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Volume

VALTER T. MOTTA
Bioquímica Clínica: Princípios e Interpretações

Aminoácidos e
Proteínas
A MINOÁCIDOS E PROTEÍNAS

A s proteínas são compostos de elevada massa


molecular (5000 a vários milhões) produzi-
das pelas células vivas de todas as formas de vida.
portam, por exemplo, a glicose, aminoáci d o s e
outras substâncias através dessas membranas.

São polímeros complexos de α-aminoácidos, uni- Proteínas de armazenamento. Atuam no a r-


d o s e n t r e si por um tipo específico de ligação mazenamento de certas substâncias, ex.: ferritina,
covalente – a ligação peptídica. As proteínas são que armazena átomos de ferro.
constituídas por 20 aminoácidos diferentes reuni-
dos em combinações praticamente infinitas, possi- Proteínas contráteis ou de motilidade. Pro -
bilitando a formação de milhões de estruturas teínas que modificam sua forma ou contra em-s e ,
diversas. Estas combinações permitem às células a ex.: actina e miosina.
produção de proteínas com diferentes tamanhos,
formas, estruturas, propriedades e funções. Proteínas estruturais. S ã o p r o t e í n a s q u e s er-
A seqüência de aminoácidos, que define as vem como filamentos de suporte, cabos ou lâmi-
características das proteínas, é determinada pelas nas para fornecer proteção ou resistência à estru -
informações genéticas contidas no núcleo da c é- turas biológicas, ex.: queratinas, colágeno e elas -
lula. t ina.
Por hidrólise, as proteínas fornecem somente
aminoácidos (proteínas simples) ou, além dos Proteínas de defesa. Um grande número de
aminoácidos, outros compostos orgânicos ou inor- proteínas defendem o organismo contra a invasão
gâ ni c os (proteínas conjugadas). A po rção n ão - de outras espécies ou o protege nos ferimentos. As
protéica é denominada grupo prostético. imunoglobulinas ou anticorpos – proteínas especi-
As funções biológicas at r i b u í d a s à s p r o t e í n a s alizadas sintetizadas pelos linfócitos – podem
são variadas e importantes. Atuam como: reconhecer e precipitar, ou neutralizar, invasore s
como bactérias, vírus ou proteínas estranhas
Enzimas. São proteínas altamente especializadas oriundas de outras espécies. O fibrinogênio e a
com atividade catalítica; praticamente todas as trombina são proteínas que participam da coagula-
reações químicas celulares onde participam bio - ção sangüínea que previnem a perda de sangue
moléculas orgânicas são catalisadas por enzimas. quando o sistema vascular é lesado. Algumas
Existem milhares de enzimas, cada uma capaz de d e s t a s p r o t e í n a s , i n c luindo o fibrinogênio e a
catalisar um tipo de reação química diferente. trombina, também são enzimas.

Proteínas transportadoras. São proteínas que Proteínas reguladoras. Várias proteínas atuam
se ligam a íons ou a moléculas específicas, as na regulação da atividade celular ou fisiológica,
quais são transportadas de um órgão para outro. ex.: hormônios e proteína G.
Transportam hormônios, v itaminas, metais, drogas
e oxigênio (hemoglobina); solubilizam os lipídios Outras proteínas. Existem numerosas proteínas
(apoproteínas). Muitas proteínas estão presentes com funções ditas exóticas ou de difícil classifi-
nas membranas plasmáticas e nas membranas in - cação.
tracelulares de todos os organismos; elas trans -

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64 Bioquímica Clínica: Princípios e Interpretações

São milhares as funções das proteínas. Além Bibliografia consultada


das resumidas acima citam-se algumas de grande
CAMPBELL, M. K. Biochemistry. 3 e d . P h i l a d e l p h i a :
importância clínica: manutenção da distribuição S a u n d e r s , 1 9 9 9 . p . 7 6 -9 5 .
de água entre o compartimento i n tersticial e o sis -
L E H N I N G E R , A . L . , N E L S O N , D . L . , C O X , M . M . Princípios
tema vascular do organismo; participaçã o d a h o - d e b i o q u í m i c a . S ã o P a u l o : S a r v i e r , 1 9 9 5 . p . 9 9-117.
meostase e coagulação sangüínea; nutrição de STRYER, L. Bioquímica. 4 ed. Rio de Janeiro :
tecidos; formam tampões para a man u t e n ç ã o d o G u a n a b a ra -K o o g a n , 1 9 9 5 . p . 1 7 -6 9 .
pH.
Aminoácidos e proteínas 65

PROTEÍNAS TOTAIS

O número de proteínas distintas dentro de uma


célula humana é estimado entre 3.000 a
portanto, a concentração das proteínas no espaço
vascular é afetada pela distribuição líquida.
5.000. Mais de 300 proteínas diferentes foram
identificadas somente no plasma sangüíneo. Mui- Catabolismo. As proteínas plasmáticas são d e-
tas delas apresentam papéis bioquímicos específi- gradadas através do corpo. Os aminoácidos libera-
dos ficam disponíveis para a síntese de proteínas
c o s s e n d o q u e s u a s c o n c e n t r a ç õ e s p o d e m s e r a fe-
celulares.
tadas por processos patológicos e, portanto, são
determinad a s n a i n v e s t i g a ç ã o d e v á r i a s d o e n ç a s .
Apesar do grande número de proteínas presentes
H IPERPROTEINEMIA
no plasma sangüíneo, somente algumas são medi-
das rotineiramente. As mais medidas são as pre- Desidratação. A d e s i d ratação causa o aumento
sentes no sangue, urina, líquido cefalorraquidiano (relativo) de todas as frações protéicas na mesma
(LCR), líquido amniótico, peritonial ou pleural, proporção. Pode ser promovida pela inadequada
saliva e fezes. ingestão de líquidos ou perda excessiva de água
As funções das proteínas plasmáticas incluem (vômito, diarréia intensa, enfermidade de Addison
transporte, manutenção da pressão oncótica, tam- ou acidose diabética).
ponamento de alterações do pH, imunidade humo-
ral, atividade enzimática, coagulação e resposta de Enfermidades monoclonais. Mieloma múlt i-
fase aguda. plo, macroglobulinemia de Waldenström e doença
da cadeia pesada. Estas condições promovem a
elevação de imunoglobulinas, causando o aumento
M ETABOLISMO DAS PROTEÍNAS nos níveis das proteínas totais séricas. (v.
PLASMÁTICAS adiante).

A concentração das proteínas plasmáticas é d e- Enfermidades policlonais crônicas. Cirrose


terminada por três fatores principais: velocidade hepática, hepatite ativa crônica, sarcoidose, lupus
de síntese, velocidade do catabolismo e o volume eritematoso sistêmico e infecção bacteriana
de líquido no qual as proteínas estão distribuídas.
crônica.
Síntese. A maioria das proteínas plasmáticas são
sintetizadas no fígado enquanto algumas são pro-
duzidas em outros locais, por exemplo, imunoglo - H IPOPROTEÍNEMIA
bulinas pelos linfócitos, apoproteínas pelos ente-
rócitos e β 2 -microglobulina (proteína da superfície
Aumento do volume plasmático. Hemodilu i-
celular) amplamente distribuída no corpo. Apro -
ção por intoxicação hídrica, também como na
ximadamente 25 g das proteínas plasmáticas são
sintetizadas e secretadas cada dia, pois não há cirrose quando a ascite está presente.
armazenamento intracelular.
Perda renal proteínas. Síndrome nefrótica e
Distribuição. Normalmente, a concentração de glomerulonefrite crônica.
proteínas totais no plasma está ao redor de 7,0
g/dL e, aproximadamente, 250 g de proteínas são P e r d a d e p r o t e í n a s p e l a p e l e . Queimaduras
encontradas no compartimento vascular de um severas.
homem adulto de 70 kg. A água atravessa mais
livremente as paredes capilares que as proteínas e, Gota. Aumento da uricemia.
66 Bioquímica Clínica: Princípios e Interpretações

Distúrbios da síntese protéica. A s í n t e s e é proteínas. Estes métodos são influenciados por


sensível ao suprimento de aminoácidos e, as sim, a variações da tempera tura, relação albu-
desnutrição, má absorção, dietas pobres em pro - mina/globulinas, azotemia, hiperglicemia, hiper-
teínas, enfermidade hepática não-virótica severa bilirrubinemia e, particularmente, hiperlipemia.
promovem hipoproteínemia. A insuficiência da
Biureto. É o mais usado atualmente, pois além
função hepatocelular reduz a síntese na enfermi-
de preciso e exato é de fácil execução, sendo,
dade hepática crônica.
portanto, bastante empregado para a automação.
Biureto é o nome dado ao produto de decomposi-
Outras causas. Analbuminemia, colite ulcera -
ção da uréia pelo calor. Quando o biureto é tra -
t iva, dermatite esfoliativa, doença de Crohn, do-
tado com íons cúpricos em solução alcalina, des -
ença de Hodgkin, edema, enteropatia perdedora de
envolve cor violeta. As pro teínas são determina-
proteínas, hemorragia grave, hepatite infecciosa,
das por reação idêntica ao do biureto. O complexo
hipertensão essencial, hipertireoidismo, hipoga-
c o l o r i d o é d e composição desconhecida, sendo
maglobulinemia, insuficiência cardíaca conges -
f o r m a d o e n t r e o s í o n s c ú p ric o s e d u a s o u m a i s
t iva, kwashiorkor, leucemia, má absorção e úlcera
ligações peptídicas. A intensid a d e d o p r o d u t o
péptica.
colorido é proporcional ao número de ligações
peptídicas presentes nas proteínas. O reativo seco
D ETERMINAÇÃO DAS PROTEÍNAS TOTAIS DT Vitros baseia -s e n e s t a r e a ç ã o .
SÉRICAS
Val ores de referência para proteínas totais no
P a c i e n t e . Não deve ingerir dieta rica em gordu- soro sangüíneo
ras durante 8 horas antes do teste. Suspender as Adultos ambulatoriais 6 a 7,8 g/dL
medicações que interferem nos n í v e i s d a s p r o t e í -
nas séricas.

