso da formação da lenda, cujo itinerário pode
ser seguido hoje com certa segurança, revela um processo que, nas suas hesitações e estratégias, levará
à fixação de Ourique como verdadeiro mito das origens.
7. É a partir do século XVI que as narrativas sobre o milagre de Ourique constituirão o quadro de um
discurso ideológico empenhado na constituição da memória nacional. É aliás, a partir do século XVI
que a progressiva tomada de consciência nacional – ao nível das elites dirigentes – se orienta para a
procura das origens, esgotada que está, segundo Claude-Gilbert Dubois “a euforia do universalismo
humanista”. (DUBOIS, 1972, p. 20). Esta preocupação conduz, no caso português, por um lado, à
progressiva importância e incorporação histórica do métodos Lusitanos, onde é clara a procura das
origens e, simultaneamente, a presença erudita da referência clássica.
8. Na realidade, o milagre é também interpretado como um chamamento do “novo povo eleito”, o
princípio justificativo da missão universal dos portugueses, dimensão presente, de forma inequívoca,
no texto do juramento, nas palavras de Cristo. Por aqui passa a coerência essencial que existe entre o
mito fundador e a corrente do messianismo político, um dos tópicos que assinala e constitui uma das
marcas da cultura portuguesa:

“Eu sou o fundador e destruidor dos Reynos e Imperios, e quero em ti, e teus descendentes fundar
para mim hum Imperio, por cujo meio seja meu nome publicado entre as nações mais estranhas. [...]
Não se apartará deles nē de ti nunca minha misericordia porque por sua via tenho aparelhadas
grandes searas, e a elles escolhidos por meus segadores em terras muy remotas”.

(Frei António Brandão, In.: Monarchia Lusitana. Do juramento com que el


Rey Dom Afonso Henriques cõfirmou a visão de Christo nosso Salvador”.
Fols. 128-129.)

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