Amostra. Soro sem hemólise e não lipêmico. A P ROTEÍNAS TOTAIS NA URINA


amostra pode ser refrigerada por até uma semana.
Como resultado da pressão hidrostática, as proteí-
Interferentes. Resultados falsamente elevados: nas de baixa massa molecular rotineiramente são
bromossulfaleína, clofibrato, contrastes radiológi- filt radas através da membrana basal glomerular.
cos, corticoesteróides, corticotropina, dextrano, Esta membrana atua como uma barreira à filtração
heparina, insulina, somatropina, tireotropina e graças ao tamanho dos poros e a carga negativa.
tolbutamida. Resultados falsamente reduzidos: As proteínas de pequeno tamanho molecular são
anticoncepcionais orais, dextrano, íon-amônio, c o n duzidas para dentro do túbulo renal onde são
líquidos intravenosos excessivos contendo glicose, q u ase totalmente reabsorvidas; no entanto, uma
pirazinamida e salicilatos. p equena fração é conduzida através dos túbulos e
aparece na urina. Entre 20-50% da proteína urin á-
Métodos. Historic amente o método de referência ria é albumina. O restante consiste de uromucóide,
para a determinação das proteínas totais no soro mucoproteína de Tamm-Horsfall provenientes das
sangüíneo é o método de Kjeldahl. Este método células tubulares renais, pequenas quantidades de
não é empregado rotineiramente no laboratório microglobulinas séricas e tubulares e proteínas de
clínico devido a sua complexidade. secreções vaginais, prostática e seminal.
Refractometria. Os métodos que empregam a A proteinúria anormal é classificada como:
medida do índice de refração avaliam as proteínas
totais no soro, plasma, urina e LCR. Estão basea- Benigna. A forma benigna é provocada por alt e-
dos na determinação refratométrica dos sólidos rações hemodinâmicas ou clínicas não associadas
totais nos líquidos antes e depois da remoção das com morbid ez ou mortalidade e são de causa des -
Aminoácidos e proteínas 67

conhecida. Este tipo de proteinúria (em geral <1 forma de proteinúria está associada com a sín-
g/d) é a razão mais freqüente de resultados positi- drome nefrótica, hipert e n s ã o o u glomerulonefrite
v o s n a p e s q u i s a d e p r o t e í n a s n a u r i n a . T r ê s c a t e- r a p i d a m e n t e p ro gressiva. Nestas condições, o
gorias gerais de proteinúria benigna são descritas: glomérulo torna-s e progressivamente permeável à
proteínas, partic u larmente, à albumina. Quantida-
§ Proteinúria funcion a l , secundária à doenças des entre 3 a 6 g/d, podem ser perdidas nestas
febris, após exercícios vigorosos, insuficiência condições. Este tipo de proteinúria também ocorre
cardíaca congestiva e hipertensão essencial. como con seqüência secundária de outras enfermi -
dades, tais como: amiloidose, lu p u s e ritematoso e
§ P r o t e i n ú r i a i d i o p á t i c a , relativamente comum diabetes mellitus (ao redor de 30 a 40% dos paci-
em crianças assintomáticas e adultos jovens entes com diabetes tipo 1 desenvolvem nefropatia
sadios. d i a b é t i c a que se manifesta clinicamente 8 a 10
anos após aquisição da doença). No curso tardio
§ P r o t e i n ú r i a o r t o s t á t i c a o u p o s t u r a l , o c o rre d o d i a b e t e s e s t a e l e v a ç ã o d o s t e o r e s d e p r o t e ínas
quando a pessoa fica em pé por muito tempo e na urina se torna persistente, dando lugar a uma
desaparece quando ela se deita por algumas h o- insuficiência renal.
ras. Ocasionada, provavelmente, pela grande
pressão sobre a veia renal quando o indivíduo Proteínas não-plasmáticas. P r o t e í n a s d e
fica em posição vertical. Tamm-Harsfall (urumucóide), um constituinte dos
cilindros urinários e provavelmente secretadas
Sobrecarga. Proteínas de baixa massa molecula r pelos túbulos distais.
aumentadas no plasma são filtradas pelo glomé-
rulo em grandes quantidades, ultrapassando a
cap a c i d a d e d e r e a b s o r ç ã o d o t ú b u l o .
D ETERMINAÇÃO DAS PROTE Í NAS TOTAIS
NA URINA
Tubular. É devida a incapacidade dos túbulos
renais realizarem a absorção, provocada por uma Amostra. São utilizadas amostras de 24 h ou 12
disfunção ou quando o excesso de p roteínas no h sem preservativos e mantidas em refrigerador.
líquido tubular ultrapassa a capacidade reabsortiva N ã o s e n d o p o s s í v e l a d e t e rminação nas primeiras
dos mesmos. Na proteinúria tubular, pequenas 48 h após a coleta, deve-se misturar bem e separar
moléculas que em condições normais ultrapas sam uma alíquota . A m o s t r a s c o n g e l a d a s s ã o e s t á v e i s
a membrana glomerular e são absorvidas, apare - por um ano.
cem na urina final em razão da reabsorção tubular
incompleta. A presença de proteinúria é um dos Métodos. A determinação quantitativa das pro -
principais sinais de enfermidade renal. A β 2 -mi- teínas na urina é realizada por um dos seguintes
croglobulina (v. adiante) serve como um marcador métodos:
da disfunção tubular em condições como: envene-
n amento por metais pesados, síndrome de Fanconi Turbidimetria. Os métodos turbidimétricos
e hipocalemia crônica. Em doenças tubulares a são tecnicamente simples, rápidos e suficiente-
excreção urinária diária é inferior a 3,5 g de pro - mente exatos. Os reagentes comumente usados
teínas. são: á c i d o t r i c l o r o a c é t i c o , ácido sulfossalicílico
o u c l o r e t o d e b e n z e t ô n i o (BZC) em meio alcalino.
Glomerular. A proteinúria glomerular é uma Nestes métodos, o reagente precipitante é adicio -
conseqüência da perda de integridade da mem- nado à urina e a proteína desnaturada precipita em
b rana do glomérulo que, em condições normais, u m a s u s p e n s ã o f i n a q u e é q u a ntificada turbidime-
não permite a passagem de proteínas de elevada tricamente. Nesta categoria, o método mais em-
massa molecu lar para a urina. Nestes casos en- pregado é o do cloreto de benzetônio por ser o
contram-s e v a lo res maiores que 1,0 g/d. Esta mais sensível dos métodos turbidimétricos.
68 Bioquímica Clínica: Princípios e Interpretações

Corantes. E s t a s t é c n i c a s e s t ã o b a s e a d a s n o ção urinária destas proteínas em razão da baixa


desvio da absorvância máxima do corante quando filtragem de íons, representa um possível defeito
ligado à proteínas. Os corantes freqüentemente reversível no glomérulo, sendo uma proteinúria
empregados são: azul brilhante de Comassie (G- glomérulo seletiva. Proteínas típicas deste grupo
250) que liga-s e a o s r e s í d u o s N H 3 das proteínas; e s ã o a a l b u m i n a e a transferrina.
o m o l i b d a t o v e r m e l h o d e p i r o g a l l o l que reage com
Proteínas com massa molecular <50.000
grupos amino básicos tanto da albumina como das
Dáltons. E s t a s proteínas de baixa massa mole-
γ-globulinas para formar um complexo azul. cular estão normalmente presentes na urina nos
Biureto. Os métodos que empregam o re a- casos de um defeito renal intersticial. Assim, a
gente do biureto são pouco utilizados por serem função de reabsorção fica diminuída resultando
mais complexos e sofrerem a interferência de numa proteinúria tubular. As proteínas marcadoras
d e s t e g r u p o s ã o : α 1 -m i c r o g l o b u l i n a , β 2 -microglo-
certos metabólitos como a bilirrubina. As proteí -
bulina e proteína ligadora de retinol.
nas são concentradas pela precipitação com ácido
tricloro acético ou ácido fosfotúngstico-HCl-eta-
nólico (reagente de Tsuchya) e redissolvido no
reagente do biureto onde o Cu 2 + forma um com-
P ROTEINÚRIA PRÉ - RENAL , P Ó S - RENAL E

plexo colorido com as ligações peptídicas. O pre- NÃO - RENAIS


cipitante de Tsuchya melhora a sensibilidade e a Além das causas renais existem condições pré -
linearidade do método.
renais, pós-renaise não-renais que também acar-
Ind icador de pH. É um método semi -q u a n t i- retam aumentos da proteinúria.
tativo onde a proteína (principalmente a albumina) A p r o t e i n ú r i a p r é -r e n a l é causada por uma
liga-se ao indicador provocando alterações na cor. permeabilidade excessiva de proteínas de baixa
Apresenta falso-positivos em urinas pH>8,0. massa molecular. Este filtrado contém altos teores
de proteínas na primeira urina. Isto se deve a uma
Valores de referência para as proteínas na urina interrupção da reabsorção tubular por sobrecarga
Adultos 40 a 100 mg/d no sistema. As proteínas típicas de uma proteinú-
Mulheres grávidas Até 150 mg/d ria pré -renal são: a mioglobina, imunoglobulinas
Após exercícios (adultos) Até 300 mg/d de cadeias leves kappa e lambda (gamopatias mo -
noclonais) e proteínas de Bence Jones.
A p r o t e i n ú r i a p ó s-r e n a l ocorre pela adição de
proteínas à urina na bexiga ou nos ureteres e as -
P ROTEÍNAS MARCADORAS DA
semelha-se a uma doença renal. As proteínas adi-
cionadas na urina são linfáticas ou plasmáticas.
DISFUNÇÃO RENAL Entram na urina pela bexiga por exsudação ou
Pode-se, também, classificar as proteínas como transudação do epitélio do ureter. Isto acontece
proteínas marcadoras da disfunção renal. Deste p e l a a l t a d e n s i d a d e d a s p r o t e í n a s e n volvidas que
modo, três grupos são identificados, os quais cor- não conseguem atravessar a membrana do glomé-
re s pondem a três tipos de defeitos renais: rulo. Sua passagem para a urina se deve a uma
sobrecarga plasmática pós-renal. A α 2 -macroglo-
Proteínas com massa molecular de b u l i n a é um excelente marcador protéico da pro -
≥ 100.000 Dáltons. Aparecem na urina somente teinúria pós-renal.
quando houver um avançado comprometimento da Como p r o t e i n ú r i a n ã o -renais têm-se: anemia
membrana, envolvendo a perda da função de per- grave, ascite, cardiopatia, distúrbios convulsivos,
meabilidade glomerular, a proteinúria é n ã o -s e le-
endocardite bacteriana subaguda, febre, hepatopa-
tiva. Uma proteína típica deste grupo é a IgG.
tia, hipertireoidismo, idade avançada, infecção
Proteínas com massa molecular entre aguda, ingestão ou superexposição a certas sub -
50.000 e 80.000 Dáltons. O aumento da secre- stâncias (ácido sulfossalicílico, arsênico, chumbo,
Aminoácidos e proteínas 69

CHERNECKY, Cyntia C., KRECH, Ruth L., BERGER,


éter, fenol, mercúrio, mostarda, opiáceos, propile-
B a rb a r a J . M é t o d o s d e l a b o r a t ó r i o : p r o c e d i m e n t o s
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70 Bioquímica Clínica: Princípios e Interpretações

A LBUMINA

A albumina compreende ao redor de 60% das


proteínas presentes no plasma humano. É
matismo, tuberculose, úlcera péptica, uremia,
vômito e hemoconcentração.
sintetizada no fígado em velocidade dependente
da ingestão protéica, mas sujeita a regulação por
retroalimentação pelo teor de albumina circulante. H IPOALBUMINEMIA
Tem meia vida de 15-19 dias. A albumina exerce
importantes fu n ç õ e s : Esta condição pode ser fisiológica ou
patológica.
§ Contribui com 75-80% do efeit o osmótico do
plasma, um dos fatores que regulam a distri- Redução da síntese
buição apropriada de água entre os compart i-
mentos intra - e extracelulares. Em certas en - § Enfermidade hepática severa, como hepatite
fermidades, os teores de albumina anorma l- crônica e cirrose, resulta na incapacidade dos
mente baixas, movem a água do leito vascular hepatócitos em sintetizar albumina.
para os tecidos (edema ).
§ Desnutrição o u d i m i n u i ç ã o d a i n g e s t ã o p r o -
§ Transporte e armazenamento de vários com- téica.
postos muito dos quais pouco solúveis em
água. Por exemplo, a albumina liga (e solubi- § Síndromes de má absorção, r e d u ç ã o d a a b s o r-
liza) vários compostos não-polares como a bi- ção de aminoácidos.
lirrubina não-c o n j u g a d a t r a n s p o r t a n d o -a até o
fí gado; ácidos graxos de cadeia long a q u e s e Aumento do catabolismo protéico. Como
ligam fortemente à albumina, sendo assim resultado de lesões (cirurgia de grande porte ou
trans portados do fígado para os tecidos perifé - trauma), infecção ou malignidade.
ricos. A concentração plasmática de diversas
s u b stâncias, tais como cálcio, alguns hor- Perda de proteínas. Urina: é a forma mais
mônios (tiroxina, triiodotironina, cortisol, al- severa desta anormalidade com concentrações de
dosterona) e triptofano, são reguladas, de certo albumina de até < 2 g/L, geralmente com presença
modo, pela sua ligação à albumina. Várias dro - de edema . As principais causas são: síndrome
gas, por exemplo, salicilatos, fenilbutazona, nefrótico, glomerulonefrite crônica, diabetes ou
clofibrato, dicumarol, penicilina G e warfarin, lupus eritematoso sistêmico. Fezes: enteropatia
também se ligam fortemente à albumina. perdedora de proteínas aumentada por enfermi -
d ade neoplástica ou inflamatória. Pele: queimadu-
ras.
H IPERALBUMINEMIA
Distribuição alterada. S e q ü e s t r o d e g r a n d e s
É e n c o ntrada raramente como nos casos de carc i- quantidades de albumina do compartimento extra-
nomatose metastática, desidratação aguda, dia r- celular, por exemplo, na ascite, quando a elevada
réia, esclerodermia, esteatorréia, estresse, febre pressão na circulação portal dirige a albumina
reumática, gravidez, intoxicação hídrica, lúpus para o líquido peritonial.
eritematoso sistêmico, meningite, miastenia, mi e-
loma múltiplo, nefro se, neoplasias, osteomielite, Outras anormalidades. A analbuminemia, uma
pneumonia, poliartrite nodosa, sarcoidose, tra u - rara doença caracterizada pela ausência congênita
de albumina, e bisalbuminemia, detectada na ele-
troforese pelo aparecimento de duas bandas ou
Aminoácidos e proteínas 71

uma banda mais larga no lugar da banda normal de chados, o soro límpido é estável por uma semana
albumina. Nenhum sintoma clínico está associado em temperatura ambiente ou um mês no refri-
a bisalbuminemia. gerador.

O termo “microalbuminemia” é empregado Interferências. Resultados falsamente elevados:


para descrever aumentos na excreção de albumina agentes citotóxicos, anticoncepcionais orais e
sem evidências ou enfermidade renal. Esta condi- bromossulfaleína. Resultados falsamente reduzi -
ção é encontrada em certas populações de diabéti- dos: paracetamol, aspirina, estrogênios, anticon -
cos que desenvolvem enfermidade renal. Entre- cepcionais orais, ampicilina, asparaginase e flu o -
tanto, a presença de albumina na urina é um rouracil.
ac h ad o n ã o -específico. A hipertensão, infecção do
trato urinário, exercício e enfermidade cardíaca Métodos. Os primeiros métodos para a separação
congestiva também podem aumentar a excreção da da albumina das globulin as empregavam o fracio -
albumina na urina. namento salino. Os mais populares usavam o sul-
fato de sódio com a medida da albumina pelo
método de Kjeldahl ou pelo desenvolvimento de
C ONSEQÜÊNCIAS DA HIPOALBUMINEMIA cor pela reação do biureto.

A hipoalbuminemia afeta a distribuição líquida do Verde de bromocresol. Atualmente, os métodos


corpo e as concentrações plasmáticas de substân- mais amplamente empregados para a análise da
cias transportadas ligadas à albumina. albumina são os de fixação de corantes. A albu-
mina tem a capacidade de fixar seletivamente
§ Distribuição dos líquidos corporais. A albu- vários aníons orgânicos, entre os quais, moléculas
mina é o mais importante contribuinte da pres - de corantes complexos como o verde de bromo -
são oncótica do plasma e sua redução resulta cresol (BCG), azul de bromofenol (BPB) ou púr-
em edema. p u r a d e b r o mo cresol (BCP). Ao ligarem-se à al-
bumina estes corantes sofrem um desvio nas suas
§ F u n ç ã o t r a n s p o r t a d o r a . O s n í v e i s d e c o n s ti- absorções máximas. A quantidade de albumina
tuintes normalmente transportados pela alb u - ligada ao corante é proporcional ao teor de albu-
mina estão diminuidos. Por exemplo, calcemia,
mina na amostra. O método do BCG é o recomen-
drogas e bilirrubina transportada por proteínas.
d a d o p o r a p r e s e n t a r b o a especificidade e não so-
A ligação da bilirrubina à albumina impede que
a bilirrubina “livre” atravesse a barreira san- frer interferências da bilirrubina, salicilatos, he-
gue/cérebro e, portanto, a sua d ep o s i ç ã o n o s moglobina ou lipemia quando em níveis modera -
tecidos cerebrais (kernictericus na icterícia ne- dos. Este princípio é empregado para a química
onatal). s e c a n o DT Vitros.
Eletroforese. O emprego da eletroforese das
D ETERMINAÇÃO DA ALBUMINA SÉRICA proteínas para a separação da albumina fornece
também informações adicionais sobre as globuli-
P a c i e n t e . Não deve consumir dieta rica em gor- nas.
dura por 48 h a n t e s d a p r o v a . Outros métodos. A albumina também pode ser
avaliada pela determinação das globulinas baseada
Amostra. S o r o . Evitar estase prolongada na c o - no conteúdo de triptofano das globulinas. Vários
leta de sangue, pois a hemoconcentração aumenta métodos tais como: eletroimunoensaio, imuno -
os níveis de proteínas plasmáticas; além disso, a químico, nefelométrico, imunodifusão radial, ele-
postura do paciente deve ser observada já que o troimunodifusão, turbidimetria, radioimunoensaio
teor de albumina é, aproximadamente, 0,3 g/dL e enzimaimunoensaio são também empregados
maior em pacientes ambulatoriais quando rela - para a determinação da albumina sérica.
cionados aos hospitalizados. Em frascos bem fe -
72 Bioquímica Clínica: Princípios e Interpretações

KOAY, Evelyn S. C., WALMSLEY, Noel. A primer of


Valores de referência para a albumina sérica c he m i c a l p a t h o l o g y. Singapore : World Scientific, 1996.
Homens adultos 3,5 a 5,0 g / d L p . 1 6 2 -7 6 .

Mulheres adultas 3,7 a 5,3 g/dL LAKER, M. F. Clinical biochemistry for medical
s tud e n t s . P h i l a d e l p h i a : S a u n d e r s , 1 9 9 6 . p . 4 3 -5 6 .
Recém-n a s c i d o s 2,8 a 5,0 g/dL
Acima de 60 anos 3,4 a 4,8 g/dL M A R S H A L L , W i l l i a m J . Clinical chemistry: na ilustrated
o u t l i n e . N e w Y o r k : G o w e r-M o s b , 1 9 9 1 . 1 7 6 p .

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Aminoácidos e proteínas 73

PROTEÍNAS PLASMÁTICAS ESPECÍFICAS

A s proteínas nos líquidos biológicos são molé-


culas anfóteras que podem ser separadas em
frações quando aplicadas sobre um suporte poroso P RÉ - ALBUMINA
e submetidas a um campo elétrico em processo
denominado eletroforese. A migração ocorre de Nesta fração, junto a pré-a l b u m i n a também migra
acordo com o grau de ionização, tamanho e forma a p r o t e í n a l i g a d o r a d e r e t i n o l (RBP). Ambas são
da molécula protéica, também como, das caracte- sintetizadas no fígado e tem uma meia -vida menor
rísticas da solução tampão (pH, composição qua- que 12 h, consequentemente, estas avaliações
litativa, força iônica) do meio onde se realiza o fornecem indicadores simples e sensíveis de des -
processo; da força do campo elétrico; da porosi- nutrição ou disfunção hepática. Os níveis caem
dade, viscosidade e temperatura do suporte. rapidamente nas reduções calóricas e protéicas na
A separação das proteínas é realizada em soro dieta.
para evitar interferências da banda do fibrinogê- A pré -albumina transporta a tiroxina (T 4 ) e a
nio. triiodotironina (T 3 ). Os níveis séricos da pré -a l-
Em pH 8,6, empregando os métodos eletrofo - bumina diminuem na inflamação, doenças mali-
réticos correntes, as proteínas no soro sangüíneo gnas, cirrose hepática e enfermidades renais per-
são divididas nas seguintes frações principais: dedoras de proteínas. Na doença de Hodgkin os
pré -albumina, albumina, frações α 1 , α 2 , β 1 , β 2 e γ. níveis aumentam.
A migração destas macromoléculas é realizada em A proteína ligadora de retinol (RBP) transport a
suportes como o acetato de celulose, gel de aga- a vitamina A (retinol). A RBP sérica eleva em
ro se, gel de poliacrilamida e gel de amido, em enfermidades renais crônicas, especialmente em
re s posta a um campo elétrico. pacientes com proteinúria tubular. A redução está
As frações obtidas no soro por eletroforese tem associada com enfermidade hepática e má nutrição
os seguintes valores de referência: protéica. Como o zinco é necessário para a síntese
de RBP, os estados de deficiência deste metal são
Proteínas Valores de referência (g/dL) caracterizados por baixos níveis de RBP e vita-
Pré -albumina 0,020 a 0,040 mina A. A RBP é quantificada por nefelometria.
Albumina 3,50 a 5,00
Região α 1 0,10 a 0,40
Região α 2 0,50 a 1,00 A LBUMINA
Região β 1 0,32 a 0,66
Região β 2 0,27 a 0,55 Variações na concentração de albumina sérica em
Região γ 0,59 a 2,35 vários estados foram descritas na seção 3.2.

Cada fração protéica obtida por eletroforese é


constituída de proteínas individuais que podem ser
R EGIÃO α 1
determinadas por vários métodos, como nefelo -
metria, imunodifusão radial, imunoeletroforese,
etc.

A LFA 1 - ANTITRIPSINA (AAT)


As proteínas como a tripsina, quimiotripsina,
elastase e trombina são continuamente liberadas
para o sangue em pequenas quantidades a partir de
74 Bioquímica Clínica: Princípios e Interpretações

várias fontes, incluindo o pâncreas, leucócitos e Valores de referência


bactérias in testinais. A AAT é uma das várias Recém nascidos 145 a 270 g/dL
proteínas que inibem a atividade destas proteases, Adultos 78 a 200 g/dL
particularmente, a elastase dos neutrófilos, e pode Acima de 60 anos 115 a 200 g/dL
atuar na limitação da atividade proteolítica nos
sítios de inflamação. O interesse na AAT é a asso-
ciação entre certas doenças do pulmão e fígado Valores aumentados. Doença pulmonar crô -
n ica, doenças do fígado, diabetes mellitus, doen-
com a sua deficiência devida ao polimorfismo
ças reumáticas, doenças gástricas, doenças renais,
g e n é t ic o . pancreatite, carcinoma, edema angioneurótico,
Foram identificados vários fenótipos da defic i- cirrose, hepatoma, gravidez, terapia com estrogê-
ência de AAT. O fenótipo MM (alelo Pi M , inibidor nios e esteróides.
da protease) está associado com a atividade nor-
mal da AAT. Indivíduos homozigóticos com o Valores reduzidos. Deficiência congênita e
fenótipo ZZ produzem somente pequenas quanti- perdas severas de proteínas.
dades de AAT plasmático. Estas pessoas estão
propensas as seguintes desordens:
A LFA 1 - GLICOPROTEÍNA ÁCIDA (AAG)
§ Enfisema pulmonar. Ao redor de 1% dos paci-
entes com enfisema apresentam dificiências de É composta por 45% de carboidratos, com hexose,
AAT, sendo esta percentagem mais elevada em hexosamina e ácido siálico em iguais proporções.
jovens. Quando associado com deficiência de Sua função primária é inativar a progesterona,
AAT, o enfisema tende a se manifestar em gru - mas também ligar e afetar a fármaco-cinética de
pos com idade entre 20-40 anos. O fumo parece algumas drogas. Apesar do papel exato da AAG
ser um importante fator que predispõe ao des - ser desconhecido ela está aumentada na artrite
envolvimento da doença nestes pacientes, pro- reumatóide, lupus eritematoso sistêmico, neo -
vavelmente pelo estímulo da atividade fagoci- plasma maligno, queimaduras e infarto do mi o -
tária com a liberação local de proteases. Part í - cárdio. A redução ocorre na má nutrição, enfermi-
culas e bactérias inaladas são continuamente dade hepática severa, síndrome nefrótica, anticon-
removidas dos pulmões no processo de fago - cepcionais orais e gastroenterites perdedoras de
citose. Quando a AAT é deficiente, a enzima proteínas. Os valores de referência para a AAG
não é inibida e ataca a elastina da parede alv e- são: 50-150 mg/dL.
olar. A perda de elasticidade do tecido pulmo - A determinação de AAG substitui com vanta-
nar provoca enfisema com redução da ventila- gens o teste de mucoproteínas (seromucóides),
ção e aumento na vulnerabilidade para infec- descrito adiante.
ções respiratórias.

§ Desordens hepáticas. A icterícia neonatal g e- A LFA 1 - FETOPROTEÍNA (AFP)


ralmente se apresenta como um quadro cole s - É uma glicoproteína sintetizada no fígado fetal,
tático, sendo comum em indivíduos com o tipo sistema digestório e saco vitelino humano. O nível
ZZ. Apesar da resolução da icterícia, pode máximo é atingido na 30 a s e m a n a d e g e s t a ç ã o e
ocorrer o desenvolvimento de cirrose. Ao redor no câncer hepático primário. Em obstetrícia a
de 20% das crianças com cirrose, a desordem determinação de AFP é realizada no líquido am-
hepática pode ser atribuída a deficiência de niótico ou soro materno para detectar defeito do
AAT. Em adultos a cirrose e o hepatoma estão t u b o n e u r a l (anencefalia, espinha bífida) do feto.
associados com o fenótipo Pi z . A dosagem simultânea da AFP, β-HCG (hor-
mônio coriônico gonadotrófico fração beta) e e s -
triol livre é utilizada como avaliação do risco fetal
em mulheres no segundo trimestre de gravidez
Aminoácidos e proteínas 75

(entre 14 e 20 semanas) na detectação de 70% da R EGIÃO α 2


síndrome de Down (Trissomia do cromossomo 21)
e de 95% dos casos de defeitos do tubo neural
aberto. A avaliação do risco fetal não é um teste
diagnóstico, mas sim uma oportunid a d e d e r a s t re- H APTOGLOBINA (HAP)
amento, que informa o risco da paciente para as
aneuploidias mais freqüentes e para defeitos de É uma glicoproteína sintetizada nos hepatócitos e,
fechamento do tubo neural. em pequenas quantidades, nas células do sistema
A freqüência da síndrome de Down é de 1/800 retículo endotelial destinada ao transporte da he-
nascimentos. A doença não é hereditária, mas há 5 mo globina livre no plasma para o sistema retículo
a 10% de casos com “história familiar”. O risco de endotelial onde é degradada. A hemoglobina não-
nascimento de uma criança com síndrome de ligada à haptoglobina é filtrada pelos glomérulos e
Down cresce com o aumento da idade materna precipita nos túbulos causando enfermidade renal
(com 45 anos o risco chega a 1/30). s e v era. Isto normalmente não ocorre com o com-
A elevação da AFP não é específica de ma - plexo haptoglo bina-hemoglobina que é muito
lig nidade. Está presente em 15 a 75% das hepato- grande para ser filtrado, prevenindo, assim, lesões
p at i a s b e n i g n a s c o m atividade regenerativa do renais e a perda de ferro. O complexo é degradado
h epatócito como a cirrose, hepatite alcoólica, no fígado ou sistema retículo endotelial, o que
h e p atite crônica ativa, em doenças inflamatórias explica o teor reduzido de haptoglobina após epi-
intestinais e colite ulcerativa. sódios hemolíticos. Determin ações isoladas desta
A AFP é marcador tumoral para carcinoma he- fração é de pouca utilidade; determinações seria -
p a t o c ecular e de células germinativas (não semi - d a s , e n t retanto, são empregadas para monitorar
nomas). Embora seja útil no diagnóstico, sua prin - estados hemolíticos.
cipal aplicação é na monitorização da eficácia do
tratamento cirúrgico ou quimioterápico e no ras - Valores de referência: recém nascidos 5-48
tre amento dessas neoplasias. Os níveis caem a mg/dL; adultos: 34-215 mg/dL.
valores normais ao redor de 4 a 6 semanas após
tratamento. Aumento nos teores após remissão Valores aumentados. Queimaduras, infecções
indicam a recorrência do tumor na maioria dos agudas, terapia com corticóide, a n drogênios, do-
casos. enças do colágeno, neoplasias e s í ndrome
nefrótica – o n d e g r a n d e q u a n t i d a d e d e p r o t e í n a s
Valores de referência para a AFP de baixa massa molecular são perdidas.
Líquido amniótico (20 ª semana) 5 a 25 mg/dL
Soro materno (20 ª semana) 20 a 100 µg / L Valores reduzidos. Hemólise intravascular,
Recém-n a s c i d o s 5 mg/dL d o e n ç a s s e v e r a s d o f í g a d o , e s t r o g ê n i o s, anemia
megaloblástica, hematomas, gravidez, mononucle-
ose infecciosa, reações de transfusão e malária.
Nestes dois últimos casos, são frequentes as soli-
A LFA 1 -L IPOPROTEÍNA
citações de haptoglobina acompanhada de lactato
Transportadora de lipídios (v. adiante). desidrogenase e hemoglobina.

A LFA 2 - MACROGLOBULINA (AMG)


É inibidora das proteases de modo diferente que o
descrito para a AAT. Inibe a atividade da tripsina,
quimiotripsina, trombina, elastase, calicreína e
plasmina. Está diminuída em pacientes com artrite
reumatóide, mieloma múltiplo e submetidos a
76 Bioquímica Clínica: Princípios e Interpretações

terapia com estreptoquinase. Pode estar elevada Valores de referência para a


durante a gravidez, terapia com estrogênios, al- ceruloplasmina (mg/dL)
gumas doenças hepáticas, diabetes mellitus e 1 a 2 meses 05 a 18
sindrome nefrótica. A avaliação da AMG rara- 6 a 12 meses 33 a 43
mente tem valor clínico. 13 a 36 meses 26 a 55
4 a 5 anos 27 a 55
Valores de referência: Homens: 150 a 350 6 a 7 anos 24 a 54
mg/dL; mulheres: 175 a 420 mg/dL. Acima de 7 anos 20 a 54
Adultos 18 a 45
Valores aumentados. Síndrome nefrótica, gra-
videz, hemólise, infância, diabetes mellitus, in -
flamações agudas e crônicas, neoplasias, cirrose, Valores aumentados. Artrite, doença de
deficiência de α 1 -antitripsina e terapia com estro - Hodgkin, estados neoplásicos e inflamatórios,
g ênio. gravidez, emprego de estrogênios, antiepilépticos
e contraceptivos orais.
Valores reduzidos. Pancreatite aguda grave e
Valores reduzidos. Má nutrição, má absorção,
úlcera péptica.
doença de Wilson, perda de proteínas, síndrome
nefrótica, e enfermidade hepática severa, partic u -
larmente a cirrose biliar primária.
C ERULOPLASMINA (CER)
É sintetizada no fígado e transporta 90% do cobre
no plasma. Os 10% restantes são transportados R EGIÃO β 1
pela albumina. Seis átomos de cobre estão ligados
em cada molécula de ceruloplasmina. Está au -
mentada em infecções, doenças malignas e
trauma. Os aumentos são particularmente notáveis T RANSFERRINA (TRF, SIDEROFILINA )
em enfermidades do sistema retículoendotelial
como a doença de Hodgkin. O nível está também É a principal proteína plasmática transportadora
elevado nas infecções ou obstrução do trato biliar. de ferro. Os íons férricos provenientes da degra-
A a p licação mais importante da avaliação da ce- d a ç ã o d o h e m e n o f í g a d o e a q u e l e s a b s o r v id o s a
rulo plasmina é no diagnóstico da doença de partir da dieta, são transportados pela transferrina
Wilson (defeito autossômico recessivo raro com para os locais de produção dos eritrócitos na me-
incidên cia 1:50.000 a 1:100.000). As anormalida- dula óssea. Sua concentração está relacionada com
des neste distúrbio são: diminuição da CER com a capacidade total de ligação de ferro (TIBC). A
redução da incorporação do cobre na apoproteína avaliação da TRF é útil no diagnóstico diferencia l
e redução drástica da excreção biliar do cobre. O da anemia ferropênica e no acompanhamento do
c o b r e dep o s i t a n o s r i n s , n o f í g a d o o n d e c a u s a seu tratamento. Na deficiência de ferro ou anemia
cirrose e no cérebro onde lesa a ganglia basal. hipocrômica, o teor de TRF está elevado em vir-
Esta enfermid ade também é chamada de d e g e n e - t u de do aumento da síntese, entretanto, a proteína
r a ç ã o h e p a t o l e n ticular. Os teores de CER são está menos saturada com o ferro pois os níveis de
afetados pela idade, exercício, gravidez e admi - ferro plasmático estão baixos. Por outro lado, se a
n i s t r a ç ã o d e e s t r o g ê n ios. Na ausência de enfermi - anemia é causada por impedimento da incorpora-
dade hepática severa, níveis abaixo de 10 mg/dL ção do ferro nos eritrócitos, a concentração de
s ã o s u g e s t i v o s d e e n fermidade de Wilson. TRF está normal ou baixa, mas saturada de ferro.
Na sobrecarga de ferro, a TRF está normal en -
quanto a saturação (normalmente 30-38%) excede
55% e pode chegar até a 90%.
Aminoácidos e proteínas 77

Valores de referência: recém nascidos 130-275 R EGIÃO β 2


mg/dL; adultos: 220-400 mg/d/L e acima de 60
anos 180-380 mg/dL.

Valores aumentados. Anemias por deficiência


F IBRINOGÊNIO
de ferro, gravidez e durante a terapia com estro -
g ê nio. O fibrinogênio é uma glicoproteína sintetizada
pelo fígado. Atua como substrato para a ação da
Valores reduzidos. Ocorrem, juntamente com baixos enzima trombina. É composta por três diferentes
teores de albumina, pré-albumina e β-lipoproteína, em pares de cadeias polipeptídicas ligadas por pontes
inflamações e doenças malignas. A causa da redução na dissulfeto, que sob a ação da trombina formam
síntese ainda é desconhecida. Outras causas de diminui- fibrinopeptídios A e B. A defic iência de fibrin o -
ção da TRF são: enfermidade hepática (redução da sín- gênio pode resultar da falta de produção da molé-
tese), má nutrição, síndrome nefrótico, neoplasias, he- cula normal (afibrinogenia ou hipofibrogenia) ou
mólise, enteropatias perdedoras de proteínas, a transfer- da produção de uma proteína estruturalmente
rinemia hereditária onde os níveis bastante reduzidos de anormal (disfibrinogenia).
TRF são acompanhados de sobrecarga de ferro e anemia
hipocrômica resistente à terapia pelo ferro. Valores de referência: 200 a 450 mg/dL.

Valores aumentados. D o e n ç a s inflamatórias


H EMOPEXINA (H X , H P X ) agudas e crônicas, síndrome nefrótica, doenças
hepáticas/cirrose, gravidez, estrogênio terapia e
Atua no transporte do heme livre após catabolismo coagulação intravascular compensada.
da hemoglobina em seus componentes. O com-
p lexo heme -hemopexina atinge o fígado onde a Valores reduzidos. Coagulação intravascular
p o rção heme é convertida em bilirrubin a. Esta aguda ou descompensada, doença hepática avan-
fração dificilmente é quantificada no laboratório çada, terapia com L-asparaginase, terapia com
clínico. agentes fibrinolíticos (estreptoquinase, uroquinase
e ativadores de plasminogênio tissular), disfibri-
nogenemia congênita – o n d e o s i n d i v í d u o s a f e t a-
B E T A-L IPOPROTEÍNA dos podem ser assintomáticos ou apresentar epi-
Transportadora de lipídios (v. adiante). sódios esporádicos de sangramento.

C OMPLEMENTO FRAÇÃO C4 C OMPLEMENTO FRAÇÃO C3

A fração C4 participa da via clássica de ativaç ã o A fração C3 é um dos nove componentes princi-
do complemento e atua na resposta imunológica pais do complemento total; atua na resposta
humoral. Sua deficiência tem caráter autossômico imunológica humoral.
recessivo e resulta em redução da resposta à in -
feccões. Valores de referência: 80 a 170 mg/dL.

Valores de referência: 15 a 45 mg/dL.


B E T A2 - MICROGLOBULINA (BMG)
É uma proteína de baixa massa molecular (11.800)
facilmente filtrada pelo glomérulo e quase total-
mente reabsorvida pelos túbulos renais. Níveis
elevados no plasma ocorrem na insuficiência re-
78 Bioquímica Clínica: Princípios e Interpretações

nal, inflamação e neoplasma, especialmente I MUNOGLOBULINAS ( ANTICORPOS


HUMORAIS )
aqueles associados com os linfócitos B. O princi-
pal valor da determinação da BMG é testar a fu n -
ção tubular renal, particularmente nos receptores As imunoglo bulinas são proteínas especializadas
de transplantes renais onde a rejeição se manifesta sintetizadas pelos linfócitos em resposta a um
pela redução da função tubular. antígeno; podem reconhecer e precipitar, ou neu -
tralizar invasores como bactérias, vírus ou pro teí-
Valores de referência nas estranhas oriundas de outras espécies, ou ou-
Soro 0,10 a 0,26 mg/dL tras substâncias. Cada p roteína estranha estimula a
Urina 0,03 a 0,37 mg/d formação de um conjunto de diferentes anticorpos,
LCR 0,30 mg/L os quais podem combinar com o antí geno para
formar um complexo antígeno-anticorpo. A pro -
dução de anticorpos é parte de um mecanismo
R EGIÃO γ geral de defesa denominado resposta imunitária
ou imunológica.
Os anticorpos são proteínas com moléculas em
forma de Y, consistindo de quatro cadeias poli-
p e p t í d i c a s : d u a s c a d e i a s p e s a d a s ( H ) e d u a s c a-
P ROTEÍNA C REATIVA (PCR) deias leves (L). As seqüências de aminoácidos das
É sintetizada no fígado – presente no plasma de regiões variáveis das quatro cadeias determinam a
p a c i e n t e s c o m d o e n ç a s a g u d a s – e capaz de se especificidade antigênica de um anticorpo em
ligar ao polissacarídio -C da parede celular do particular, cujos sítios de ligação, que são com-
S t r e p t o c o c c u s p n e u m o n i a e . A PCR é um marcador plementares a características estruturais específi-
n ã o -específico que eleva durante a resposta imune cas da molécula de antígeno, tornam possível a
para a infecção, lesão tecidual ou necrose celular formação do complexo antígeno-anticorpo.
associada com infarto ou malignidade. Medidas
repetidas são úteis no estudo do curso de doenças IgG. Corresponde a 70-75% das imunoglobulinas
( c o mo acompanhar terapia du rante a inflamação totais. A IgG difunde para o espaço extra -vascular
ou processo necrótico). A PCR está envolvida com (65% da IgG) devido ao seu pequeno tamanho,
o sistema auto-imune e atua na ativação do com- sendo também capaz de atravessar a placenta. Sua
plemento, fagocitose e liberação das linfocinas. principal função parece ser a neutralização de
t o x i n a s n o s es p a ç o s t e c i d u a i s . A n t i c o r p o s d a
Valores de referência: 80-800 µg/dL. cla s se IgG são produzidos em resposta à maioria
das bactérias e vírus; agregam e envolvem peque-
Valores aumentados. Infarto do miocárdio, nas proteínas estranhas como as toxinas bacteria -
estresse, trauma, infecções (ex.: recorrentes no nas. Informações mais precisas sobre as imunida-
lupus eritematoso sistêmico), inflamação (ex.: des são obtidas pela avaliação das quatro subclas -
fase aguda da artrite reumatóide), cirurgia ou pro- ses da IgG: IgG1 , IgG2 , IgG3 e IgG4 .
liferação neoplástica, espodilite anquilosante e
necrose tecidual. O aumento pode chegar até 2000 IgA. Aproximadamente 10-15% das imunoglobu -
vezes o valor de referência. Entretanto, como o linas séricas são IgA. Existe outra forma de IgA,
aumento é inespecífico, ele não pode ser interpre- provavelmente mais importante, chamada IgA
tado sem uma história clínica completa e também secretora. É encontrada nas lágrimas , suor, saliva,
com a comparação com outros exames. leite, colostro, secreções gastrointestinais e brô n-
quicas. A IgA fornece proteção da área externa
contra microorganismos.
Aminoácidos e proteínas 79

IgM, na superfície dos linfócitos B. Sua função é


desconhecida.

IgE. Encontrada no plasma somente em pequenas


quantidades. Incluem as reaginas que se ligam às
células. Em presença de antígeno (alérgeno), e
como um dos resultados da reação antígeno-a n t i-
corpo, ocorre a liberação de histamina e o u t r a s
aminas e polipeptídios da células, produzindo uma
reação de hipersensibilidade local.

Valores de referência (por nefelometria)


Idade IgG IgA IgM IgD IgE

Soro mg/dL mg/dL mg/dL mg/dL UI/mL

Neonatos 700-1480 0-2,2 5-30 (DIR) (RIE)

Figura 8.1. Representação de uma molécula de 1 6 - 60 anos 650-1500 7 6-390 4 0-345 0-8 0-380
imunoglobulina. A molécula consiste de duas cadeias >60 anos 600-1560 9 0-410 3 0-360 - -
pesadas e duas cadeias leves ligadas por ligações
dissulfeto ( - S- S- ). Tanto a cadeia pesada, como a LCR 0-5,5 0-0,6 0-1,3 - -
cadeia leve, apresenta uma região variável e uma Saliva - ~11 - - -
região constante.

IgM. É um pentâmero produzido como primeira


resposta imune ao estímulo antigênico. É a pri-
D EFICIÊNCIA DAS IMUNOGLOBULINAS
meira imunoglobulina produzida pelo feto durante
o desenvolvimento. Ela está confinada ao sangue A defesa imunológica depende de quatro sistemas
em razão de sua elevada massa molecular que interativos:
impede a passagem para o espaço extravascular. A
IgM não atravessa a barreira placentária, níveis § A n t i c o r p o s humorais (imunoglobulinas) da
elevados em recém-nascidos durante a primeira série de linfócitos B.
semana de vida sugerem infecção pré -natal (rubé-
ola, citomegalovírus, toxoplasmose etc.). O au - § Imunidade celular-mediada dos linfócitos T.
mento policlonal é encontrado na cirrose, esclero-
derma, endocardite bacteriana, tripanosomíase, § O sistema fagocitário.
malária, mononucleose i nfecciosa, actinomicose e
leucemia monocítica. Também é empregada na § Sistema do complemento.
avaliação da imunidade humoral, diagnóstico e
monitoramento da terapia da macroglobulinemia Os dois últimos sistemas são não específicos e
de Waldenström (aumento monoclonal da classe não tem memória imunológica para o antígeno. O
IgM). No adulto compreende 5-10% das imuno - primeiro e o quarto são proteínas pla s máticas.
globulinas circulantes totais. As principais causas de deficiência das imuno-
globulinas são:
IgD. Constitui menos que 1% das imunoglobuli-
Causas secundárias. (Comuns):
nas totais. Sua estrutura é similar a IgG. Muitas
vezes estão presentes associadas ao monômero
§ Defeito na síntese (a IgM cai primeiro, a seguir
a IgA e, finalmente, a IgG)
80 Bioquímica Clínica: Princípios e Interpretações

− Neoplasia linfóide (leucemia linfocítica H IPERGAMAGLOBULINEMIA


crônica, doença de Hodgkin e mieloma
POLICLONAL
múltiplo).

− Reação tóxica, insuficiência renal (perde- A hipergamaglobulinemia policlonal é caracteri-


d o ra de proteínas) e diabetes mellitus. zada por aumentos difusos das gamaglobuline-
mias. É provocada pelo estímulo imune de muitos
− Drogas: fenitoína, penicilina e imunossu - clones celulares produzindo várias imunoglobuli-
pressores. nas. Representa a resposta das células β a o e s tí -
mulo antigênico e indica a presença de infecção
− Neonatal: prematuridade e atraso passageiro c r ô n i c a o u p r o c e s s o a u t o -imune. As principais
da síntese. causas são:

§ Perda anormal de proteínas Infecções crônicas. Brucelose, tuberculose,


parasitoses (malária), lepra, bronquie ctasia. Nes -
− S í n d rome nefrótica, queimaduras, lesões tes casos, as estimativas das imunoglo bulinas
exudativas e enteropatias perdedoras de específicas raramente fornecem mais i n formações
proteínas. q u e a e letroforese protéica. No entanto, as suas
determinações são de grande valor em alguns dia-
Causas primárias ou inerentes. (Raros). gnósticos diferenciais.

§ Insuficiência na produção de anticorpos. Doença hepática. Cirrose biliar primária, cir-


ro se portal e hepatite crônica ativa.
− Generalizada (infecções piogênicas seve-
ras). Infecções intrauterinas. A p r o d u ç ã o d e I g M
no feto aumenta e, ao nascer, o teor de IgM no
− Deficiência seletiva das seguintes imuno - s an g u e d o c o r d ã o e s t á e l e v a d o .
g lobulinas.
Doença inflamatória intestinal. Doença de
− IgA: a mais comum (1:700), sem sinto - Crohn e colite ulcerativa.
mas, mas as pessoas afetadas tendem a
sofrer doenças alérgicas ou autoimuno - Desordens auto-imunes. Artrite reumatóide e
nes. lúpus eritematoso sistêmico.

− IgG e IgA (IgM aumentada): infecções Granulomas. Sarcoidose.


piogênicas recorrentes.
Em alguns casos, as classes imunoglobulínicas
− IgA e IgM: comum na giardíase. fornecem a indicação da etiologia:

− IgG: infecções piogênicas recorrentes . § Predomínio de IgG: hepatite crônica ativa e


lúpus eritematoso sistêmico.
− IgM: susceptibilidade à enfermidade
a u t o -imune e a septicemia após esple- § Predomínio de IgA: cirrose criptogência, d o -
noctomia. ença de Crohn, tuberculose e sarcoidose.

§ Insuficiência combinada de anticorpo e imuni- § Predomínio de IgM: cirrose biliar primária e


d a d e c é l u l a -m e d i a d a . doenças parasitárias.
Aminoácidos e proteínas 81

§ Aumentos equivalentes das IgA, IgG e IgM: no raio X ósseo; biópsia da medula óssea com
infecções crônicas prolongadas. presença de células plasmáticas anormais.

§ Acompanhamento: hipercalcemia (e nvolv i-


H IPERGAMAGLOBULINEMIA mento ósseo); creatinina e uréia elevadas
(disfunção tubular e glomerular); β2 -micro -
MONOCLONAL ( PARAPROTEINEMIA )
g l o b u l i n a (níveis elevados indicam um mau
prognóstico – depende da renovação das cé-
As bandas de imunoglobulinas monoclonais vis í -
lulas tumorais e da função renal); hemoglo -
veis na eletroforese do soro sangüíneo, como p i- b i n a r e d u z i d a (depressão da medula); redução
cos estreitos e pontiagudos, são denominadas pa- das imunoglobulinas “normais” – n ã o -para -
r a p r o t e í n a s ou componentes monoclonais. Podem
proteína – o que predispõe à infecção.
ser polímeros, monômeros ou fragmentos de mo -
léculas de imunoglobulinas, como cadeias leves Macroglobulinemia de Waldenström. É uma
(proteínas de Bence Jo nes) ou, raramente, cadeias doença clonal de linfócitos plasmocitóides secre-
pesadas ou meias moléculas; tanto os monômeros tores de IgM. Geralmente apresenta um curso mais
como os fragmentos podem ser polimerizados. A prolongado que o mieloma múltiplo. Há uma pro -
detecção de uma paraproteína no sangue ou urina liferação de células que lembram os linfócitos em
necessita outras investigações para determinar se lugar de células plasmáticas. Elas produzem molé-
a mesma é benigna ou maligna. Parapro teínemias culas completas de IgM e, muitas vezes, excesso
malignas ocorrem no mieloma múltiplo (e plasma- de cadeias leves. A elevação do teor de IgM pro -
citoma), macroglobulinemia e outros tumores move o aumento da viscosidade plasmática com
linfóides. A prevalência de paraproteínemia au - t e n d ê n cia à trombose. Epistaxe, hemorragias reti-
menta com a idade e está ao redor de 3% da p o - nianas, confusão mental e insuficiência cardíaca
pulação geriátrica. c o n g e s tiva são manifestações típicas da síndrome
d e h iperviscosidade. O diagnóstico e o acompa-
M i e l o m a m ú l t i p l o . Cerca de 60% das parapro - nhamento da macroglobulinemia são realizados
t e í n a s s ã o d e v i d a s a o mieloma múltiplo (doença
pelos s eg u i n t e s t e s t e s :
maligna de plasmócitos basicamente na medula
óssea) que está associado com várias classes de § Eletroferese das proteínas no soro e urina.
imunoglobulinas, principalmente, a IgG. A maio -
Devem ser usadas amostras recém-colhidas
ria dos mielomas produzem moléculas de Ig co m- para evitar erros resultantes da deterioração.
pletas – geralmente IgA ou IgG – s e n d o a q u a n t i- Uma urina ao acaso é adequada para a d e-
dade produzida muitas vezes proporcional a massa
monstração da proteinúria de Bence-Jo n e s .
do tumor. Quantidades excessivas de fragmentos
de Ig (cadeias leves ou partes de cadeias pesadas) § Determinação quantitativa das paraproteínas
são também produzidas em 85% dos casos, apro -
e o u t r a s i m u n o g l o b u l i n a s n o s o r o . A análise
ximadamente. Dímeros de cadeias leves (44kDa) destes resultados permite a diferenciação entre
estão, muitas vezes, presentes na urina sendo d e- a hipergamaglobulinemia benigna e maligna.
nominados proteínas de Bence Jones. No mieloma
múltiplo são encontrados:
§ Imunoeletroforese ou imunofixação de proteí-
nas séricas e urinárias, p a ra determinar o tipo
§ Sinais clínicos: dor óssea, fatiga, anemia leve, de paraproteína.
infecção, insuficiência renal, hiperviscosidade
e u ma velocidade de hemossedimentação ele- § β2 -M i c r o g l o b u l i n a s é r i c a . Para monitorar o
vada. progresso da doença; níveis elevados destas
proteínas indicam um mau prognóstico.
§ Diagnóstico: banda de paraproteínas na eletro-
forese no soro e urina; lesões líticas difusas
82 Bioquímica Clínica: Princípios e Interpretações

§ Uréia e creatinina séricas, para avaliar a fu n- A resposta de fase aguda é mediada pela lib e-
ção renal. ração de citoquinas pelos macrófagos ativados.
Em infecções bacterianas isto é induzido pelas
§ Cálcio, fosfatase alcalina e ácido ú r i c o n o endoxinas das bactérias. Vários efeitos sistêmicos
acompanham a inflamação como febre, leucoci-
soro, medidos como índices da extensão do
t o se, alterações endócrinas, modificações no
envolvimento ósseo e renovação celular, re s -
equilí brio líquido e eletrolítico e proteólise mus-
pectivamente. cular.

Doença da cadeia pesada (doença de Proteínas de fase aguda. Este termo é usado
Franklin). Compreende um grupo de condições para denotar todas as proteínas que alteram a sua
raras nas quais os fragmentos de cadeia pesada concentração em 25% ou mais no período de uma
correspondentem a porção Fc das imunoglobulinas semana após dano tecidual. Entre elas estão: pro -
que são sintetizadas e excretadas na urina. A pro - teína C reativa, α 1 -antiquimiotripsina, haptoglo -
dução anormal de cadeias pesadas α e γ é a d e s o r- b ina, fatores do complemento e fibrinogênio. Al-
dem mais comum. g u mas destas proteínas são descritas acima. Duas
outras medidas são empregadas para avaliar o
P a r a p r o t e i n e m i a b e n i g n a . Pode ser transitória estado de fase aguda:
ou persistente. As paraproteínas ocorrem transit ó-
riamente durante infecções agudas em doença § V e l o c i d a d e d e s e d i m e n t a ç ã o g l o b u l a r . Modi-
a u t o -imune devido a estimulação de antígeno. ficações na VSG abrangem alterações em vá-
Paraproteinemia benigna estável ou persistente rias proteínas (fibrinogênio, α 2 -
macroglobulinas, imunoglobulinas e albumina)
pode ocorrer em tumores benignos das células B.
também, como o número e as características
S ã o e n c o n t r a d a s n o diabetes mellitus, infecções
das membranas dos eritrócitos.
crônicas, cirrose e desordens do tecido conjuntivo.
São características desta condição: § Medidas d a s c i t o q u i n a s . Com o estabeleci-
mento do papel das citoquinas, interleucina 1,
§ Concentração de paraproteínas abaixo de 2,0 interleucina 6 e o fator de necrose tumoral,
g/dL (<1,0 g/dL se a paraproteína for IgA). pelo estímulo da resposta de fase aguda, foi
sugerido as suas avaliações em condições i n -
§ Teores normais de albumina sérica e outras flamatórias. Ainda persistem vários problemas
imunoglo bulinas. técnicos na determinação rotineira destes
componentes.
§ Período maior que cinco anos sem elevação
nas concentrações das paraproteínas. Bibliografia consultada

ANDERSON, Shauna C., COCKAYNE, Susan. Clinical


§ Mais comum em idades avançadas, isto é, a c h e m i s t r y : c o n c e p t s a n d a p p l i c a t i o n s . Philadelphia,
prevalência é 2% entre 60-80 anos, 10% entre Saunders, 1993. 748 p.

80-90 anos e 20% para >90 anos. CANDLISH, J. K., CROOK, M. J. Notes on clinical
b i oc h e m i s t r y . New York : Word Scientific, 1993. 272 p.

J A M E S , K . A l p h a 2 -m a c r o g l o b u l i n a n d i t s p o s s i b l e
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LEHNINGER, Albert L., NELSON, David L., COX, Michael
É uma alteração não específica da síntese e nos M. Princípios de bioquímica. São Paulo : Sarvier,
1995. 839 p.
níveis plasmáticos de várias proteínas derivadas
do fígado após danos teciduais (trauma, infarto, LUZIO, J. P. & THOMPSON, R. J. Macromolecular
aspects of medical biochemistry. Cambridge :
malignidade) e infecções. É uma resposta à infla-
Ca m b r i d g e U n i v e r s i t y P r e s s , 1 9 9 0 . 2 7 8 p .
mação que promove o aumento nas concentrações
SILVERMAN, Lawrence M., CHRISTENSON, Robert H.
de algum a s p r o t e í n a s s a n g ü í n e a s o u t e c i d u a i s .
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Aminoácidos e proteínas 83

ASHWOOD, Edward R. Tietz textbook of clinical T H O M P S O N , D . , M I L F O R D -W A R D , A . , W H I C H E R , J . T .


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p. 86-100. 1987.
84 Bioquímica Clínica: Princípios e Interpretações

D ESORDENS NO METABOLISMO DOS A MINOÁCIDOS

O s erros inatos do metabolismo envolvem


defeitos enzimáticos que interrompem vias
A fenilcetonúria (PKU) é um erro inato do
metabolismo causado pela ausência (PKU clás -
fisiológicas. Estes impedimentos podem promo - s ica, tipo I) ou deficiência parcial (tipo II) da
ver: e n zima fenilalanina hidroxilase, que converte a
fenilalanina em tirosina. Na falta desta enzima, a
§ Excesso de precursores tóxicos. fenilalanina acumula no sangue, sendo metaboli-
zada por outra via produzindo catabólitos alterna-
§ Excesso de metabólitos tóxicos. tivos, tais como, ácido fenilpirúvico, ácido feni-
lláctico, ácido fenilacético e o seu conjugado com
§ Deficiência de metabólitos essenciais. a glutamina, a fenacetilglutamina. Estes metabó-
litos são rapidamente excretados na urina, resul-
Em condições normais, o rim reabsorve mais tando em fenilcetonúria. Este distúrbio ocorre com
de 95% dos aminoácidos filtrados, mas alguma uma freqüência de 1 para 10.000 nascimentos,
modificação do transportador ou saturação dos a p resentando sinais clínicos nas primeiras sema -
mecanismos de reabsorção por elevados níveis nas de vida; crianças não-t r a t a d a s p o d e m d e s e n -
plasmáticos podem provocar aminoacidúrias. volver retardo mental e redução na expectativa de
Muitos distúrbios do metabolismo dos aminoáci- vida.
d o s s ã o b e n i g n o s , e n q u a n t o o u t r o s e s t ã o a s s o c ia- Crianças afetadas apresentam-se normais ao
dos ao retardo mental, retardo do crescimento, nascimento e os primeiros sintomas são gera l-
convulsões, nefropatia, cirrose hepática e disfun- mente inespecíficos – desenvolvimento retardado,
ção de outros órgãos. As aminoacidúrias s ã o d e dificuldades na alimentação e vômitos, as vezes
dois tipos principais – excesso de fluxo e renal. suficientemente severo para sugerir estenose piló-
Excesso de fluxo. São as que acompanham os rica. Os pacientes também tendem a demonstrar
teores plasmáticos elevados de aminoácidos uma hipopigmentação. Isto ocorre porque a feni-
quando os túbulos renais são incapazes de reab- lalanina é um inibidor competitivo da tirosinase, a
sorver as concentrações elevadas dos aminoácidos enzima que inicia a via de produção da melanina.
no filtrado glomerular – ou seja, a capacidade de Níveis aumentados de fenilalanina também redu -
reabsorção máxima tubular renal é excedida. zem os teores de noradrenalina, mielina e seroto -
Renais. São condições associadas à excreção nina. Esta condição pode contribuir para os sinto-
urinária aumentada de um ou mais aminoácidos, mas neurológicos.
enquanto a concentração dos aminoácidos pla s - A pesquisa desta enfermid ade é, geralmente,
mático dos mesmos são normais. Estas condiç õ e s realizada na segunda semana de vida do paciente,
tem em comum um defeito no mecanismo de quando os níveis de fenilalanina estão aumenta-
transporte tubular renal de um ou mais aminoáci- dos, mas ainda não iniciou o processo de retardo
dos. men tal. O aumento do ácido fenilacético encon-
trado no suor e urina causa um odor murídio (s e-
melhante ao do rato).
H IPERFENILALANINEMIAS Outra forma de hiperfenilalaninemia é conhe-
cida como h i p e r f e n i l a l a n i n e m i a n e o n a t a l t r a n si-
As hiperfenilalaninemias são um grupo de desor- ente. Esta desordem é causada pelo retardo na
dens resultantes do impedimento da conversão de maturação hepática do sistema enzimático da fe-
fenilalanina à tirosina. Esta via é catalisada pela nilalanina hidroxilase. Esta condição não é um
enzima f e n i l a l a n i n a h i d r o x i l a s e , encontrada em defeito inerente; os níveis de fenilalanina podem
quantidades apreciáveis somente no fígado e rim. atingir 12 mg/dL inicialmente mas, progressiv a-
Aminoácidos e proteínas 85

mente, vão declinando até alcançar os valores Elevados níveis de tirosina são encontrados no
normais. sangue e urina, também como valores aumentados
de ácidos fenólicos e tiramina na urina. Diferente
d a t i r o s inemia I, a metionina plasmática não está
T IROSINEMIA E DESORDENS elevada. No sedimento urin ár i o s ã o e n c o n t r a d o s
cristais em forma de agulha.
RELACIONADAS

A tirosinemia tem várias formas, todas acomp a-


T IROSINEMIA NEONATAL TRANSIENTE
nhadas por tirosinúria e acidúria fenólica. A tiro -
sina é essencial para a síntese protéica e serve Neste distúrbio os teores de tirosinemia estão
como precursora da tiroxina, melanina e cateco - elevados em crianças prematuras e nascituras de a
laminas. A tirosina é proveniente da dieta protéica termo mas com baixo peso; apresentam imaturi-
como também da hidroxilação da fenilalanina. dade hepática e limitada capacidade de sintetizar
as enzimas apropriadas. Com o fígado maduro, a
tirosina acumulada volta ao normal em 48 sema -
T IROSINEMIA I ( TIROSINOSE ) nas.

A tirosinemia I (tirosinose, tirosinemia hepatorre-


nal) é uma desordem rara (1 para 100.000 nasci-
mentos) caracterizada pela excreção do ácido p -
C ISTINÚRIA
hidroxifenilpirúvico, quando o paciente es t á s o b
dieta normal e excreção de metabólitos da tirosina Esta desordem não é do metabolismo dos aminoá-
e pequenas quantidades de ácido cidos, mas de defeito no transporte de cistina
p -hidróxifenilacético, quando a dieta inclui ex- pelas células dos túbulos renais e intestino, sendo
ces so de tirosina. Acredita-s e s e r c a u s a d a p e l a transmitida como uma característica autossômica
ativ idade reduzida da enzima ácido fumarilaceto- recessiva. Nesta desordem também são excretados
a c et a t o h i d r o x i l a s e como também da ácido p -h i - outros aminoácidos como a lisina, arginina e o r-
droxifenilpirúvico oxidase (PHPPA oxidase). A nitina, mas o único que cristaliza é a cistina. A
perda da atividade enzimática provoca níveis ele- incidência deste destúrbio está entre 1 para 10.000
vados de tirosina no sangue e urina e da metionina (homozigóticos) e 1 para 20.000 (heterozigóticos)
no sangue. Aumentos nos níveis séricos de nascimentos.
α-fetoproteína estão também associados com esta A única manifestação clínica da doença – a
desordem. O dano hepático resulta em insuficiê n - fo rmação de cálculo urinário – inicia quando as
cia aguda e, em alguns casos mais graves, em c o n centrações urinárias de cistina excedem 30
cirrose. A lesão renal leva à síndrome de Fanco ni. mg/dL, o que ocorre durante a infância com inci-
dência máxima na terceira década de vida. Fre -
q ü e n t emente são formados cálculos múltiplos que
T IROSINEMIA II t e n dem a recorrência depois de removidos.
Os cálculos de cistina são branco-amarelados e
É uma deficiência da enzima hepática t i r o s i n a muitas vezes são moles mas podem também ser
aminotransferase que catalisa o primeiro estágio densamente granulares. A detectação de cristais de
do catabolismo da tirosina. As carecteristicas clí- cistina (hexagonais) no sedimento urinário pode
nicas são: lesões oculares (erosão da córnea), ser indicativo de formação de cálculo de cistina.
les õ e s d a p e l e , d a s p a l m a s d a s m ã o s e s o l a s d o s
pés. Estas lesões oculares e na pele são provavel-
mente secundárias a formação intracelular de
cristais de tirosina, que induz à inflamação. Ob -
s e r v a -se, ocasionalmente, retardo mental.
86 Bioquímica Clínica: Princípios e Interpretações

C ISTINOSE absorção, a deficiência de nicotinamida torna-s e


manifesta pelo exantema da pelagra que aparece
É uma doença de causa desconhecida caracteri- no primeira década de vida. Existem manifesta-
zada por defeito no processo de transporte através ções neurológicas, dor de cabeça, dificuldades em
das membranas lisossomais com deposição de c o n c e n t r a r-se, fraqueza dos membros e ataxia.
cristais de cistina. Manifestações sistêmicas sérias A cistinúria e síndrome de Hartnup produzem
resultam desta deposição. Os cristais se acumulam aminoacidúria por defeitos no transporte tubular
no fígado, rins, baço, medula óssea, nódulos lin - renal e, portanto, são as vezes designadas como
fáticos e córnea do olho. A cistinose ocorre em aminoacidúrias secundárias. Estas aminoacidúrias
cerca de 1 para 40.000 nascimentos. também podem ser devidas a doenças dos rins
O tipo nefropático da cistinose surge durante a (cistinose) onde há disfunção tubular renal gene-
infância. Estas crianças demonstram deficiê ncia ralizada, doença hepática ou desnutrição. Se, por
no crescimento, raquitismo, acidose e aumento da outro lado, as aminoacidúrias são resultantes de
excreção renal de potássio, glicose, fosfato e ami- defeitos enzimáticos das vias onde os aminoácidos
noácidos. Esta aminoacidúria renal é, muitas v e- são metabolizados, elas são designadas como ami-
zes, designada como aminoacidúria generalizada n o a c i d ú r i a s p r i márias.
em razão da perda paralela de outros aminoácidos
na urin a. Quando existir defeito nos túbulos pro -
ximais renais com glicosúria, aminoacidúria, fo s - A LCAPTONÚRIA ( ACIDÚRIA
fatúria, proteinúria e, as vezes, acidose, a cisti- HOMOGENTÍSICA )
n o se é conhecida como s í n d r o m e d e F a n c o n i . Na
forma grave há fotofobia e pode resultar em morte É caracterizada pela excreção urinária do ácido
como resultado da insuficiência renal. homogentísico (ácido diidroxifenilacético) por
Outra forma de cistinose – de início tardio, deficiência da enzima h o m o g e n t i s a t o d i o x i d a s e ,
intermediária ou adolescente – não manifesta sin - que catalisa a transformação do ácido homogentí-
tomas até a idade de 18 meses a 17 anos. A lesão é sico em ácido maleil acetoacético. É uma desor-
m e n o s s e v e r a e o s p a c i e n t e s n ã o a p r e s e n t a m s ín - dem rara com incidência de 1 para 250.000 nasci-
drome de Fanconi. O progresso do dano glome ru - mentos.
lar é mais lento que os casos típicos nefropáticos. Em crianças encontram-se o escurecimento da
Existe também uma forma benigna ou adulta de urina após exposição ao ar ou à luz do sol ou pela
cistinose, onde se encontram cristais de cistina na adição de álcali. Ela persiste durante a vida ge-
córnea, leucócitos e medula óssea. Estas pessoas ralmente sem consequências graves e pode não ser
não apresentam disfunção renal ou retinopatia. diagnosticada até a idade madura. O acúmulo de
polímeros de ácido homogentísico nas células
causam pigmentação escura nas cartilagens e no
S ÍNDROME DE H ARTNUP tecido conjuntivo além de alterações artríticas.

Nesta condição há aumento na excreção urinária


de alanina, treonina, glutamina, serina, aspara - D OENÇA URINÁRIA EM XAROPE DE
g ina, valina, leucina, isoleucina, fenilalanina,
BORDO
tirosina, triptofano, histidina e citrulina, resul-
tando em aminoacidúria renal. A incidência é de 1
É assim chamada devido ao odor característico
para 18.000 nascimentos.
Muitos pacientes com síndrome de Hartnup c o m u n i c a d o à u r i n a d e s s a s p e s s o a s p e l o s α-cetoá-
apresentam deficiência de nicotinamida, pois o cidos. Está associada com anormalidades no me -
tabolismo de aminoácidos de cadeias rami fic ad a s
triptofano é convertido em ácido nicotínico e n i-
cotinamida em humanos. O triptofano é pobre- como a leucina, isoleucina e valina nos líquid o s
mente absorvido nestes pacientes e, devido a má biológicos. É uma desordem hereditária autos s ô -
Aminoácidos e proteínas 87

mica recessiva que envolve defeito da enzima A LBINISMO


l i p o a t o -o x i d o r r e d u t a s e d o s α-c e t o á c i d o s de c a -
deia ramificada que catalisa a descaboxilação O albinismo é o resultado da ausência ou defic i-
oxidativa de cada um dos três α-cetoácidos, lib e- ência da enzima tirosinase que converte a tirosina
rando o grupo carboxila como CO 2 produzindo o em melanina. Foram identificados dois tipos de
derivado acil-CoA. A incidência desta desordem é albinismo (defeitos genéticos autossômicos reces-
de 1 para 200.000 nascimentos. sivos) dependendo da quantidade de melanina
A doença é tratada por dieta. Quando não d e- produzida. O albinismo do tipo I ocorre com a
tectada ou não tratada rapidamente, a desordem freqüência de 1 para 10.000 nascimentos. Ne -
r e s u lta em lesão cerebral severa e morte, que n h u ma melanina é produzida nestes pacientes e os
o c o rre em geral no primeiro ano de vida. Os sin - olhos, cabelos e pele são afetados. A visão fica
tomas incluem vômitos, convulsões, letargia, aci- bastante comprometida.
dose, falta de apetite e hipoglicemia. No tipo II uma pequena quantidade de mela -
n ina é produzida e a visão não é tão afetada
quanto no tipo I. O tipo I e o tipo II são defeitos
H OMOCISTINÚRIA g e n é t icos recessivos diferentes. A freqüência de
o c o rrência do tipo II é de 1 para 60.000 nasci-
As homocistinúrias são desordens cara cterizadas mentos.
pela aumento na concentração da homocisteína
nos tecidos do corpo. A incidência é de 1 para Bibliografia consultada
200.000 nascimentos.
EDWARDS, M. A., GRANT, S., GREEN, A. A practical
A h o m o c i s t i n ú r i a clássica é a deficiência ou
approach to the investigation of amino acid disorders.
ausência da enzima hepática de c i s t a t i o n i n a β- Ann. C l i n . B i o c h e m . , 2 5 :1 2 9 -4 1 , 1 9 8 8 .
sintase, que catalisa a formação de cistationina a JAGENBURG, R., RODJER, S. Detection of heterozygotes
partir da homocistina e serina no metabolismo da for phenilketonuria by constant intravenous infusion of
L -p h e n y l a l a n i n e . C l i n . C h e m . , 2 3 :1 6 6 1 -5 , 1 9 7 7 .
metionina. O bloqueio causa o acúmulo sangüíneo
e urinário de metionina, homocisteína e homocis - M A R S H A L L , W i l l i a m J . Clinical biochemistry: metabolic
a n d c l i n i c a l a s p e c t s . London : Churchill Livingstone,
tina. Além da metionina, a urina pode conter n í - 1995. 854 p.
veis aumentados de outros aminoácidos contendo REMALEY, A. T. “Phenylketonuria: Biochemical basis of a clinically
enxofre. heterogeneous disorder”. In: GLEW, R. H., NINOMIYA, Y.
Os sintomas não se manifestam logo após o Clinical studies in medical biochemistry. 2 ed. New York :
Oxford University Press, 1997. p. 302-9.
nascimento, mas se desenvolvem com a idade.
SAIFER, A. Rapid screening methods for the detection of
Uma das manifestações mais comuns é o ectopia i n h e r i t e d a n d a c q u i r e d a m i n o a c i d o p a t h i e s . Adv. Clin.
do cristalino. Ocorrem também anormalidades C h e m . , 1 4 :1 4 5 -2 1 8 , 1 9 7 1 .
esqueléticas como a osteoporose intensa. O re - S I V E R M A N , L . M . “ A m i n o a c i d s a n d p r o t e i n s ” . In: BURTIS,
tardo mental não é um achado c o n s i s t e n t e . A s C . A . , A S H W O O D , E . R . Tietz textbook of clini c a l
c h e m i s t r y . 2 e d . , P h i l a d e l p h i a : Saunders, 1994. p. 625-
complic ações que podem levar a morte são cardi- 734.
o v a s c u lares. Estes pacientes tem alterações nas WALMSLEY, R. N., WHITE, G. H. Guide to diagnostic
plaquetas e tendência para eventos a tromboem- clinical chemistry. Oxford : Blackwell, 1994. 672 p.
bólicos.
88 Bioquímica Clínica: Princípios e Interpretações

M UCOPROTEÍNAS (SEROMUCOIDES )
onde além de orientarem o diagnóstico, permitem
a avaliação da atividade inflamatória pois perma-
A s p r o t e í n a s p l a s máticas, à exceção das
imunoglobulinas e hormônios protéicos, são
sintetizadas no fígado, e chegam à corrente san-
necem alteradas enquanto persistir o surto.
Na fase aguda da artrite reumatóide infanto-
güínea, circulando entre o sangue e os espaços juvenil, as mucoproteínas apresentam os teores
extracelulares. Este movimento ocorre não apenas mais elevados, enquanto no adulto aumentam s o -
pela difusão passiva por meio das interfaces e ntre mente em 40% dos casos sem apresentar correla-
células endoteliais, mas também por causa dos ção com a duração, grau de atividade e tratamento
mecanismos ativos de transporte. Em face desse da doença.
movimento, a maioria dos fluidos extravas culares As mucoproteínas estão também elevadas no
normalmente contêm pequenas quantid ad e s d e lupus eritematoso disseminado, dermatomiosite,
proteínas plasmáticas que se ligam a carboidratos. neoplasmas malignos (especialmente aqueles com
Compostos forma d o s p o r p r o t e í n a s e c a r b o i- metástases e grande massa tumoral), infarto do
dratos são classificados em dois grupos: glic o - miocárdio, esclerodermia, reumatismos metabóli-
proteínas e mucoproteínas. Estão presentes nos cos ou infecciosos.
seguintes compostos: hexoses (galactose ou ma - Redução das mucoproteínas ocorre na desnutri-
n o se); hexosaminas (glicosamina ou galactosa- ção, enfermidade hepática severa e gastroentero -
mina); metilpentose (fucose) e ácido siálico patias perdedoras de proteínas.
(Ácido N-acetilneuramínico). A fração protéica é Atualmente, o teste de mucoproteínas está
composta de transferrina, ceruloplasmina e hapto- sendo substituído com vantagens pela determin a-
globina. ç ã o d a α1 -g l i c o p r o t e í n a á c i d a (AAG). Esta avali-
As glicoproteínas são aquelas proteínas unidas ação apresenta melhor especificidade, sensibili-
a carboidratos com menos de 4% de hexosamina d ade e adequação ao laboratório por ser menos
(e até 15% de carboidratos). t rabalhosa.
A s m u c o p r o t e í n a s , p o r s u a vez, contêm mais
que 4% de hexosamina (e 10 a 75% de carboidra- D ETERMINAÇÃO DAS MUCOPROTEÍNAS
tos).
Em quantidades variáveis; as mucoproteínas
P a c i e n t e . Não é necessário jejum para a coleta
estão presentes em todas as frações globulínicas,
de sangue.
sendo de interesse clínico a α 1 -glicoproteína
ácida. As mucoproteínas do soro normal migram,
Amostra. S o r o o u plasma hepariniza d o . Separar
principalmente, junto à α 1 -globulina, enquanto as
a amostra logo que possível. Armazenado em re-
de um soro patológico correm com a fração α 2 -
frigerador, o soro mantém-se inalterado por uma
globulina.
semana.

S IGNIFICAÇÃO CLÍNICA DAS Métodos. Em anos recentes, a utilidade clínica


MUCOPROTEÍNAS da avaliação das mucoproteínas foi suplantada
pela determinação da α 1 -glicoproteína ácida. Co n-
Apesar do papel exato das mucoproteínas ser des- sequentemente, existe pouco incentivo em desen-
conhecido, elas estão associadas com a inflama - volver e aperfeiçoar este ensaio. Como em nosso
ç ã o ; n í v e i s e levados são encontrados após episó- meio este teste ainda é utilizado, faz-se a seguir
dios de inflamação aguda. algumas considerações quanto a sua determinação.
Valores aumentados (em geral 8 a 12 mg/dL Vários métodos foram descritos para a deter-
em tirosina) são encontrados na febre reumática, minação das pro t e í n a s p r e s e n t e s n a s m u c o p r o t eí-
Aminoácidos e proteínas 89

nas, tais como, químicos, eletroforéticos ou por


imunodifusão. O mais popular utiliza métodos
químicos. Bibliografia consultada
Método químico. É o método mais usado. B a- CLAYTON, Barbara E., ROUND, Joan M. Clinical
seia -se na propriedade das mucoproteínas serem b i o c he m i s t r y a n d h e s i c k c h i l d . L o n d o n : B l a c k w e l l
Science, 1994. 555 p.
s o lú veis em ácido perclórico diluído, mas preci-
TORO, G, ACKERMANN, P.G. Practical clinical
pitar com ácido fosfotúngstico. Este último é la -
c h e m i s try. B o s t o n , L i t t l e B r o w n , 1 9 7 5 . 7 7 9 p .
vado e a quantidade de mucoproteínas é determi -
W A L M S L E Y , R . N . , W A T K I N S O N , L . R . Cases in chemical
n a d a c o lo rimetricamente através do reagente de pathology. N e w Y o r k : W o r l d S c i e n t i f i c , 1 9 9 2 .
Folin -Ciocalteau. Estes métodos pecam pela falta
WINZLER, R.J. “Determination on serum glycoprotein”. In:
de exatidão. G L I C K , D . Methods of biochemical analysis. New York
: Interscience, 1955, V. 2.

Valores de referência para as mucoproteínas


Adultos 2 a 4,5 mg/dL (em tirosina)